quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Da transitoriedade, com amor!

Nos dias que correm, não há português que não seja transitório, esteja em trânsito ou transitado em julgado.
 
Dizer-se, por definição, que a direita não tem sentido de humor é, por um lado, um manifesto exagero, por outro, uma imprecisão que urge corrigir. É de quem não percebe nada disto, é de quem pensa - ó vistas curtas - que a definição define, que o governo governa, que - oh - o transitório transita. A direita só não tem sentido de humor quando é de direita, o que não acontece com a direita em Portugal, como o provou ontem a ministra das finanças durante a apresentação do orçamento de estado (OE) para 2014. Aliás, por cá a direita só o é no sentido em que não é de esquerda, definindo-se pelo seu contrário, o que infringe as regras da definição que define mas não as regras da definição que indifine, infundindo cada palavra de uma riqueza sémica que apesar de não esclarecer o sentido também não provoca dor de dentes a ninguém. Neste sentido, a definição de um termo transita de pessoa para pessoa, com mudanças bruscas de direção, de tal modo, que o que ontem era sêmea de trigo hoje é arroz doce e amanhã trufas. O que é um pénis? A definição que define diz "órgão sexual masculino", mas o José Castelo Branco aparentemente tem um, conforme penso ser demonstrável por filmografia recente, e não é por isso que alguém se preocupa com o rigor da definição. Por isso, quando ontem Maria Luís Albuquerque explicitou o seu conceito de transitório a propósito das "medidas transitórias" do OE não pude deixar de estar mais de acordo com ela. Medidas transitórias não é sinónimo de "medidas anuais", muito menos, de medidas transitórias, ousaria acrescentar eu. Só quem for abusivamente maldoso -  e não apenas meramente maldoso - é que poderia achar que "medidas transitórias" seriam "medidas transitórias". No caso vertente, medidas transitórias são-no na medida em que transitam de um orçamento para outro. Não percebo as reacções francamente exageradas de diversos quadrantes da sociedade portuguesa sobre esta definição, para mais transitória, da ministra das finanças sobre o que significa "transitório", e só linguistas pouco informados poderão lançar a dúvida sobre esta matéria. A definição de Maria Luís Albuquerque introduz uma nova noção de temporalidade ao termo, de tal modo que nos permite dizer que o Estado Novo foi uma "medida transitória" entre a I República e a Democracia e que teve a duração de 48 anos, entretanto suspensa desde 2011 de forma também transitória, já lá vão dois anos. Manuela Ferreira Leite preconizava uma "medida transitória" deste género mas por apenas seis meses, o que nos remete uma vez mais para a noção de temporalidade na nova acepção do termo "transitório" à luz das medidas transitórias prevista para o OE do próximo ano. Nos dias que correm, não há português que não seja transitório, não esteja em trânsito ou não tenha transitado em julgado. Porquê coiso um dois três à volta de uma beterraba que tem tanto de rolling stones como de pearl jam? Sinceramente, não percebo!

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