quinta-feira, 31 de maio de 2012

O título deste arroz de quinze é o genérico inicial da Rua Sésamo assobiado por vocês todos ao mesmo tempo

Segundo uma notícia hoje veiculada, músicas da "Rua Sésamo" foram usadas para torturar prisioneiros detidos na Base Naval de Guantánamo. É certo que a trilha sonora da série infantil norte-americana não é nada por aí além, mas daí a supormos que poderia infligir dor vai uma grande distância. É evidente que se os torturadores soubessem da existência de Cristina Ferreira ou Júlia Pinheiro, bastaria um computador com ligação à net e umas colunas simples e no youtube há muito material do "Você na TV" ou das "Tardes da Júlia" para fazer a malta confessar. Se os programas em si já são uma tortura, o facto de serem apresentados como se não houvesse tecnologias de amplificação do som torna-os verdadeiramente arrepiantes. Sem microfone, estou persuadido, a Cristina Ferreira faz-se ouvir em Valença do Minho ou em Vila Real de Santo António, pelo menos!... Com microfone, estou convencido de que a voz dela chega, no mínimo, à ilha do Corvo, nos Açores. Acresce a tudo isto que, segundo a notícia, os torturadores tiveram um trabalhão a distorcer as músicas e a sintonizá-las num tom e som insuportáveis para os prisioneiros. No caso, tinham evitado esse trabalho todo e tinham torturado muito mais gente em muito menos tempo, aumentando a produtividade daquele campo de tortura e, se há coisa que é preciso neste momento, é aumentar a produtividade! Estes americanos são mesmo um povo sui generis: quando finalmente conseguem meter alguém de jeito na Casa Branca, alguém que, por exemplo, tentou acabar com a vergonha que sempre foi aquele campo de prisioneiros para a cultura ocidental, querem despachá-lo... Está tudo maluco...

Um mormon na casa branca

Depois de um Mormon na Casa dos Segredos, agora existe um a caminho da Casa Branca. Chama-se Mitt Romney e é um seguidor da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ou seja, Isaltino Morais, Duarte Lima, Silva Carvalho e Miguel Relvas, isto só para falar em santos dos últimos dias. Ou seja, a caminho da Casa Branca está um indivíduo de mochila às costas e o livro de Mormon na mão, que se veste com calças de fato, camisa branca de manga curta e gravata. Em que acredita Romney, em particular, e os mormon, em geral? Que o cristianismo está todo errado e propõe severas alterações aos fundamentos da fé cristã, a saber: o baptismo e o sacerdócio, isto só para falar nas grandes "novidades" que a igreja mormon introduz em termos de sacramentos. Mas não se fica por aqui em termos de descolagem em relação ao cristianismo: os mormon acreditam no espírito santo e, aqui é que eles dão o grito do Ipiranga em relação ao cristianismo, acreditam na vinda de Cristo à terra... É este o ponto de viragem face à fé cristã tal como era entendida até aí, que se percebe que o cristianismo para trás de Joseph Smith estava completamente errado e se revela uma verdade inteiramente nova: Cristo virá à terra uma segunda vez! Eu sem querer ser alarmista, propunha que Cristo viesse as vezes que fossem necessárias até Smith ter razão. E propunha também que o primo dele, o John, dissesse de uma vez por todas se o Sócrates tem culpas no cartório de Alcochete. Tal como a igreja mormon refundou a fé cristã, também Romney parece querer mudar radicalmente a face da América. Com efeito, Romney promete, desde logo, pugnar "for a better America", um dos slogans da sua campanha. Note-se o upgrade: Romney surpreende tudo e todos e promete uma América melhor. Quando toda a gente esperava que Mitt Romney propusesse "for a worst America vote Romney", ela tira um coelho da cartola e diz "for a better America that starts tonight vote Romney". Para além disso, se chegar à Casa Branca, Romney será o primeiro presidente bonito em muitos anos. Parece coisa pouca mas não é de todo de somenos importância, até porque muitos analistas são unânimes ao considerarem que as crises de liderança são hoje, antes de mais, crises de beleza. Falta looks à maioria dos grandes líderes mundiais, nomeadamente, europeus, como Sarkozy - agora Holande, venha o diabo e escolha -, Rajoy ou Merkel... É preciso recuar a Reagan para se encontrar um presidente tão sexy como o putativo presidente Romney. Se isto não é inovar, é o quê? God bless America... 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Só Deus é que sabe...

Estava agora a ler a edição online para subscritores do The Gardian e, não sei como, fui parar sem querer à página da Bola onde li, também sem querer, que "Hulk já terá acordo com o Chelsea"... Ou é de mim, ou isto é jornalismo de primeiríssima água?! O que significa que Hulk talvez ainda não tenha acordo com o Chelsea... Quem sabe?!... Só Deus é que sabe... E a Bola... Obrigado à bola por este bocadinho de actualidade que é ao mesmo tempo um tratado de teologia...

Tabuleiro europeu

Agora que Berlim anda à deriva pela Europa, eu proponho que se mudem todas as capitais europeias de sítio, mas isso sou eu que não tenho mais nada para fazer. Vocês agora é que sabem... Eu talvez achasse melhor, mas a palavra final é vossa. Hum? Oh pá, porque sim, porque ia poupar muitos problemas às economias em recessão e, por outro, trazer de sobra às agências de rating e à troika. Para não falar dos mercados que iriam ficar ainda mais à toa: já alguém imaginou a bolsa de Berlim em Madrid, por sua vez, a de Madrid em Berna, e a desta em Paris que trocaria de lugar com a de Atenas?... Parece que já consigo vislumbrar os comissários europeus, por engano a aterrar às triplas no Norte de África e a perguntarem por Passos Coelho e Rajoy. O tabuleiro europeu ficaria ainda mais confuso e, com um bocadinho de sorte, como o velho continente está de pernas para o ar, o europeu de futebol da Croácia e da Polónia transformava-se na Copa América. Hum? Quem é que eu acho que vai ganhar o próximo europeu de futebol? Talvez a Brasil... Hum? O melhor marcador? Eu apostava no Kobe Bryant... Mas já se sabe, para mais quando se trata de badminton, prognósticos só no fim do jogo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Sismo de magnitude 9 na escala fechada de Merkel com epicentro na Rússia

