sexta-feira, 27 de abril de 2012

Piquenique

Cenário e enquadramento: Na situação presente, trata-se de um “directo” durante um serviço noticioso, realizado a partir de um pinhal, onde uma família de cinco pessoas [casal e filhos pequenos] come a uma fresca. Trata-se de uma situação de piquenique típica de um domingo de verão, com a toalha estendida no chão, os membros da família à volta, felizes com a sua condição, com a felicidade que a vida lhes reservou… O único elemento que destoa é mesmo a presença de uma arca frigorífica, das grandes, ligada a um pequeno gerador eléctrico [ou não, se pretender aprofundar-se o nonsense da coisa]. Este momento visual deve constituir o elemento forte do Sketch, a punch line do texto. Aliás, a arca deverá estar sempre presente ao longo de todo o Sketch, como elemento desconstrutor, o que quer que isso seja.


Jornalista – Estamos em directo deste pinhal perto da praia, onde muitas famílias portuguesas aproveitam para fazer um piquenique e passar algum tempo em contacto com a natureza. Vamos falar com este senhor, que parece ter trazido tudo (a câmara foca a arca frigorífica) o que faz falta para fazer face às altas temperaturas que se sentem no dia de hoje. Então, o que é que traz na arca frigorífica?

Pai chefe de família – É o meu paizinho e a minha mãezinha… (Aproxima-se do electrodoméstico, acaricia-o, há carinho e amor sincero naquilo)

Jornalista – (Visivelmente surpreendido e enojado) Mas o senhor tem a noção de que o que está a fazer é um crime?! Não vê que eles podem morrer de hipotermia?

Mulher mãe de família – Oh Brito, eu não te disse que era para deixares os paizinhos em casa?! Eu bem te disse que isto ia dar para o torto! (Pausa, abana nervosamente a cabeça. Continua:) Tu e essa mania que eles têm de arejar!

Pai chefe de família – (Virando-se para a mulher) Cala-te mas é para aí! Se fosse por ti, os meus paizinhos nunca saiam de casa! Na semana passada, quando trouxemos os teus paizinhos na arca, vieste toda contente!

Jornalista – (Ainda incrédulo) Mas não vê que os seus paizinhos podem morrer de frio aí dentro… Aliás, a esta hora se calhar já faleceram…

Pai chefe de família – O paizinho, por acaso, já faleceu esta manhã, antes de sairmos de casa… Acordou bem e conforme me estava a dizer bom dia, assim “ficou”! Mas como já tínhamos tudo organizado para vir para aqui… Os panados e o arroz branco (quer um rissolinho? Oh Amélia, dá aí rissolinho ao senhor…)! Quer dizer, dava um grande transtorno estar a alterar tudo. A minha mãezinha é mais rija e está ali dentro como aço! Quer ver? (Ao mesmo tempo que pergunta, levanta a tampa da arca. Vê-se o pai, sentado, com o pescoço para baixo, como se estivesse a dormir. A mãe levanta-se e sorri para a câmara. O Pai, chefe de família diz:) Oh mãezinha, diga boa tarde às pessoas da televisão, que estão a fazer-me uma entrevista! (O jornalista tenta colocar uma questão à senhora, mas o Pai, chefe de família começa a fechar a tampa da arca, dizendo:) vá para dentro, mãezinha, que está um calor cá fora que não se aguenta! Olha que na televisão eles estão sempre a dizer que é preciso ter muito cuidado com as criancinhas e os velhinhos à conta do calor! Vá fazer companhia ao paizinho… (Fecha a tampa!)

Jornalista – Não acha que o funeral do seu pai é mais urgente do que fazer um piquenique?

Pai chefe de família – Depende da pessoa que morre! Não sei se me está a compreender?! Se for uma pessoa importante, sei lá, um presidente de junta, um presidente de câmara… (Pausa. Pensa em graus de importância, remata:) um sucateiro, enfim, pessoas de destaque, aí ‘tou d’acordo, aí pára tudo, que há coisas com que não se brinca! Agora, o meu paizinho foi um desgraçado toda a vida, nunca andou na política…

Jornalista – Então e agora o que é que vai fazer?

Pai chefe de família – Uma vez que pergunta, agora vou ali adiante num instante meter gasóleo à bomba, que ó domingo é 8 cêntimos mais barato!

Jornalista – Referia-me aos seus paizinhos?

Pai chefe de família – A minha mãezinha está bem, não podia estar melhor. É uma pessoa um bocadinho fria, que não chora por dá cá aquela palha… De maneira que não deve estar a estranhar nada, nada o ambiente… (As crianças batem-se, uma delas chora! O pai intervém:) Oh meninos, toca a parar imediatamente! Se não, já sabeis, meto-vos aos três na arquinha com os avós! (As crianças param. Parecem atemorizadas. Virando-se para o jornalista:) É remédio santo, ficam logo calminhos para quinze dias! Quanto ao paizinho, vou esperar pelo começo do fim da crise, que isto hoje em dia morrer é um luxo! E o paizinho viveu humildemente, mas resolveu morrer acima das suas possibilidades! Não se pode morrer em qualquer altura!

Jornalista – Bom, muito obrigado! (Virando-se para a câmara, terminando o “directo”:) Bom, Hélder, daqui é tudo por agora (com a naturalidade possível. Termina a ligação ao estúdio, virando-se depois para o Pai, chefe de família:) Bom, muito obrigado mais uma vez pela sua colaboração…

Pai chefe de família – Ora essa! Vai uma cervejinha fresquinha? (Bate na arca com força, grita para o seu interior:) Oh, mãezinha, passe aí duas bojecas fresquinhas, se faz favor… (A tampa abre-se, uma mão ergue duas garrafas de cerveja. O homem pega nas garrafas, dá uma ao jornalista, choca a sua garrafa no do outro, atónito e sem reacção).

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