sábado, 9 de março de 2013

Capitalismo e esquizofrenia

Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal, disse no último debate quinzenal na Assembleia da República, que "o ideal, o ideal para baixar o desemprego era baixar os salários". Já passou o enjoo? Bem, se já passou o enjoo ao leitor então eu vou prosseguir sobre o tema. Quando o primeiro-ministro diz "o ideal seria" ele expõe, mais do que um desejo, um ideal, lá está. A banda pop do início dos anos 90', Ban, lançou o mote e dasafiava, depois de pedir um ideal às pessoas, que estas fossem "idealizar por aí". E é precisamente o que o primeiro-ministro tem feito desde o princípio dos aos 90', ou como se diz em política, desde o princípio do fim do cavaquismo, entendido em sentido estrito. Porque em sentido lato, o cavaquismo só acaba quase duas décadas depois, quando rebenta o BPN, e com este o défice, e com este o país, de tal maneira, que há pedaços de Portugal no resto da Europa, África, Ásia e alguns vestígios na Oceânia e no continente Americano. Há quem lhe chame estilhaços, como eu, há quem lhe chame emigração, como o senhor primeiro ministro. O que é estranho é que Passos Coelho vá ao parlamento dizer: "o ideal seria descer os salários", como se enunciasse um sonho irrealizável, como se formulasse um desejo impossível, como se não tivesse passado o ano e meio anterior da sua governação a baixar os salários. Porque será que o presidente do conselho não disse "o ideal seria baixar os salários outra vez"? O leitor, a quem este primeiro-ministro "idealista e sonhador" já baixou os salários uma série de vezes nos últimos 18 meses, não estará propriamente em posição de produzir um juizo imparcial sobre esta "máquina desejante", que Deleuze e Guattari definiram em "Capitalismo e Esquizofrenia", mas estou cá eu para promover uma abordagem neutra e desinteressada. Passos Coelho fê-lo porque não quis preocupar os portugueses outra vez, foi por isso que ele não frisou outra vez quando formulou o seu desejo de baixar os salários, dando assim a entender que se o fizesse o estaria a fazer pela primeira vez. E note-se que o primeiro-ministro formula desejos ainda assim de uma forma contida, devo dizê-lo em defesa do chefe do governo contra aqueles que acham que ele está a abusar nos cortes, nomeadamente, salariais. É que para baixar o desemprego o ideal seria não pagar qualquer remuneração ao trabalhador, isso é que seria o ideal... Já se chamou escravatura, agora, chama-se reequilíbrio das contas públicas e não é para abolir!

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