segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Gente gorda

Actor - O texto que se segue é para ser interpretado ao vivo, na primeira parte de um espectáculo de stand-up comedy. Durante o espectáculo, serão distribuídas maçãs pelo público. Está comprovado que as maçãs impedem o organismo de assimilar as gorduras.

Gordos. Quem nunca se cruzou com eles? Aproximarmo-nos de um gordo no passeio é como chegarmos a uma rotunda. Uma vez que se entre num gordo procura-se a primeira saída. Os gordos dos dias de hoje olham para as pessoas magras como se olhassem para o mapa da África Subsariana: com pena daquelas pobres criaturas, que não tiveram a oportunidade de estagiar num alguidar de carne picada com cebola desde os doze anos até atingir a maturidade plena, por volta dos cento e cinquenta quilos. (Pausa) O que chateia nos gordos, hoje, é o exibicionismo: deixam a barriga à mostra de propósito, que sobra da t-shirt, incapaz de segurar a prega de gordura que pinga sobre o púbis nos dias mais quentes. É horroroso, sobretudo, quando o pingo rançoso faz looping nos pêlos do umbigo, antes de cair desamparado no chão. Há inclusivamente, entre eles, famílias inteiras felizes, apesar do sebo que ganham nas dobras da pele. No outro dia, entrei numa loja de marroquinaria situada num centro comercial. Pensei ver uma carteira para mim, já que sou magro e tenho direito à vida e ao melhor que ela me pode proporcionar. Pensei numa Samsonite. Andava nesta vida quando me deparo com pai, mãe e filho, todos acima dos duzentos quilos à vontade. À minha frente, a obstruir o corredor por onde queria passar, seiscentos quilos de massa gorda! (Pausa) Pensei que ia dando um AVC à loja! (Pausa) Pensei: o McDonald's agora tem rodinhas! (Pausa) Pensei que é por isso que somos um país de toureiros! (Pausa) Pensei que é por isso que existe o Alentejo: para haver um sítio onde aquela gente caiba! (Pausa ligeiramente prolongada para sentir o público) Pensei que é por isso que acabo de inventar um novo desporto: largadas de gordos que tenham participado em reality shows. (Pausa) Estão habituados a correr. Bom, voltando à loja: parecia que o sítio ia rebentar, que os vidros iam desfazer-se em mil pedaços e que pessoas inocentes iam ser projectadas para fora daquele espaço com a força do impacto. Eu fiquei a olhar para eles, e eles para mim. Se eu me encostasse a uma das prateleiras para eles passarem, e eles tentassem passar, eu passaria a ser uma mala de viagem para senhora. Senti-me prestes a ser trespassado por uma manada de búfalos e recuei. Quando entrei na loja e pouco depois os vi, pensei que estava a entrar na adega da minha avó: três tonéis com olhos, atestados de vinho morangueiro e nacional, que ameaçavam atirar-se para o chão e rebolar para cima de mim. Claro que se eu vos perguntar o que eles foram lá comprar, vocês dir-me-ão: arreios! (Pausa) Nada disso! (Pausa ligeiramente prolongada, de modo a sentir o público) Cintos! (Pausa ligeiramente prolongada, de modo a sentir o público). Gordos! Quem nunca se cruzou com eles? Agora, são estrelas de televisão. Ver um gordo a esvair-se em suor na televisão é sinónimo de entretenimento. Estou convencido que era mais decente largá-los num monte e soltar-lhes os podengos, do que esperar que um morra em directo, durante uma gala de domingo, de ataque cardíaco, ao descobrir que o gordo do lado emagreceu mais um quilo e que por isso continua em frente. Para mim, os concorrentes deste tipo de emissão, que fossem sendo eliminados, deviam ser doados na forma de paletas de fiambre da pá e da perna para o banco alimentar contra a fome grego. De que serve pesá-los se depois não os podemos consumir na cadeia alimentar? Era uma maneira bonita de serem úteis à sociedade. Fica a ideia para os senhores da Endemol aproveitarem.

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