domingo, 29 de janeiro de 2012

Imitações

O extracto "Bem, agora que já destilei a primeira dose de inveja do dia, dizer que acordei com ramelas no lado do olho onde elas são paridas durante a noite, ali juntinho à cana do nariz, naquele vértice que faz da órbita ocular uma amêndoa. Como adoro frutos secos, acabo de colher a fruta toda do olho e fazer uma salada na boca com o resto das avelãs e nozes, que estiveram a marinar durante toda a noite, da tablete de chocolate que comi ontem ao serão, já deitadinho na posição do morto, enquanto a outra metade da cama mostrava como é que se dorme." é claramente o registo do João Quadros em "Tubo de Ensaio". Na crónica humorada a que pertence, "Gestos lestos", mas também em "Tribo centro-europeia" e "Ler revistas nos supermercados", pretende-se fazer uma imitação do estilo do autor (João Quadros), mas também a forma como o actor (Bruno Nogueira) interpreta o texto, provando, assim, que é possível fazer imitações de autores da mesma forma que o Luís Franco Bastos imita vozes. A imitação que este faz de Bruno Nogueira, por exemplo, na presença deste, é simplesmente assombrosa e demonstra que o humor é, por um lado, uma camisola do avesso, por outro, um caminho que são milhares. O projecto "Remédio dos Escaravelhos" surge para experimentar o texto humorístico, pretende ser uma via para trazer cá para fora ideias que ocupam muito espaço do lado de dentro. Por exemplo, lembrei-me que viria a propósito (é sinistramente actual) fazer um sketch a partir das recentes notícias de mortes de idosos que vivem sozinhos, em regime de semi-abandono. O sketch chamar-se-ia "geriatria 24", uma espécie de linha sos para idosos sós. O sketch seria simples, implicaria uma operadora telefónica (e uma segunda, como figurante, sem falas) que faria chamadas para casas de idosos. Abriria assim: 
Operadora telefónica - Linha geriatria 24, boa noite, é o senhor Martins?
Idoso - Sim, sim, o próprio.
Operadora telefónica - Estou a ligar para saber se já morreu. Imagino que não! Pedia-lhe no entanto que me confirmasse que está vivo. É possível?
Idoso - (Incrédulo) Desculpe?
Operadora telefónica - É apenas um pro forma, Senhor Martins. Queira compreender que estamos a zelar apenas e só pelos seus interesses. (Ligeira pausa) Senhor Martins? Senhor Martins, ainda está em linha? Senhor Martins? (Ligeira pausa, vira-se para a colega do lado) Olha, queres ver que o velho morreu?!
Idoso - (Indignado) Não minha senhora, o velho não morreu!
Operadora telefónica - (Embaraçada) Ok, senhor Martins. Pronto para fazer a prova de vida?
Idoso- "Prova de vida?"!
Operadora telefónica - Sim, senhor Martins. É muito simples, repita a seguir a mim: "Senhor, Te damos graças por mais este dia que passa sem que um bombeiro tenha de arrombar a porta com um pé-de-cabra". Vá, repita lá...
Idoso - (Pouco convencido) "Se-nhor, Te da-mos gra-ças po-r mais es-te di-a sem que um bom-bei-ro te-nha de a-rrom-bar a por-ta com um pé-de-ca-bra"!
Operadora telefónica - Muito bem, senhor Martins. Está bem vivinho da silva, assim é que é. Só falta passar o teste de lucidez! O meu nome é Marta, diga, senhor Martins, como é eu me chamo?
Idoso - Marta...
Operadora telefónica - Muito bem, passou os dois testes com distinção. Pronto, senhor Martins, por hoje é tudo. Amanhã, ligaremos logo pela manhã para ver se não bateu a bota, sim? Boa noite e até amanhã... Ou... até sempre!
Um dedo apontado ou simplesmente criação artística, o amor (de corno) à escrita (todos dormem com ela, apesar de eu achar que é minha), a vontade de fazer vida disto e acabar com uma rotina que, aos 35 anos, não me satisfaz de maneira nenhuma, são, enfim, as razões deste projecto e o fôlego para escrever diariamente o mundo ao contrário, na minha opinião, o papel do humor. 

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