quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Esta crónica só foi possível porque existe trabalho infantil em Portugal, e já não é de agora

Acabo de ler no Jornal de Notícias que quadrilha armada rouba 10 mil euros em impostos na Alfândega do Freixieiro, em Matosinhos. Eu não me quero meter nas decisões de uma quadrilha armada, mas nos serviços de finanças há muito mais dinheiro, para mais, dinheiro que já está habituado a ser roubado e que por isso não iria estranhar a mudança... Mas quem decide é quem tem a metralhadora! Atenção!... Agora que já começamos com um momento de humor populista, que tirei da secção de passatempos do Avante, é só esperar meia hora para vocês se recomporem e recomeçarmos a crónica. Ok, agora que já todos fingimos que passou meia hora, avancemos em frente na impossibilidade do contrário. Para mim esta interrupção até deu jeito, acabei de vestir o meu filho de seis anos, que entretanto já saiu para o trabalho, e agora sou todo vosso, que sei que vocês gostam de mim inteiro e detestam ter de me partilhar... Então cá vai: Portugal fala a várias vozes, depois de Paulo portas ter dito na terça-feira que a proposta de orçamento comunitário era inaceitável. Na quarta-feira de manhã foi a vez de Passos Coelho dizer que "aceita" as reduções dos fundos da UE previstos para Portugal. Também ontem, Cavaco disse que cortes eram "inaceitáveis". Há quem chame a isto de pessoas com ideias diferentes democracia, eu chamo-lhe um romance do António Lobo Antunes. Há uma certa dificuldade em seguir o fio à meada, apesar das mais altas figuras do Estado poderem sempre alegar que é uma questão de estilo e que até se têm fartado de ganhar prémios lá fora, que lá fora é que reconhecem o verdadeiro talento dos nossos governantes, que na Alemanha, Vítor Gaspar e Paulo Portas são muito bem vistos, mas por razões diferentes: o primeiro, porque vende lá tudo, o segundo, porque compra lá tudo; que em Bruxelas e Estrasburgo não têm mais que fazer a Passos sempre que ele lá vai, e que um dia a verdade virá ao de cima... Hoje ainda não fui ver o que diz o governo português sobre a proposta de orçamento europeu, mas aguarda-se ansiosamente pelas declarações de Vítor Gaspar e Álvaro Santos Pereira, respectivamente, ministro das finanças e um luso descendente canadiano de posses, em férias em Portugal. Entretanto, não param de chegar mensagens ao facebook desta crónica com pessoas a perguntar pelo meu "filho isto", que o meu "filho aquilo". Eu agradeço desde já a preocupação, mas o miúdo está bem, ainda está à experiência lá na fábrica de calçado, mas estão a gostar muito dele lá e, em princípio, vai ficar na empresa. Vai ganhar mal mas é o único a trabalhar cá em casa e sempre ajuda às despesas. Se for preciso alguma coisa, depois eu digo. Eu e a minha mulher estamos desempregados desde os oito anos e desde os 12 que não recebemos qualquer apoio ou subsídio. Hoje, com 22 anos, estamos naquela idade em que somos velhos demais para receber o abono de famíla, e novos demais para nos reformarmos.
 
Crónica humorística para animação de festas de casamento e baptizados.

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