Nós já sabíamos que Angela Merkel tinha uma enorme dificuldade em localizar a Alemanha no xadrez europeu. O que nós não sabíamos é que ela também não sabia localizar a Alemanha no xadrez alemão. O facto de a chanceler não conseguir localizar a capital do seu país no seu país e, por outro, o facto de a conseguir localizar num outro país, é o ponto exacto em que passamos a ter a certeza de algo de que já suspeitávamos há muito: a chanceler alemã tem enormes dificuldades de orientação, aliás, como as mulheres em geral. Angela achar que Berlim fica na Rússia deve encher de orgulho nacionalista todos os alemães que como ela não vêem um palmo à frente do nariz. Os próprios russos devem andar confusos, pois já não se sentiam tão berlinenses desde a 2.ª Grande Guerra. À chanceler tudo lhe acontece ultimamente: como se já não bastasse o episódio da caneca de cerveja, o namorado tê-la deixado e sua popularidade interna estar em queda livre (pudera?!), agora tem de acasalar com o Holande redentor, que também é francês mas não beija tão bem como o outro... Quanto ao resto, já sabíamos que não percebia nada de Matemática, que as contas dela nunca batem certo, que naLíngua Estrangeira e na História, sobretudo, na Antiguidade Clássica, também não dá cartas... Agora, passamos também a saber que vai precisar de explicações de Geografia... A minha sugestão, se for para continuar a levar com ela todos os dias, é que faça uma plástica e arrange o cabelo no salão do Beauté. Ah, e se for para continuar a deitar abaixo canecas de cerveja, para a próxima experimente com a boca. Pelas costas também é bom, mas desperdiça-se muito. Como escreveu Camões, Adio, adieu, aufiedersehen goodbye... Ou terá sido Goethe?...

Para reflectir e chorar por mais...

Agora que já sabemos que as crianças africanas são crianças de 1.ª e que as crianças gregas, apesar de dormirem no berço da civilização ocidental e assim, são crianças de 2.ª e que, provavelmente, as crianças portuguesas são de 3.ª, que tal a senhora do FMI usar adesivo de 1.ª - para não aleijar - na boca sempre que quiser dar opiniões sobre coisas?! Deixo aqui esta questão, em jeito de proposta, mas que é na verdade um pensamento, daqueles que espero um dia figure em copinhos de saquê, ladeando com vultos como Confúcio. Só é pena esta Christine não ter taras comó outro, porque Nova Yorque é uma cidade cheia de potencialidades, mesmo para pessoas como ela...

domingo, 27 de maio de 2012

Esta crónica repudia com veemência

Eu, se fosse o Relvas, ia arejar, sei lá, andar de comboio na Índia ou apanhar um TGV em andamento, ou assim, só para arejar, que a vida dele, ultimamente, anda mais agitada que a do Duarte Lima no Natal e ele precisa de qualquer coisa diferente e, sobretudo, mais calma. Assentar, no fundo, o que o Relvas precisa é de assentar. Portanto, eu aconselhava-o a tomar um duchezinho nas cataratas do Niagara para descomprimir, ou fazia Bungee jumping no Corcovado com um elástico manhoso, só para a descarga de adrenalina ser maior e a cena fazer maior efeito. Fazia isto tudo secretamente, mas desta vez ninguém ficava mesmo a saber, que uma pessoa tem direito à sua privacidade, mesmo fardado... O ideal, ideal, para tentar reverter esta imagem injusta que lhe está a ser colada de manipulador, mestre da intriga política e atazanador de jornalistas, era ir hoje ali para Alcântara empacotar a soliridade, ai, a soliriidade, arre, a solididade, assim é que é, dos portugueses, que ontem e hoje se mede em quilos de arroz e massa, e latas de conserva para os pobres. Nos directos das televisões, às oito, só tinha de se posicionar atrás do repórter de serviço, ao lado de um grupo de escuteiros, a encartuchar víveres. Por falar em comida para pobres, e a senhora do FMI, Christine Lagarde, que disse que as crianças em África precisavam mais de ajuda que as crianças gregas?!... Querem que repita ou já vomitaram tudo? Basicamente, o que a senhora disse foi que se os gregos não fossem tão... como é que é aquilo que eles são?, ai'?! gregos, isso, as coisas não estavam como estão. Enfim, se os gregos fossem alemães, ou franceses, como a senhora, e nada disto teria acontecido... Por falar em "p... que p...., é pró bojão, mai nada", e a classificação dada pelas autoridades portuguesas ao massacre contra civis na cidade síria de Houla? O massacre vitimou 116 pessoas, entre as quais, muitas mulheres e 32 crianças, mas para as autoridades portuguesas, apesar de terem "repudiado com firmeza" (Uuuuuh, que medo...),  classificaram a carnificina da seguinte forma, e passo a citar, que estas matérias são sensíveis... Consideram então as autoridades portuguesas "que a dimensão, gravidade e repetição deste tipo de violência praticada pelo regime sírio se aproxima perigosamente do conceito de crimes contra a humanidade". Já limparam tudo, ou ainda há restos do assado do meio-dia? Ah, ainda há restos?! Então vamos arrumar com isso até à bílis: "aproxima-se perigosamente do conceito de crimes contra a humanidade"?! Quem é o perito em barbaridades verbais no executivo português? O que é que é preciso para que a coisa se dê a crimes contra a humanidade? 200 pessoas? Ou era preciso terem assassinado mais crianças?! 32 crianças não configura crime contra a humanidade? Quase que dava, eh pá, por pouco, ãh?! Que pena!... Está tudo doido!

