domingo, 27 de maio de 2012

Pais & Filhos

Eu sou pai e, nesse sentido, o meu futuro e o da minha mulher preocupa-me imenso... Ah, mas devias estar era preocupado com o futuro dos teus filhos... Tu deves ser o pior pai do mundo... Se calhar nem sequer és assinante da "Pais & Filhos", se calhar, nem sequer te babas quando falas dos teus filhos a outras pessoas... Vocês é sempre a destilar, é impressionante. Não dão o benefício da dúvida a uma pessoa e partem logo tudo. Esperem aí, deixem-me só juntar os cacos... Eh pá, o estado em que vocês me deixaram esta perna... Éh pá, a tíbia e o perónio trocaram de posição e o fémur ficou tipo concertina a tocar sempre a mesma nota contra a rótula... Com mais uma nota o Quim Barreiros fazia um album novo... Eh pá, que isto dói, caramba... Ok, pronto, já estou bem. É assim, não assino a revista "Pais & Filhos", confesso, não falo com pessoas que assinem porque sempre escolhi bem as minhas companhias, desde os tempos de escola, mas não é por isso que eu sou mau pai. Ãh, quem são as minhas referências em termos de paternidade? É uma pergunta difícil, por essa é que eu não estava à espera... Mas pessoas como o José Castelo Branco ou Cláudio Ramos, que são pai mas também mãe ao mesmo tempo, enfim, pessoas que não se limitam a ser pai, mas que desempenham também outros papéis, merecem todo o meu respeito e consideração. Porque razão estou eu mais preocupado com o meu futuro do que com o futuro dos meus filhos? Por várias razões, que não posso estar aqui a esmiuçar por falta de tempo. Terá de ficar para outro programa... Só uma razão, vá lá..., insistem vocês com essa vossa pertinácia de meter dó... Ok, eu digo só porque entre vocês há miúdas giras... A principal razão é que os meus filhos têm o futuro deles assegurado até 2040, altura em que sairão de casa e voarão sozinhos... Até essa altura em que assumirão as rédeas das suas próprias vidas, os meus filhos continuarão a comer cereais ao pequeno-almoço, a andar de bicicleta e a almoçar fora connosco ao domingo. Eu continuarei a deixá-los na escola às nove da manhã e a dar-lhes mesada. Já o meu futuro, é tão imprevisível como a vida amorosa da Marta Leite Castro na próxima semana ou umas férias da Sara Norte, que criou todo um novo conceito de férias no sul de Espanha (sabemos quando começam mas é impossível dizer quando acabam)... Eh pá, também não vale a pena chorarem, eu cá me hei-de desenrascar, tenham lá calma convosco. Por agora, fiquem com as imagens que se seguem, pois trata-se de um documento impressionante captado durante uma reportagem da revista "Pais & Filhos, no ano de 2040.

Sketch: "Pais & Filhos"

(A emissão passa para um jardim público numa praceta no centro da cidade, onde os reformados habitualmente se juntam para dar migalhas de pão às pombas, jogar às cartas e ao dominó e lerem o jornal. Aos poucos, a câmara centra-se num banco de jardim, onde uma jornalista da "Pais & Filhos" entrevista, de gravador em punho, um dos reformados. Um fotógrafo regista as poses e ajuda a criar ambiente)

Jornalista - Carlos, descreva-nos o seu núcleo familiar...
Carlos - Bom, somos cinco... Eu, a minha esposa, a Luísa, o Simão, que é o mais velho, o Diogo, que vem a seguir, e a Maria Inês, que é a princesinha e a mais nova...
Jornalista - E as idades?
Carlos - O Simão tem 36, o Diogo 33 e a princesinha 30.
Jornalista - Como é que descreveria cada um deles?
Carlos - (Sorri ligeiramente) Bem, o Simão é o responsável, sempre muito preocupado e já ajuda a tomar conta dos mais pequenos. Ainda não se aguenta sozinho mas já nos ajuda muito, a mim e à mãe, e é um miúdo muito afável. O Diogo já é mais irreverente, é o "terrorista" (sorrisos, como quem diz, há sempre um que é a ovelha negra), sempre a querer chamar a atenção, muito carente... Enfim, é o típico...
Jornalista - (Conclui o raciocínio do outro, com naturalidade)... filho do meio! (Sorriso cúmplice)
Carlos - (Retribuindo os sorrisos) É isso... A Inês é a princesinha, é a mais mimada dos três, sempre muito protegida pelos mais velhos e é a menina...
Jornalista - ... do papá! (Sorrisos cúmplices)
Carlos - Pois... (Encolhe os ombros)
Jornalista - Carlos, proponho agora que nos apresente a sua família. Por onde andarão as "pestinhas" a esta hora?
Carlos - Bom, a esta hora devem estar a lanchar... De tarde, a Inês não tem aulas na faculdade, o Simão está desempregado e o Diogo ainda (abana os ombros)..." anda a ver"...
Jornalista -(Imitando o gesto do outro) "Anda a ver"?...
Carlos - Sim, anda um pouco perdido... Ainda anda à procura de um sinal... Vê-se que ainda não encontrou o caminho dele... É uma fase... É normal os miúdos terem dúvidas sob que decisão tomar na hora de escolher um curso...
Jornalista -E quando é que começou essa "fase"?
Carlos - Há pouco tempo, há pouco tempo... Em 96... São fases, o que é que eu posso dizer...
Jornalista - (Faz um ar compreensivo) É muito importante não os pressionar e dar-lhes o espaço que eles precisam para tomar as suas próprias decisões e escolher os seus próprios caminhos. Vê-se que o Carlos e a Luísa são pais que respeitam o espaço dos filhos, e isso é muito benéfico para que o crescimento destes seja pleno... Bem, vamos então conhecer os miúdos?
Carlos - Vamos...

