sábado, 21 de julho de 2012

Stand-up comedy: Até que enfim, um texto como deve ser sobre o Ikea

Como hoje tinha de vir para aqui, ontem fui ao Ikea, porque a minha mulher achava que conseguia meter a loja toda na mala de um skoda fábia... (Silêncio) Tá bem que é break mas mesmo assim... As mulheres são comó Júlio Isidro, chatas, e quando encasquetam que conseguem meter coisas grandes em espaços exíguos, então aí as semelhanças são mais que muitas... (Silêncio) É pá, parem lá com isso, que eu estou mesmo a falar de móveis, no sentido em que os suecos entendem a coisa... O que é certo é que ao fim de cinco ou seis horas ela conseguiu, a custo e toda encavalitada na traseira do carro, fechar a porta da mala e eu suspirei de alívio... Quando se vai ao Ikea, no final, não se sente que se põe as compras na mala... Sente-se que se fechou o monstro na bagageira e reza-se para que a chapeleira aguente... Desculpem lá o desabafo, mas quando vou ao Ikea a tendência é montar os pensamentos uns nos outros, e o que é certo é que eles encaixam todos direitinhos... Penso melhor no Ikea, penso por figuras 1, 2, 3, 4 e por aí fora... Enfim, uma das coisas que queria comprar era piaçás e, não me perguntem porquê, a minha mulher achou melhor comprá-los lá... Quando chegámos à secção onde os bichos repousavam, aparentemente inanimados, apercebi-me de que eram vendidos inteiros. Suspirei de alívio, pelo menos aquela m.... eu não tinha de montar... Não deve haver lugar mais baixo na condição humana do que um conjunto de legos para, no fim, conseguir um piaçá... Bom, aquilo já vinha, então, montado e era só chegar a casa, obrar e usar... A questão é que os piaçás eram feios e de fraca qualidade, pelo menos, aqueles que a gente podia comprar. Para mim a possibilidade de haver piaçás bonitos era uma coisa que eu desconhecia completamente e essa aprendizagem devo-a à minha mulher, que disse: - o que é que as pessoas que forem lá a casa vão dizer quando, ao usarem a nossa casa de banho de serviço, se depararem com um piaçá daqueles? E eu respondi: - As pessoas não sei, mas eu cá por mim cagava... (Silêncio) Há outra coisa que me deixa completamente boquiaberto quando vou ao Ikea: o estranho fenómeno dos ladrões de lápis... Há centenas de pontos espalhados pela loja com caixinhas repletas daquelas pequeninas máquinas a carvão, mas há pessoas que insistem em usurpá-los, como se eles não fossem dados, e encher as carteiras e os bolsos de lapinhos cor creme, do comprimento de um dedo indicador... Se há coisa que a mim me irrita são aqueles lapinhos, pois são tão pequeninos e metem-se em todo o lado, e um gajo está sempre a perdê-los no fundo dos bolsos e tem que pegar noutro... E noutro... E noutro.... De tal maneira que passado dois meses de ir ao Ikea ainda ando a semear lápis por tudo o que é sítio... E depois as pessoas são inconvenientes: - Olhe desculpe, este lápis do Ikea é seu? Fartinhas de saber que é... Na verdade, a pergunta que está a ser feita é: - Olhe desculpe, o senhor é aquele, de entre todos os presentes, que compra móveis de fraca qualidade e a baixo preço e de montar como se fossem legos? (Silêncio) Irrita-me que as pessoas pensem isso de mim... Por quem me tomam? (Pausa) Só há duas pessoas que eu admiro pela coragem extrema que têm demonstrado ao longo da vida: uma é o Nelson Mandela, que acaba de completar mais um aniversário, o nonagésimo quarto... (Silêncio) Uma salva de palmas, a sério, sentida, sem brincadeiras parvas... (Pausa, espera que aplauso termine) A outra é um senhor que foi fazer compras para o Ikea com três crianças à perna... E desarmado... (Silêncio, espera que a plateia acalme...) É de colhões... O desgraçado tinha que dominar os pirralhos, impedir que os bichinhos experimentassem todas as camas e beliches para crianças da secção de quartos e ainda orientar a sessão de almôndegas suecas, isto tudo SOZINHO, sem reforços, enquanto a mulher dele limpava o PISO dos complementos... Pessoalmente, não seria capaz... Sempre que vou ao Ikea de Matosinhos, no Mar Shopping, deixo os miúdos à entrada da loja, numa zona chamada "Mar Junior", que é onde os pais afogam os filhos durante duas horas para poderem comprar à vontade e sem remissão. No fim, se os papás estiverem em maré de azar, os putos sobreviveram... (Silêncio) Recolhem-nos e levam-nos a comer cachorros quentes à saída das caixas...

Texto escrito para stand-up comedy

2 comentários:

  1. Oi miúdo, muito obrigada por mais um momento de inteira felicidade... adorei, foi bué giro imaginar as cenas!... grande domingo para a famelga Gonçalves Pereira... Beijinhos. Ah e, jeito, não força, isso já na se usa... a montar, os artigos adquridos, claro ehehehe. Perdão, mas n resisti em fazer a gracinha... :-)

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    1. Ainda ando a vomitar parafusos... Entretanto, sobraram-me várias pernas de cadeiras, tampos de mesas e gavetas. Há móveis transgéneros lá em casa e ninguém gosta deles... Bj e obrigado pelos teu comentários

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