Pais & Filhos

Eu sou pai e, nesse sentido, o meu futuro e o da minha mulher preocupa-me imenso... Ah, mas devias estar era preocupado com o futuro dos teus filhos... Tu deves ser o pior pai do mundo... Se calhar nem sequer és assinante da "Pais & Filhos", se calhar, nem sequer te babas quando falas dos teus filhos a outras pessoas... Vocês é sempre a destilar, é impressionante. Não dão o benefício da dúvida a uma pessoa e partem logo tudo. Esperem aí, deixem-me só juntar os cacos... Eh pá, o estado em que vocês me deixaram esta perna... Éh pá, a tíbia e o perónio trocaram de posição e o fémur ficou tipo concertina a tocar sempre a mesma nota contra a rótula... Com mais uma nota o Quim Barreiros fazia um album novo... Eh pá, que isto dói, caramba... Ok, pronto, já estou bem. É assim, não assino a revista "Pais & Filhos", confesso, não falo com pessoas que assinem porque sempre escolhi bem as minhas companhias, desde os tempos de escola, mas não é por isso que eu sou mau pai. Ãh, quem são as minhas referências em termos de paternidade? É uma pergunta difícil, por essa é que eu não estava à espera... Mas pessoas como o José Castelo Branco ou Cláudio Ramos, que são pai mas também mãe ao mesmo tempo, enfim, pessoas que não se limitam a ser pai, mas que desempenham também outros papéis, merecem todo o meu respeito e consideração. Porque razão estou eu mais preocupado com o meu futuro do que com o futuro dos meus filhos? Por várias razões, que não posso estar aqui a esmiuçar por falta de tempo. Terá de ficar para outro programa... Só uma razão, vá lá..., insistem vocês com essa vossa pertinácia de meter dó... Ok, eu digo só porque entre vocês há miúdas giras... A principal razão é que os meus filhos têm o futuro deles assegurado até 2040, altura em que sairão de casa e voarão sozinhos... Até essa altura em que assumirão as rédeas das suas próprias vidas, os meus filhos continuarão a comer cereais ao pequeno-almoço, a andar de bicicleta e a almoçar fora connosco ao domingo. Eu continuarei a deixá-los na escola às nove da manhã e a dar-lhes mesada. Já o meu futuro, é tão imprevisível como a vida amorosa da Marta Leite Castro na próxima semana ou umas férias da Sara Norte, que criou todo um novo conceito de férias no sul de Espanha (sabemos quando começam mas é impossível dizer quando acabam)... Eh pá, também não vale a pena chorarem, eu cá me hei-de desenrascar, tenham lá calma convosco. Por agora, fiquem com as imagens que se seguem, pois trata-se de um documento impressionante captado durante uma reportagem da revista "Pais & Filhos, no ano de 2040.

Sketch: "Pais & Filhos"

(A emissão passa para um jardim público numa praceta no centro da cidade, onde os reformados habitualmente se juntam para dar migalhas de pão às pombas, jogar às cartas e ao dominó e lerem o jornal. Aos poucos, a câmara centra-se num banco de jardim, onde uma jornalista da "Pais & Filhos" entrevista, de gravador em punho, um dos reformados. Um fotógrafo regista as poses e ajuda a criar ambiente)

Jornalista - Carlos, descreva-nos o seu núcleo familiar...
Carlos - Bom, somos cinco... Eu, a minha esposa, a Luísa, o Simão, que é o mais velho, o Diogo, que vem a seguir, e a Maria Inês, que é a princesinha e a mais nova...
Jornalista - E as idades?
Carlos - O Simão tem 36, o Diogo 33 e a princesinha 30.
Jornalista - Como é que descreveria cada um deles?
Carlos - (Sorri ligeiramente) Bem, o Simão é o responsável, sempre muito preocupado e já ajuda a tomar conta dos mais pequenos. Ainda não se aguenta sozinho mas já nos ajuda muito, a mim e à mãe, e é um miúdo muito afável. O Diogo já é mais irreverente, é o "terrorista" (sorrisos, como quem diz, há sempre um que é a ovelha negra), sempre a querer chamar a atenção, muito carente... Enfim, é o típico...
Jornalista - (Conclui o raciocínio do outro, com naturalidade)... filho do meio! (Sorriso cúmplice)
Carlos - (Retribuindo os sorrisos) É isso... A Inês é a princesinha, é a mais mimada dos três, sempre muito protegida pelos mais velhos e é a menina...
Jornalista - ... do papá! (Sorrisos cúmplices)
Carlos - Pois... (Encolhe os ombros)
Jornalista - Carlos, proponho agora que nos apresente a sua família. Por onde andarão as "pestinhas" a esta hora?
Carlos - Bom, a esta hora devem estar a lanchar... De tarde, a Inês não tem aulas na faculdade, o Simão está desempregado e o Diogo ainda (abana os ombros)..." anda a ver"...
Jornalista -(Imitando o gesto do outro) "Anda a ver"?...
Carlos - Sim, anda um pouco perdido... Ainda anda à procura de um sinal... Vê-se que ainda não encontrou o caminho dele... É uma fase... É normal os miúdos terem dúvidas sob que decisão tomar na hora de escolher um curso...
Jornalista -E quando é que começou essa "fase"?
Carlos - Há pouco tempo, há pouco tempo... Em 96... São fases, o que é que eu posso dizer...
Jornalista - (Faz um ar compreensivo) É muito importante não os pressionar e dar-lhes o espaço que eles precisam para tomar as suas próprias decisões e escolher os seus próprios caminhos. Vê-se que o Carlos e a Luísa são pais que respeitam o espaço dos filhos, e isso é muito benéfico para que o crescimento destes seja pleno... Bem, vamos então conhecer os miúdos?
Carlos - Vamos...

(A cena passa para a sala de estar da casa de Carlos, onde Luísa, coberta de cãs, dá o peito ao Diogo. Simão e Maria Inês jogam ao monopólio, sentados na alcatifa com perninhas à chinês)

