sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Declaração urgente ao país

Jornalista – Olá, muito bom dia, estamos em directo do palácio de Belém, onde o presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, se prepara para fazer uma declaração urgente ao país. É pena que o país esteja a dormir, pois são quatro da manhã e o presidente marcou isto há duas horas atrás. Com efeito, pouco passava das duas da manhã quando as redacções dos jornais, rádios e televisões começaram a ser invadidas por faxes, mails e mensagens no facebook a convocar os jornalistas para uma conferência de imprensa. O que terá levado Cavaco Silva a interromper a sua noite de sono é a questão que se coloca neste momento. Aguarda-se por isso com enorme expectativa a entrada do sr. Presidente aqui nesta sala do Palácio de Belém onde já se encontra um batalhão de jornalistas… Atenção, o Sr. Presidente acaba de entrar na sala e prepara-se para fazer então a sua declaração ao país… Bebe um golo de água, atenção, vai começar a proferir a declaração... Vamos escutar!
Cavaco Silva – Portugueses, dirijo-me a vós neste momento muito difícil para o país, neste momento em que o país tem pela frente desafios muito importantes, para colocar a seguinte questão:
- Será possível alguém do exterior entrar nas minhas declarações sobre o valor das pensões que aufiro e distorcer o seu conteúdo? Para mais, declarações que proferi ao vivo, à frente dos senhores jornalistas, à frente de alguns de vocês que aqui estão à minha frente? E distorcer o que eu disse sem que ninguém se aperceba? Nem o sequer o Miguel Relvas?
Jornalista – (Em voz baixa) Cavaco Silva a referir-se às suas polémicas declarações a propósito das pensões que recebe e do facto de que o que ganha por mês não chegar para as despesas que tem… Vamos continuar a ouvir…
Cavaco Silva – E será possível que isto tudo aconteça e ninguém assuma responsabilidades? O que eu devia era ter ido para presidente da Guiné Equatorial, que fica na linha do Equador para quem não sabe, e tem um crescimento do PIB na ordem dos 6%. E nem sequer são brancos! Agora imagine-se que eram?! E olhem que isso também se arranja na clínica do doutor Rebelo, que ele faz um óptimo preço se for por atacado. No caso do Michael foi mais caro, porque era só um, e ligar as máquinas de dar o branco só por causa duma pessoa gasta muita luz! Agora se for para um país inteiro, o preço compensa muito mais!
Jornalista – Vamos tentar colocar uma questão ao Sr. Presidente. Sr. Presidente, Sr. Presidente, para o blog de todos nós, diga-me: não lhe parece que as suas declarações, aquelas em que disse que o que ganhava não chegava para as despesas, foram, no mínimo, “infelizes”? É que o Sr. Presidente aufere qualquer coisa como 10 000€ mensais…
Cavaco Silva – “Infeliz” sou eu, ouviu bem?!
Jornalista – Desculpe, Sr. Presidente, não ouvi!
Cavaco Silva – “Infeliz” sou eu, ouviu agora?
Jornalista – Desculpe, Sr. Presidente?
Cavaco Silva – O senhor jornalista já viu algum Aníbal que fosse feliz? Pelo amor de Deus! É por causa destas intromissões de softwares malignos e estranhos que alteram o software da minha voz, apesar dos aspegics que tomo todos os dias para evitar os vírus, que eu prefiro comunicar através da página oficial da presidência da República, no facebook.
Jornalista – Mas o que o Sr. Presidente está a dizer é que alguém conseguiu distorcer o conteúdo das suas declarações sobre as pensões no momento em que as proferiu?
Cavaco Silva – É isso mesmo que eu estou a dizer... Senti um vibrado especial na voz, que nascia na laringe, e acabei mesmo por deixar de me ouvir a mim próprio. Pelo que não faço a mínima ideia do que disse! Mas queria também deixar aqui uma mensagem de tranquilidade para todos os portugueses e dizer-lhes que o mais alto magistrado da nação já tem uma equipa do ministério público e uma outra do departamento otorrinolaringologia do hospital da Luz a proceder à instauração de um inquérito que esclareça todo este caso.
Jornalista – Bom, neste momento, o senhor Presidente prepara-se para abandonar a sala sem direito a mais perguntas por parte dos jornalistas, dos muitos jornalistas aqui presentes, diria mesmo. Entretanto, Aníbal Cavaco Silva fala com um dos seus 20 assessores presentes na sala, no caso, o assessor para as questões da pele do pescoço a partir dos setenta. Aí está, segreda qualquer coisa ao ouvido do seu assessor, este acena afirmativamente com a cabeça. O assessor, neste momento, pega numa cestinha tipo do pão, igual aquelas que se usam nos peditórios durante a missa, e começa a percorrer a sala, dirigindo-se aos jornalistas e pedindo uma pequena contribuição. Bom, daqui é tudo, tenho de pousar o microfone para poder tirar 20 cêntimos do bolso pequeno e apertado dos jeans. Daqui é tudo! Voltaremos à emissão sempre que assim se justifique.

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