quarta-feira, 7 de março de 2012

The boundaries of humor

Os limites do humor é um dos temas preferidos dos humoristas. Uma das frases-tipo neste género de discussão é o clássico da agropecuária: "não à vacas sagradas no humor"! (Pausa) O facto de eu ter escrito há, do verbo haver, sem h e com um acento grave, foi só para estimular as vossas glândulas salivares! Por um momento que fosse, perguntaram-se o que é que este inútil está aqui a fazer?! Senti um frio glaciar! Umas coisas no estômago! Chama-se criar uma expectativa no público, que depois não se consuma. (Pausa) Exacto, como na vossa vida sexual! (Pausa) Também se chama ser estúpido, evidentemente. Claro senhor Lobo Antunes, sim compreendo perfeitamente o seu raciocínio, são vozes que nos assaltam e nos roubam a ordem natural das coisas. E no seu caso, a ordem natural das coisas tem a dupla função de juizo e de livro. Claro! A referência ao quase nobel da literatura só é útil para algumas pessoas. As que tiverem nível para isso! As que não tiverem, das duas uma: ou vão num instante a uma loja de materiais de construção e compram um, ou saltam a referência à frente. Tanto num caso, como no outro, coloca-se a seguinte questão:
- Tem o humorista o direito de pôr em causa a cultura e a capacidade intelectual de um auditório?
- Tem!
- E de uma plateia?
- Também
- E de um grupo de pinguins?
- Igualmente! Claro que precisa também ele próprio de ser um débil mental! (Pausa) Ou então, simplesmente, não ter problemas com isso! Ou então, chamar-se George Carlin e o auditório ser a América à saída da guerra do Vietnam e prestes a entrar na administração Reagan. Aí, temos um perfect match! Se não perceberem a referência a George Carlin, aí levo-vos a mal e como castigo obrigo-vos a ler de enfiada, e sem tesoura e cola, Boa tarde às coisas aqui em baixo, Eu hei-de amar uma pedra, Ontem não te vi em Babilónia e arquipélago da insónia. Se mesmo assim conseguirem escapar à baixa psiquiátrica, posso sempre agendar-vos uma visitinha ao hospital... Ups, esta é para retirar! Esqueçam! Se ainda não leram esta última frase, não leiam agora, apesar de isso ser logicamente impossível. E se for caso disso, leiam a última crónica do Lobo Antunes, na Visão do passado dia um... Voltando à vaca fria (aperceberam-se do jogo de palavras de gabarito excepcional?), o facto de vos ter induzido a pensar o pior de mim com aquela cena deh tirar he meter o h em todo o lado, menos onde é preciso, é bom, pois mantém-me alerta e com vontade de vos zupar todo o dia, quem quer que vocês sejam. Os humoristas, sobretudo aqueles que dão entrevistas e ganham bem, adoram dizer que não há gado bovino indiano no humor português, i esso é algo que me deixa com vontade de trocar os e pelos i (onde está e leiam i, i vice-versa). Normalmente, completam o seu raciocínio com um "em última análise, os limites são aqueles que cada humorista estabelece para si próprio", ou, em português de porquinho-da-índia, "eu azucrino os outros até aos limites da minha própria paciência, hoinc-hoinc"! Que é como quem diz, "quando até a mim já começa a meter nojo"! (Pausa) Brincar com o internamento de alguém, por exemplo, é um desses limites que não deve ser ultrapassado? Brincar com a doença de outrem é boa ou má arte? Enfim, se pensarmos que tanta gente parodiou a morte de Michael Jackson, Carlos Castro ou Betty Grafstein... (Pausa. Dar tempo para que o Royal Albert Hall se recomponha) Só para falar nas mais recentes... (Pausa) Depende! De quem? Da consciência de cada humorista! O todo o poderoso humorista! Ou sai legislação já, ou saem pides para a rua, agora, alguém tem que acabar com esta pouca vergonha de um indivíduo poder fazer comédia sobre tudo e não importa o quê! Ups, estive a falar com pessoas da família do lado da minha mulher, que são emigrantes em França. (Pausa) Bem, estávamos na pide... (Pausa) Pronto, já não estamos! Brincar com a saúde das pessoas parece coisa séria! Pelos vistos, mais do que brincar com a morte. Exemplificando: no outro dia, fui para a rua pontuar pessoas com estilo. Esta categoria incluía a forma de vestir, o jeito de andar, o corte de cabelo, a atitude... Enfim, uma coisa bem organizada. Levei aquelas plaquinhas, que parecem raquetes de praia, com a pontuação, que levantava à passagem dos incautos transeuntes. Ganhou um tipo que tinha acabado de ter alta do hospital, depois de ter sofrido um avc uma semana antes. Ele agradeceu - acho eu - a nota máxima e disse: nhanh-uhnuh-ôi-c-i-ó-i-á-du. Eu disse: de nada, ora essa. E desejei-lhe boa sorte, porque o homem se preparava para atravessar a pé no ic19, só porque dá mais pica, segundo me disse, uma vez que não é porque agora tem este problema de saúde que vai deixar de fazer as coisas que fazia antes! Finalmente, até parece que o humor, a ironia e o sarcasmo fizeram as partilhas do terreno do espectáculo e disseram: Ironia - Eu fico com esta embelga! Sarcasmo - E eu com esta! Humor - E eu fico com esta, onde dá mais sol! Ou é de mim, ou ficaram com diferentes partes da mesma coisa?! É aqui que vocês dizem: - Lá está ele a ser irónico! Ou seria sarcástico? Ou simplesmente, estava tão só a fazer comédia?

Nota - Gostava que o George Carlin tivesse dito este texto. Dedico-lho postumamente! Que é assim que a gente lixa os gajos que já morreram!

Farewell, George

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