Carlos - (Pela primeira vez, apercebemo-nos de que caminha com o auxílio de uma bengala) Como podem ver, somos uma família feliz e unida. Temos um ambiente familiar normal e penso que o segredo tem sido e mantermo-nos sempre unidos... Sempre... Unidos... Unidos... Para sempre... O Simão, por exemplo, Simão, diz olá à Joana da revista Pais & Filhos, o Simão, por exemplo, apesar de ser mais velho e já ter outros interesses que os mais novos não têm, ajuda muito em casa, faz a cama dele se for preciso, e mesmo que não seja, é muito responsável e até já namora.
Jornalista - Ai já namora? Que giro... E como é que vocês têm lidado com essa situação?
Carlos - Bem, ainda é tudo muito recente... Ainda nos estamos a adaptar... Mas como sempre tivemos uma relação muito aberta e descomplexada, eu e a mãe (que continua a amamentar e a seguir a conversa com sorrisos plácidos) tivemos uma conversa com ele e esclarecemos o que havia para esclarecer. Aliás, ela hoje vem cá jantar, não vem Simão?, já combinámos tudo com os pais da garota, e são eles que a vêm cá trazer...
Jornalista - Ai são eles que a vão trazer cá?
Carlos - Sim, para já eles ainda têm algum receio que ela conduza sozinha. Sabe como é, ainda só tirou a carta há 15 anos e há sempre aquele receio... Jovens, rebeldes, apanham-se a conduzir... Enfim, convém ter alguns cuidados, até para lhes mostrar que a liberdade é uma conquista e não algo que recebemos gratuitamente.
Jornalista - E como é que ela é?
Carlos -É um pouco mais nova que ele, tem 34 anos, e está a fazer um estágio de contabilidade num gabinete e, se tudo correr bem, as coisas estão bem encaminhadas para ficarem com ela. No início, parece que vai ser para servir cafés e mudar o papel da impressora, mas há boas perspectivas de crescer na empresa e de chegar, quem sabe, a um patamar em que até já poderá ir levantar o correio e enviar faxes e e-mails.
(Subitamente, ouve-se um grito. O Diogo mordeu o peito da mãe e começa a chorar, assustado com o estrépito de dor de Luísa. Luísa acalma-o e pede-lhe que tenha mais cuidado, pois já não pode fazer mais reconstruções mamárias. Carlos e a jornalista entreolham-se. Termina o sketch, mas podia continuar...)


terça-feira, 22 de maio de 2012

Euro optimista

Pivô (Mulher) - Um grupo de manifestantes manifestou-se hoje numa manifestação que procurou manifestar outras formas de manifestação que não os habituais manifestos. Os participantes que participaram nesta forma de participação cívica eram poucos mas participativos e ruidosos, e protestavam contra os protestos com que é habitual protestar-se hoje em dia. Tratou-se de um protesto que ficou marcado pela total ausência de reivindicações, o que num protesto não deixa de ser curioso e exige uma análise mais detalhada por parte de quem perceba alguma coisa disso, pois quando se protesta mas não se protesta está tudo hodido, como diz um amigo meu que troca os efes pelos agás e nunca ninguém lhe ligou nenhuma por causa desse facto. Coitadinho... Vamos em directo para o local da manifestação, onde se encontra o nosso repórter de rua, que também tem uma perturbação da fala que não é muito falada mas que também é gira: mete os pés pelas mãos, o que lhe dificulta segurar no microfone, logo, que lhe dificulta a fala.
(Aparece o repórter com os sapatos nas mãos e as luvas nos pés, segurando o microfone como pode, até que acaba por pedir, ainda antes de começar a falar, ao câmara para lhe segurar o microfone. Vê-se um braço estendido que sai da câmara e o repórter a falar.)
Reporter - É isso mesmo, Zé Alberto, encontro-me em directo precisamente daqui... Neste momento, não há grandes apontamentos de reportagem. É pena porque se fosse há cinco minutos atrás, quando estava ali (aponta desengonçadamente para um sítio qualquer) havia muitos motivos de reportagem. Mas neste momento, aqui precisamente onde me encontro, não há nada de relevante a acrescentar ao que tu já disseste, Zé Alberto.
Pivô (Mulher) - Aonde?
Reporter - Ali... (Aponta desengonçadamente para outro sítio qualquer)
Pivô (Mulher) - Não queres tentar chegar à fala com algumas dessas pessoas que estão neste momento atrás de ti a fazer tristes figuras, entre elas, de urso?
(Na imagem aparecem figurantes a falar ao telemóvel, a comer, a meter o dedo no nariz e um vestido de urso)
Reporter - Já tentei Zé Alberto...
Pivô (Mulher) - E?...
Reporter - É gente que não fala. Dizem palavras mas não é em frases, é tipo em máquinas de lavar na fase de centrifugar...
Pivô (Mulher) - Estou a ver...
Reporter - Não estás nada.
Pivô (Mulher) - Olha que eu antes de ser jornalista era professor nas novas oportunidades...
Reporter - Ah, então está bem! Então sabes do que estou a falar...
Pivô (Mulher) - Pois sei... Ora experimenta lá com o urso a ver!
Reporter - Ok... (Vira-se na direcção do urso) Boa tarde, em directo para a televisão, diga-me: o senhor sabe falar?
Urso - Dou uns toques...
Reporter - (Piscando o olho a Zé Alberto, através da câmara) O senhor está aqui a manifestar-se porquê?
Urso - Porque somos a favor da Europa... Não queremos sair da Europa... Para onde é que a gente ia?
Reporter - Mas isso não faz sentido.
Urso - Pois não, é isso que a gente anda a dizer desde as duas da tarde, quando aqui chegámos...
Reporter - Ok... Diga-me, o senhor é aquilo a que se chama um euro optimista?!...
Urso - Sou sim senhor... Apesar de estar desempregado, ter perdido a casa e de várias pessoas da minha família se terem suicidado à conta da crise, continuo dar a cara pelo projecto europeu e a acreditar que o lugar de Portugal é na Europa e não na Ásia, por exemplo... Eu sei perfeitamente como é que estas coisas funcionam! Primeiro querem que a gente saia da Europa, depois da Península Ibérica e qualquer dia varrem-nos para o meio do Atlântico e os comunistas tomam conta disto...
Reporter - Então e, agora, o que é que está a pensar em fazer para tentar ultrapassar esta fase menos boa da sua vida?
Urso - Bom, provavelmente terei de emigrar...
Reporter - E para onde é que está a pensar em ir?
Urso - Tudo o que seja Grécia, Espanha, Irlanda, Roménia parecem-me excelentes possibilidades, mas ainda estou a apalpar terreno, enfim...
Reporter - Mas esses países estão a atravessar por dificuldades que não os tornam propriamente destinos atractivos?...
Urso - Isso são calúnias! São países onde as oportunidades abundam, onde a taxa de desemprego ronda os 25, 30%. Por amor de Deus, são terras de oportunidade. Esses países são pérolas para porcos, ouça o que eu lhe digo... (Empertiga-se. O jornalista tenta terminar o apontamento de reportagem) PÉROLAS PARA PORCOS!
Reporter - Bom, Zé Alberto, foi a reportagem possível... A emissão continua no estúdio contigo.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Such a perfect day...

