sábado, 27 de outubro de 2012

Stand-up para um debutante

Olá, boa noite a todos!
 
Uma das coisas que mais me motivou quando comecei a fazer stand-up comedy e que, aliás, me fez querer continuar e abraçar esta carreira foi a reacção das pessoas, sobretudo, daquelas que me eram mais próximas, quando lhes disse que ia ser stand-up comedian: começaram-se todas a rir e, apesar disto já ter sido há algumas semanas atrás, ontem passei por dois tios meus que ainda estavam no mesmo sítio a rirem-se! (Pausa) E não conseguiam parar... (Pausa) Sem ir a casa, sem tomar banho, sem comer!... É assim, com uma reacção destas quem não se sentiria motivado para continuar? Acabei por perceber que era mesmo isto! Caramba: há pessoas no hospital com fracturas nos maxilares e a comer por uma palhinha por minha causa! Quanto mais não seja, por elas, tenho de continuar!
 
Quando uma pessoa começa numa determinada área procura as referências dessa área... As "grandes referências" que servem de guia, de inspiração... Eu não fugi à regra e fui à procura dessas mesmas referências. E quem são as grandes referências do stand-up em Portugal? José Castelo Branco, Carlos Castro, Renato Seabra, Cláudio Ramos, Margarida Rebelo Pinto, os Delfins, os Pólo Norte, enfim... (Pausa) Gente incontornável para quem quer entrar neste meio da comédia. (Pausa) Agora, uma coisa é certa: devemos ir "beber" às referências, mas sermos capazes, ao mesmo tempo, de nos demarcarmos delas... É por isso que hoje vou fazer um número super arriscado em stand-up comedy e nunca antes experimentado em Portugal: hoje trago-vos um texto sem qualquer referência a José Castelo Branco, Carlos Castro, Renato Seabra, Cláudio Ramos, etc... (Pausa) É arriscado mas ou uma pessoa prima desde o princípio pela diferença neste meio ou mais vale estar quieto!
 
Apesar de eu estar em início de carreira e as exigências serem coisas próprias daqueles que já são vedetas, não pensem que comecei nesta vida sem fazer algumas "reivindicações", digamos assim... Para mim era muito importante começar com alguma estabilidade, e por isso exigi um contrato. Quem me quiser contratar, tem de assinar um... contrato! Tem lógica! Para garantir que não era enganado, pois o que não falta é para aí gente a querer aproveitar-se de jovens debutantes, utilizei como modelo os contratos das PPP's. (Pausa) Assim, o meu está garantido, mesmo que não faça rir ninguém... (Pausa) A outra exigência foi a hora de início do espectáculo... E aqui aproveito para explicar o adiantado da hora: isso é porque o tempo passa!... É inexorável marcha do tempo!... (Pausa) Não, estou a brincar, o que num espectáculo cómico não é descabido de todo, diga-se... Agora mais a sério: a razão pela qual isto está a começar tão tarde é que quando cheguei cá depois do jantar ainda havia muita gente sóbria! É por isso que eu faço questão de começar tão tarde! A esta hora só eu e o porteiro é que estamos sóbrios! No caso de haver uma operaçâo stop dos vossos lugares até aos vossos carros lá fora, vocês ficam sem carta para vir a estas coisas durante um tempito... Ai ficam, ficam... (Pausa)
Só para confirmar:
- Ainda há alguém sóbrio na sala?
(Algumas pessoas levantam as mãos ou manifestam-se de alguma maneira)
- Seguranças, agarrem aquelas pessoas e ponham-nas lá fora! (Pausa)
 
É assim: eu estou a dar os primeiros passos nesta vida do show-business, ainda sou um comediante bebé, digamos, e eu sei que hoje estão cá pessoas importantes do mundo do espectáculo, pessoas que poderão ser muito importantes para a minha carreira. Por isso, gostaria de aproveitar para dizer uma coisa, até porque não estou aqui para enganar ninguém: "EU NÃO SOU GAY!" (Pausa) Mas calma, é assim, a noite ainda é uma criança... (Pausa) Posso fazer um esforço para mudar isso! No início é normal ter-se defeitos, quer dizer... (Pausa) Calma... Agora, hoje, se calhar, ainda não vai dar... É que está cá a minha noiva e ainda temos de acabar primeiro, antes de eu poder ir para a caubóiada, que eu cá não sou de trair ninguém... (Pausa)
 
Eu sei o que é que vocês estão a pensar: que a maioria dos stand-up comedians que conhecem não são gays... (Pausa) Isso é o que eles dizem...
 
Boa noite,
 
Espero que tenham gostado!
 
(Quando o actor se prepara para abandonar o palco, entra em cena a Joana Cruz [in my dreams, I know] com um cronómetro na mão e a dizer)
 
- O teu tempo de comédia é um bocado fraquinho. Ainda não sabes esperar pelo público e, por vezes, precipitas-te... Mas, para estreante, não está mau...
 

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