(A cena passa para a sala de estar da casa de Carlos, onde Luísa, coberta de cãs, dá o peito ao Diogo. Simão e Maria Inês jogam ao monopólio, sentados na alcatifa com perninhas à chinês)

Carlos - (Pela primeira vez, apercebemo-nos de que caminha com o auxílio de uma bengala) Como podem ver, somos uma família feliz e unida. Temos um ambiente familiar normal e penso que o segredo tem sido e mantermo-nos sempre unidos... Sempre... Unidos... Unidos... Para sempre... O Simão, por exemplo, Simão, diz olá à Joana da revista Pais & Filhos, o Simão, por exemplo, apesar de ser mais velho e já ter outros interesses que os mais novos não têm, ajuda muito em casa, faz a cama dele se for preciso, e mesmo que não seja, é muito responsável e até já namora.
Jornalista - Ai já namora? Que giro... E como é que vocês têm lidado com essa situação?
Carlos - Bem, ainda é tudo muito recente... Ainda nos estamos a adaptar... Mas como sempre tivemos uma relação muito aberta e descomplexada, eu e a mãe (que continua a amamentar e a seguir a conversa com sorrisos plácidos) tivemos uma conversa com ele e esclarecemos o que havia para esclarecer. Aliás, ela hoje vem cá jantar, não vem Simão?, já combinámos tudo com os pais da garota, e são eles que a vêm cá trazer...
Jornalista - Ai são eles que a vão trazer cá?
Carlos - Sim, para já eles ainda têm algum receio que ela conduza sozinha. Sabe como é, ainda só tirou a carta há 15 anos e há sempre aquele receio... Jovens, rebeldes, apanham-se a conduzir... Enfim, convém ter alguns cuidados, até para lhes mostrar que a liberdade é uma conquista e não algo que recebemos gratuitamente.
Jornalista - E como é que ela é?
Carlos -É um pouco mais nova que ele, tem 34 anos, e está a fazer um estágio de contabilidade num gabinete e, se tudo correr bem, as coisas estão bem encaminhadas para ficarem com ela. No início, parece que vai ser para servir cafés e mudar o papel da impressora, mas há boas perspectivas de crescer na empresa e de chegar, quem sabe, a um patamar em que até já poderá ir levantar o correio e enviar faxes e e-mails.
(Subitamente, ouve-se um grito. O Diogo mordeu o peito da mãe e começa a chorar, assustado com o estrépito de dor de Luísa. Luísa acalma-o e pede-lhe que tenha mais cuidado, pois já não pode fazer mais reconstruções mamárias. Carlos e a jornalista entreolham-se. Termina o sketch, mas podia continuar...)


3 comentários:

  1. Maravilhoso, tu levas mesmo jeito para isto miúdo! Quem diria que um simples guedelhudo tivesse tanto talento, hein? Força aí, fico a aguardar episódios, de todas as séries! Sim, cada uma delas têm mais pernas do que um polvo (eheheh), portanto, toca a dar-lhe! Nos textos, claro!Beijinhos e obrigada por mos enviares, lê-los, são momentos de felicidade e despreocupação com o que vai na vida real. Ah, falta saber se é desta que o meu comentário sai... quer dizer, entra!!! Se assim for, teremos que comemorar com uma mini e uns caracóis... ahahaha!

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  2. eih e não é que saiu? Lá teremos que ver qual é o dia que dá jeito para ir às jolas e ao vagaroso... eheheheh!

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  3. Fica marcado um dia destes nas Portas de Santo Antão

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