Estou com uma dor ali quem desce pelo braço direito abaixo, chega à mão, passa o dedo indicador e dói-me a seguir à unha. É aí que me dói e não posso chegar-lhe nada porque cai tudo ao chão. Está aqui uma lixarada à minha volta que até parece mal. Pois é, o Sporting perdeu a taça de Portugal para a Académica, mas aquela estudantada são mesmo uns irresponsáveis. Não se sabem mesmo comportar, não têm cuidado nenhum. Mal se apanharam com a taça na mão, partiram-na toda. Palavra que quando vi o presidente da Académica a tentar reconstruir o caneco e a dar uma entrevista para o canal público de televisão pensei que aquilo era serviço público e bricolage ao mesmo tempo, e que assim, sim, vale a pena pagar taxa de televisão, TDT, PSD, CDS e as outras cenas todas que a gente paga. Por seu turno, os do Sporting disseram que não queriam uma taça partida para nada, e pronto, foi o que disseram. Ah, e o Sá Pinto também disse que disputaram o jogo até ao último minuto, o que significa que o jogo não acabou aos cinco, nem aos 45, nem aos 60 minutos, e em boa hora o disse, pois havia dúvidas. Entretanto, ontem foi um domingo em cheio, porque depois da taça na RTP, houve Marcelo na TVI e, depois disto, houve globos de ouro na SIC. O que é que se pode pedir mais? Para aqueles que fomos à missa de manhã e comemos assado ao almoço foi um domingo perfeito. Quanto aos globos, foi apresentado pela bocaaaaa da Bárbara Guimarães que, quando a abre, estou sempre a ver quando é que saem lá de dentro o Ali Ba Bá e os 40 ladrões, mais os camelos e os baús cheios de ouro. Se aquilo não é uma gruta, é uma mina e deve haver gente lá dentro presa a tentar sair. Enfim, os globos de ouro é sempre uma cerimónia interessante, cheia de momentos que ficam para a história, como aquele em que aquele gajo de que me esqueci do nome e que venceu uma categoria qualquer se esqueceu do nome do Rodrigo Freitas, que concorria com ele na categoria de melhor actor de cinema. De uma educação esmerada aquele rapaz. Depois, há sempre uma coisa que me impressiona muito: a pobreza. Tanta gente pobre e a necessitar de dinheiro. Já não via tanta gente de mão estendida assim há muito tempo, a fazer lembrar a baixa em dia de compras. No fim, o prémio mérito e excelência foi para Francisco Pinto Balsemão. "The mouse" - que é assim que carinhosamente dizemos Bárbara Guimarães - disse que ele não sabia de nada e quem se risse levava tatau! E assim foi, ninguém se riu, nem quando a câmara focou o Cláudio Ramos e no fim foi toda a gente para casa de boleia que os combustíveis estão caros e aquela malta é pobre.

domingo, 20 de maio de 2012

Uma super oportunidade!

Numa sala do palácio de São Bento, o primeiro ministro vê televisão placidamente. Os sofás são de couro, em cima de uma pequena consola o símbolo da JSD, a decoração é austera e tanto o primeiro ministro, como a esposa, sentada numa poltrona a ler uma revista de crochet, fazem parte dela. A câmara vai focando ora o rosto atento e pausado do governante, ora o ecrã de televisão, onde passa "Portugueses pelo mundo", na RTP. Subitamente, o primeiro ministro aquieta-se com algo, descola o corpo da poltrona e apoia as mãos nos braços do cadeirão. (Ouve-se a banda sonora de "the good, the bad and the ugly") Em seguida, coloca a mão direita em forma de concha na orelha, como se procurasse ouvir um som que vem de muito longe e levanta-se repentinamente, permanecendo hirto e firme que nem uma barra de ferro. A mulher olha-o com ternura e sem parar as agulhas. (Deixa de se ouvir a trilha sonora) Ele diz:
- Tenho de sair, não demoro muito. Ela ainda replica:
- Não te atrases que o jantar é arroz molhado e tem de ser comido na hora, se não seca tudo... Não tendo obtido resposta, encolhe os ombros resignada à condição especial do marido e diz para a câmara:
- É sempre assim, já estou habituada... Põe-se a ver o "Portugueses pelo mundo", que é o programa preferido dele, vê todas as semanas sem falhar um episódio, até já encomendou mais uma série deles, que ele só de pensar que aquilo pode acabar e ele parece que lhe foge o chão! Mas estava a dizer, põe-se-me a ver isto e depois dá-lhe o amoque e sai de casa. Volta como se nada fosse e andamos sempre nisto!

A acção passa para o interior de uma casa onde, na sala, uma senhora idosa se tenta levantar de uma cadeira de baloiço. Está com evidentes dificulades! Na imagem aparece a seguinte legenda:

"Solidão na velhice em Rio de Mouro"

