terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

guião para stand-up para humorista mulher - excerto

Guião

Uma das coisas que eu aprecio no discurso é a capacidade que ele tem de organizar por ideias as duas ou três caganitas que eu penso - lá muito de vez em quando - sobre alguma coisa.
Claro que são ideias feitas da mesma matéria da caganita o que se por um lado se traduz numa espécie de naturalismo filosófico sustentável e amigo do ambiente, por outro, dá sempre em
caca.
Como em tudo, também na caca há coisas boas e coisas más.
Isto não teria nada de mal se eu não fosse ministro das finanças.

Graças a Deus que a última frase sou só eu a ensaiar uma punch line.

Ganda' ministo das Finanças que nós temos.
A conferência de imprensa do ministro sobre sms's com o ex administrador da Caixa Geral de Depósitos dá um tratado de Ética prática ou o guião para uma execução do Estado Islâmico.

Quem é que deu o guião da conferência ao ministro?

Só pode ter sido o JJ.
Aquilo 'tava tão errado!
Enfim,
Foi tão bom mau,
tão bom mau,
tão bom mau que Mário Centino,

desculpem,

Mário Centeno arrisca-se a ser o João Palhinha do governo.

Já agora,

estão a ver o Shaggy Rogers do Scooby-doo?
O personagem, sim , estão a ver?
Ok, não estão.
Não faz mal...
Tão a ver o Mário Centeno?
É ele, é ele, é o mesmo...

Só mais uma do ministro:
ele disse que o lugar dele estava sempre à disposição!

Olha, tem graça!

O meu também.

Estou desempregada desde que acabei o curso e o meu lugar está sempre à disposição desde aí.

Se o senhor ministro quiser trocar...
Se calhar até era melhor o senhor não tocar em nada, não fazer nada...

E eu pior que o senhor ministro se calhar também não fazia.

Agora gostaria de terminar,
despindo-me
Não,
'tou a brincar,
Por acaso tem muita piada...
Mas
já fiz isso no espectáculo de ontem.
Queriam rir à fartazana tivessem vindo ontem
ao bar onde eu faço umas horas como stripper

Antes de ir, digam:

"Mais mas"
muito rápido
muitas vezes seguidas

Não é

"Mais"

é

"Mais mas"

Vá, deixem lá isso
que é só parvo

É lixado não é,..

... quando a gente quer e não pode...

Deixem lá, eu gosto de vocês na mesma...

Era o que a minha mãe dizia ao meu pai...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Carta aberta ao senhor presidente da república

Exmo. Senhor presidente da República,

dirijo-me a si na sua qualidade de animador sócio-cultural do país para lhe dizer que andamos a precisar de um campeonato da europa para animar, até para ver se o Éder volta aos golos. Se calhar, o plural aqui não se aplica. Gostaria de dizer-lhe que durante a quadra natalícia tive de me deslocar a uma urgência hospitalar por me encontrar engripado. Não correu bem. Para começar, quando cheguei não fui recebido pelo senhor Diretor-Geral de Saúde. Depois, não estava lá o senhor presidente para me abraçar. Enquanto presidente de todos os portugueses tem o dever de abraçá-los a todos. De preferência, em momentos complicados das suas vidas, como nas deslocações às urgências hospitalares. Devo dizer, no entanto, que não faltava lá gente para abraçar, umas 80 pessoas só à minha frente. Tentei abraçar algumas que foram pouco receptivas e nada afectuosas. Saiba o senhor presidente que passo por momentos difíceis. Estou desempregado e, quando não estou, encontro-me a um curto passo de voltar a estar. Já agora, uma pergunta professor: diz-se "estou desempregado" ou "sou desempregado"? A pergunta nem sequer é filosófica, sinta-se portanto à vontade. A dúvida é de português - se fosse francês estávamos conversados - e a questão é, no máximo, política. E aqui já entra o senhor presidente.
Mas adiante. Como se a minha vida já não fosse difícil, sou sportinguista. Deve o senhor presidente imaginar em que estado de sofrimento me encontro! Para além de não acreditar em Jesus, imagino que ser desempregado benfiquista seja, ainda assim, mais fácil.

Um beijinho,
HGP

Vozes a mais...

Pois eu, meu caro Paul Auster, ainda bloqueio à frente da página em branco!
É o pânico total.  
Aos 40 seria de esperar mais.
Ou melhor, menos e começar assim a história em andamento [pelo meio, mesmo], pegando-a pelo ponto de vista do alfinete, nem sequer é uma homenagem a Machado de Assis.
Até porque os alfinetes são objectos anacrónicos nos dias de hoje, o que não acontecia ao tempo de Assis.
O parágrafo anterior é parvo porque escolher um alfinete para narrador participante de uma história seria tão ridículo hoje como no tempo de Machado de Assis ou de São Francisco de Assis.
Escrever sem assunto dá nisto de nos metermos nos assuntos dos outros, de usarmos os seus recursos estilísticos como se fossem recursos naturais.
Por falar em recursos naturais, sinto-me a merda que andou a passear pelos cus de Sartre e Céline.
[Até a merda em que estou metido pertence a outros.]
E posso assegurar-vos de que não se trata de um passeio de domingo à tarde pelo parque, descortinando senhoras debaixo de chapéus de aba larga e sombrinhas com bordados.
Dentro de mim tenho uma voz que diz:
Sê criativo!
Tira um curso de ser criativo!
Estás à espera do quê, vai, anda!
Felizmente, dentro de mim tenho outra voz que diz:
NÃAAooo!
E uma terceira que diz:

Não é bom ouvir vozes…