segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Segunda-feira de manhã

Ou é de mim ou está frio. Agasalhem-se ou, então, saiam de casa nus e aqueçam o dia de alguém. Ou então não, façam como é costume, vistam-se de preconceitos e aceitem o que a vida vos dá: taxas de juro, Angela Merkel e disfunção eréctil. Assim, por esta ordem e nem é preciso escrever carta ao pai natal. Umas das coisas que eu aprecio na segunda-feira de manhã é saber que, enquanto o mundo trabalha, nós estamos aqui a "pensar" o mundo. Quando digo "nós" falo de um sujeito colectivo indeterminado, que para além de eu próprio, do Pacheco Pereira e do Manuel Maria Carrilho, não faço a mínima ideia de quem se trata. É um trabalho sujo mas alguém tem de o fazer. E posso bem com quem acha o contrário. Numa curta revista pela imprensa desta manhã parece que o número de pessoas sem-abrigo tem vindo a aumentar exponencialmente nos últimos meses. Eu sei que o senhor primeiro ministro pode bem com os sem-abrigo que eventualmente achem que está a enveredar por um caminho de austeridade excessiva, mas, ainda assim, senhor primeiro ministro, nem uma palavrinha para os sem-abrigo? Não? Nada? Ah, sim, afinal, parece que sim. Ora diga, senhor primeiro ministro?! Faz favor de dizer! Saiam da frente que eu quero passar! O senhor primeiro-ministro não disse isso que eu pareceu-me ter ouvido que disse, pois não? Ah, não! Que susto! Até tem ideias para resolver os problemas dos sem-abrigo... Ah, assim está bem, um primeiro ministro preocupado com a população. Ah, que susto! Subitamente, até me parecia o abominável homem das neves, só que em penteado. Afinal, é sensível às pessoas mais desfavorecidas. Ok, ora diga lá... Sim, somos todos ouvidos: cada família portuguesa com casa adoptar um sem-abrigo neste natal... Mas isso é uma óptima ideia, senhor primeiro ministro. Nem a caritas, senhor primeiro ministro, nem a cáritas. Que grande ideia! Diga? Ainda há mais? Diga então, diga... Os sem-abrigo adoptados poderiam dormir no tapete de entrada das famílias de natal, famílias de adopção, do lado de fora, claro, e fazer de pai natal para as crianças da casa, na hora de abrir os presentes. Excelente ideia. Há escuteiros que se estão neste momento a roer de inveja por não terem tido essa ideia antes. E se me é permitido meter a foice em seara alheia, o senhor primeiro ministro podia mandar construir casinhas com pacotes de arroz, pela avenida da liberdade abaixo, colar tudo com tulicreme e dar um lar de luxo numa das avenidas mais caras de Lisboa a pessoas que não têm um tecto. Onde é que ia arranjar pacotes de arroz para isso tudo? Então, faça uma ppp com o banco alimentar contra a fome, que eles fornecem os materiais e a mão-de-obra! Ah, é verdade, só para acabar, eu posso bem com quem ache que esta é uma crónica de humor populista excessivo! Agora, se me dão licença, vou ligar a televisão que às onze dá o presidente da república a jogar ao sério na eurosport.
 
Crónica humorística para rádio

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