Estamos neste levanta, não levanta quando do nada, envolto numa aura de fumo branco (ou noutro efeito especial qualquer), ao mesmo tempo que a trilha sonora de Enio Morricone retumba, aparece o Super-Oportunidade, um super herói em tudo igual ao primeiro ministro mas que, só porque está vestido com uma fato azul e umas cuecas vermelhas por cima, ninguém reconhece. No peito, a seguinte inscrição: SO! A velhota exclama:
- Super-Oportunidade, meu herói!
- Mantenha a calma, velhinha. Estou aqui para a ajudar!
- Óptimo, meu rapaz. Ajuda-me aqui só a levantar... O Super Herói auxilia a pobre senhora a erguer-se do cadeirão e ouve-se um altissonante traque de velhinha que vive sozinha e tem de se entreter com alguma coisa. O Super Herói fica super vexado e exclama:
- Mas o que foi isto?
- Foi um pum, meu rapaz, foi um pum. Estava aí preso há horas e graças a ti conheceu a luz do dia. (Olha-o com admiração) Meu herói...
- Apenas cumpri o meu dever, velhinha. Posso fazer mais alguma coisa por si?
- Não meu rapaz, já não me resta muito mais senão esperar que Ele (aponta o céu) me chame...
- Então, aproveite esta oportunidade para mudar de vida. Deixo-lhe aqui este dossiê (aparece-lhe nas mãos, não se sabe de onde, não se sabe como) com a descrição da vida de uma velhota que vive sozinha no Cacém e que gostava de viver em Rio de Mouro, porque aqui há menos humidade. Se quiser, a vida dela é sua. Basta que saiba ver a oportunidade que é ser idosa e viver sozinha, sem o apoio de ninguém, e em risco de passar a eternidade sentadinha nesse cadeirão. Há gente capaz de dar tudo pela vida que a senhora leva. Pense nisso. Agora, tenho de ir, há mais gente que, como a senhora, não vê um palmo à frente da testa e tenho de as salvar. (Recomeça a trilha) Salta pela janela e ouve-se um estrondo enorme. Ouve-se o Super Herói dizer:
- Maldita capa!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Zara Gay (o primeiro stand-up da vida de um comediante)

Em primeiro lugar, muito boa noite a todos. Pronto, desta parte do texto já não me esqueci... Há pelo menos uma pessoa que vai ficar contente com isto, que é a minha mãe, que me está sempre a dizer de não me esquecer de cumprimentar as pessoas. Em segundo lugar, quero deixar bem claro que tenho sérias dúvidas, atenção, não são dúvidas de brincar, de que isto seja bom para mim e, sobretudo, para vocês... Enfim, de que isto seja bom para alguém... O mundo não vai ficar melhor depois disto e há fortes possibilidades de ficar bem pior... (Pausa) Mas, enfim, algumas pessoas que eu considero insistiram muito, disseram que eu era mesmo bom, e que isto ia correr muito bem! Eu retorqui, disse que não tinha experiência, que o que eu gostava mesmo era de escrever os textos para outros dizerem... Que provavelmente ainda não estava preparado... E essa gente, que eu até apreciava muitíssimo até me terem convencido a meter nisto, disseram: - Ah, mas tu és bonito! Tens uma boa imagem! Vai correr bem! E eu disse: - Mas e o texto? E eles: - Deixa lá isso! E eu:- Como? E eles: - Ok, o texto também é giro, disseram-me... Fiquei muito mais seguro!... Resumindo, o que é certo é que aqui estou eu... É uma estreia aos 35 anos, bem, nada a que eu já não esteja habituado... É que eu sou casado, mas eu e a minha mulher ainda não... (Pausa) Também ainda só estamos casados há 10 anos... Ainda não nos sentimos preparados um para o outro... Andamos à procura desse Santa Graal que é o momento perfeito para um passo tão importante como esse. Não é coisa que se faça em qualquer altura, com qualquer pessoa, em qualquer lugar... Ah, mas vocês já têm três filhos!, dizem vocês sempre tão atentos... (Pausa) Também não valia a pena denegrir! Eu não vos fiz nada... É verdade que temos três filhos lindos que eu adoro, que tudo isto é muito estranho, que o Antunes aparece cada vez mais amiúde... (Pausa) Eu nestas coisas gosto de ser justo, as pessoas adoram falar mal, eu sei perfeitamente que há boatos, mas para mim a ligação entre todos estes factos ainda está por estabelecer... É assim, vivemos na era cristã e ninguém estranha! Por isso... Ou se prova que há aqui qualquer coisa, ou então parem de denegrir a imagem do senhor doutor Duarte Lima... que ele até é uma pessoa doente e ainda passa mal à conta disto tudo! Pela minha parte, eu assumo as minhas responsabilidades familiares, a minha mulher diz que eu sou incrível e até estamos a pensar em ir ao quarto filho. Até já falamos com o Antunes e ele deu-nos a maior força nisso! (Pausa) Em frente: quando disse à minha mulher que vinha aqui, ela disse: - Temos de ir às compras! (Pausa) Se acertar o euromilhões fosse tão fácil! Protestei, mas não valia a pena. Assim, quando dei conta, eu, ela... e o Antunes estávamos a entrar num centro comercial do tamanho de dez campos de futebol e com vários pisos. A minha mulher disse: - Vamos à Zara! Eu reagi, disse que queria ir a uma loja de roupa para homem. Ela sorriu, disse: - Tontinho, és tão querido!, deu a mão ao Antunes e lá fomos nós... Entrámos na loja e dirigimo-nos à Zara Man. Quando entrámos na secção de homens, o chinfrim de cores, efeitos e design era de tal forma alternativo que parecia que estava a entrar na Zara Gay. Aliás, propunha que se criasse a Zara Metro, a Zara Dread, a Zara Beto... E por aí fora. Torci o nariz e a mulher lá perguntou se eu tinha alguma ideia da roupa que eu queria trazer... Eu disse-lhe qualquer coisa entre o bispo de Leiria-Fátima e o Manuel Luís Goucha, ou seja, qualquer coisa entre o conservador e "o meu quarto é o 290. Acaba o drink, sobe que eu estou à tua espera para porcarias". É por isso que eu vim vestido de António Sala late night show, um misto entre "eu sou uma pessoa séria" mas "no fundo sou como às outras todas". Queria agradecer à minha mãe que foi quem me vestiu esta noite. A minha mulher é um espectáculo mas para estas coisas não é de confiança. Espero sinceramente que gostem, fiz um esforço para vir arranjado... Agora estão a dizer-me que o tempo acabou! Tinha um texto tão bom! Mas não faz mal, digo o texto para a próxima. Adeus e boa noite!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sinais de desgaste...

(Ri-se sonsamente) Desculpem lá estar-me para aqui a rir... É que estive a ver anteontem o ministro das finanças a apresentar um livro sobre a crise e ainda não consegui parar... É que é um tema que interessa muito ao público infanto-juvenil, como toda a gente sabe! Ah, mas tu não te estás a rir que a gente bem te vê daqui, dizem vocês com esse catarro matinal que hoje vos caracteriza tão bem. Foram queimar velas para Fátima no fim de semana e ficaram assim, foi? É que eu estou a usar os pés para me rir em vez da boca, como é normal, daí a vossa confusão. Até estou com a língua do sapato toda de fora! Mas voltando ao fascinante universo da literatura para juvenis, o que é que se segue? A Assunção Cristas a apresentar um livro sobre Agricultura e Pescas? Ou a exploração literária do alucinante tema do ordenamento do território, uma temática que há décadas alimenta o imaginário das nossas crianças? Ou ainda o Marco António em tourné pelos infantários do país a fazer leituras encenadas subordinadas ao tema dessa autêntica mina de ouro, sob o ponto de vista do interesse literário, que constitui o sistema de segurança social e o regime de contibuições em vigor... A propósito, é só um minutinho para isto: é que quando digo o nome do secretário de estado da segurança social não consigo deixar de pensar que estou a repreender um filho. Falta-lhe ali um Pereira, ou um Silva, para acomodar o nome. Sempre era menos incómodo para todos: Marco António Pereira soa melhor e faz mais secretário de estado. Fica aqui a sugestão e, agora, voltando ao ministro das finanças, palavra de honra que quando ouvi o Vítor Gaspar dizer que naquele livro que ele estava a apresentar o défice era "um urso" e os mercados "abelhinhas desorientadas" pensei que a seguir ia entrar na sala o Sérgio Godinho a cantar os "amigos de Gaspar", o que tornaria tudo ainda mais terno e comovente... Não tornaria nada! Tornaria tudo mais estranho e assustador! Por falar no domínio do sinistro e do aterrador, e as declarações recentes de Marques Mendes a propósito do ministro das finanças a dizer que este apresentava já "sinais de desgaste"?! Viram, ou estavam a assoar o nariz e não limparam bem e ficaram com uma catota presa na rama do narigueiro o dia todo, como se fosse uma pinha num pinheiro? Ah, viram! Então, posso continuar porque sabem do que estou a falar... Pois é, o Marques Mendes foi duro e disse taxativamente que o Vítor Gaspar está "desgastado". Vamos ver essas declarações de Marques Mendes e o diálogo interessante que se estabeleceu entre estes dois políticos. São imagens exclusivas do remediodosescaravelhos: (Passam imagens, sem som, de uma conversa entre Marques Mendes e Vítor Gaspar). Ok, foram estas as imagens do confronto entre o ex lider laranja e Vítor Gaspar... (Pausa) Ãh, como? As imagens não tinham som? Mas eu disse que íamos ver as declarações, não disse que as íamos ouvir. Isto é televisão, não é rádio... Ok, se querem ouvir também, então já podiam ter dito. Vamos então passar a ver e ouvir o interessante diálogo que houve entre Mendes e Gaspar a propósito das declarações do primeiro em relação ao segundo.
Marques Mendes - O senhor ministro apresenta já evidentes sinais de desgaste!
Vítor Gaspar - N-ão a-pre-sen-to na-da, to-li-ces!
MM - Isso para mim é muito claro!
VG - I-sso n-ão é de to-do ver-da-de!
MM - Está à vista de quem quiser ver...
VG - E o que é que es-tá à vis-ta de qu-em qui-se-r v-er?
MM - Então, os sinais de desgaste, principalmente este aqui (aponta para os olhos), olheiras...
VG - M-as qu-al-que-r pe-sso-a t-em o-lhei-ras!
MM - Então e isto aqui? (Aponta para a cabeça) O senhor está cheio de cabelos brancos!
VG - Eu j-á ti-nha br-an-cas an-te-s d-e s-er mi-nis-tro!
MM - Isso é o que o senhor diz!... E isto aqui?! (Aponta para as rugas no rosto)
VG - M-as, m-as?...
MM - E essa tez pálida? (Começa a observar o ministro de forma mais atenta e próxima) Ora levante lá essas calças! (O outro levanta as calças até aos joelhos) Olhe bem para estas amolgadelas?! Estes joelhos já bateram de frente e não foi só uma vez! O senhor necessita rapidamente de uma revisão!
VG - (Evidencia perplexidade e conformismo)

domingo, 13 de maio de 2012

O que é aquilo no céu?

- Oh Carlos Manuel, o que é aquilo ali no céu?
- Parece um meteorito, João Nuno...
- Não, é um módulo lunar...
- Xiii, pois é, e vai acoplar no Barreiro!
- Espera, afinal parece, parece... parece...
- Parece?...
- Parece o super desemprego!
- Não João Nuno, é a super oportunidade, e vem no momento exacto para salvar toda a humanidade...

(A imagem afasta-se e vê-se um vulto descer sobre a Praça do Comércio. Depois, aparece em cena um repórter de rua que reconstitui os incríveis factos ali passados naquela tarde de domingo, dia 13 de Maio...)

Repórter de rua - (Falando para a câmara enquanto segura no microfone) Uma figura desceu dos céus e apareceu subitamente entre os habitantes da cidade de Lisboa. Veste-se como Super-Man e tem escrito no peito "Super-Oportunidade". A população recebeu este super herói com palmas e emoção, afinal, ele está aí para enfrentar o emprego, que não serve para nada pois não constitui uma oportunidade para ninguém... A emissão segue no estúdio contigo, Henrique Mendes.

sábado, 12 de maio de 2012

Onde é que se meteu o sacaninha do cherne que ainda agora estava aqui e eu queria segui-lo para todo o lado?!

Como é que Ele disse aquilo, ai?!, como é que foi?!, caramba?!, que até me falha o luxemburguês de Portugal em que Ele disse aquilo, deve ser isso que é a Sua inefabilidade, ai?!, se eu te pego, ai, como é que Ele disse?!, ah, já sei, Ele disse assim: "estar desempregado não pode ser, como ainda é para muita gente hoje em Portugal, um sinal negativo". (Pausa) E andava tanta gente preocupada com o desemprego!... (Pausa) Que desperdício de tempo e energia! Noites mal dormidas, gente que se matou! Oh, vã glória dos fracos... Ainda bem que Ele resolveu avisar-nos ontem de como é que isto deve ser entendido! Olha se Ele decidia continuar calado! Eu sei que Ele escreve direito por linhas tortas, é isso que O distingue dos simples mortais, que escrevemos torto por linhas linhas dreitas, fenómeno a que se chama imperfeição ou finitude. Agora que era uma oportunidade é que nós não sabíamos... Cambada de idiotas que não enxergamos uma oportunidade como esta que nos entra pelos olhos adentro!... Pela casa adentro!... Pela carteira adentro!... E mesmo assim não demos conta!... E bem que Ele tentou enviar-nos tantos e tão claros sinais, misteriosos sinais de uma oportunidade que não soubemos ver: as sucessivas alterações ao código de trabalho, a precariedade, a facilidade dos despedimentos, as novas regras de atribuição e manutenção do subsídio de desemprego, enfim, tantos foram os Seus sinais e, mesmo assim, não compreendemos os Seus desígnios e pensávamos que era mau estarmos desempregados. (Pausa) Faltámos às aulas de semiótica na faculdade e, na verdade, também faltámos à catequese! Porque, ou é impressão minha, ou naquele seu português encriptado e profético, que Ele encomendou no Brasil, onde há mães de santo, pombas giras e outros fenómenos do Entrocamento de São Salvador da Baía, como João Kléber e Fafá de Belém, e no qual também nos exprimimos agora neste lado do mar, o que o Deus, que neste terceiro milénio incarnou no primeiro ministro português, disse foi que estar desempregado "deve constituir uma oportunidade para mudarmos". Sendo que o que Ele queria dizer é mudarmos de país, coisa que Ele, aliás, já havia dito. Basicamente, o que Ele disse agora foi um mix do que já havia dito quando apontou o caminho da emigração para os jovens portugueses, qual Infante Dom Henrique apontando para oeste... E já vai avisando: "nem temos empregos para toda a vida", o que sugere uma abordagem interessante ao conceito de estabilidade no emprego e carreira, seja ela qual for. Aliás, os políticos são, em rigor, exemplo disso mesmo: há pessoas visionárias em Portugal, que perceberam há muito esta verdade que Ele ontem comunicou ao país, na verdade, o mesmo país de 1917. Quais pessoas? Tantas! Ferreira do Amaral, por exemplo, apesar de ser engenheiro mecânico, já trabalhou no sector das Pescas, no sector da Agricultura, no área do "investimento estrangeiro", na área das "indústrias nacionais e de defesa", já foi secretário de estado das indústrias extractivas, já foi ministro do comércio, já foi ministro das obras públicas, donde saltou directamente para a Lusoponte, sem passar pela casa de partida, e depois de ter sido o ideólogo da ponte Vasco da Gama... Se isto não é antecipar as palavras d'Ele em muitos anos, é o quê? Daí que no currículo de Ferreira do Amaral e de tantos outros visionários que, na verdade, compreenderam há muito que não há um emprego para a vida inteira e é preciso perceber as oportunidades quando elas aparecem, e no caso dele e de tantos outros ex-políticos, oportunidades de mudar não têm faltado, deveria constar a sua actividade profética, na medida em que nos anunciaram com anos de antecedêndia as palavras que Ele ontem nos anunciou. Proponho, só para acabar isto rapidinho que estou quase a vomitar [é o que dá comer cherne que estava há 10 anos no frigorífico], que todos os desempregados façam formações na área da teologia filosófica, para compreenderem o conceito de perenidade, tal como ele nos é proposto na declaração: "nem empresas para a eternidade". Apesar da eternidade ser um sector onde não há desemprego, constituir um excelente modo de vida e dar de comer a muita gente! Deve ser por isso que não muda muito, não há oportunidade para isso...

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Strip tease

Pois é! (Silêncio, olha a plateia, esfrega as mãos uma na outra) E as eleições francesas?! Aquilo é que foi... (Silêncio, abana a cabeça em sinal de aprovação) na França! Aquilo é que foi votar! (Silêncio, esfrega as mãos uma na outra) E na Grécia? (Silêncio, sacode uma mão como se se tivesse magoado) Ai vai tu! Não, não, tu é que ganhaste, vai tu! Ai eu não vou, vai tu que és maior! Não, vai tu! Vai tu que já lá estiveste! (Silêncio) Olha se a moda pega! Ou é de mim ou aquela malta na Grécia anda a brincar aos países começados por "G"? E a reforma da Assunção Esteves por ter trabalhado uns aninhos no tribunal constitucional? Ah, a Assunção está a brincar aos países começados pela letra "P", deixa-a em paz a brincar, que as pessoas têm direito a divertir-se! Então, e a mim ninguém me convida para brincar? Tenho para mim que o principal tema de conversa dos deputados com mais de 35 anos seja a reforma... Aquela conversinha típica de reformado:
- Então quanto é que tu recebes de reforma?
- Ah, eu recebo 3000€!
- O quê? Mas eu só recebo 2500€!
- Mas é que eu tenho mais anos de descontos! Quantos anos é que tu tens de descontos?
- Ah, eu tenho oito!
- Mas eu tenho 10!
- Ah, então 'tá bem, então é justo!
Devem juntar-se lá todos nos jardins de São Bento, que têm umas boas frescas, a jogar dominó e a ver passar as deputadas mais novas, que começaram agora com vinte anos a carreira. Ah, e por falar em corja, e o Isaltino? Pelos vistos, esta semana mais uma confirmação de condenação e o menino parece que, como é que se chama aquilo, recorreu! É para aí o vigésimo juiz que tenta engaiolar o passarinho, mas este tem sempre uma mão amiga que deixa a portinhola aberta. E é vê-lo a voar pelos céus de Oeiras... Porque é que o próximo juiz que apreciar aquele argumento para sitcom que é o processo do Isaltino, em vez de o tentar mandar para a cadeia à força - porque quer queiramos, quer não, uma condenação é sempre uma coisa imposta, agressiva e até violenta - não lhe pede com jeitinho?! Com meiguice?! Ah, senhor Isaltino, não se importa de ir ali dois aninhos para a cadeia?! Se faz o favor? E se ele disser: Ah, não me dava muito jeito, que tenho a câmara para gerir e as contas na Suíça... Ainda se fosse só a câmara, a gente ainda geria a partir da cela, com uma boa cobertura de rede! Agora as contas da Suíça é uma coisa de muita responsabilidade... Aí o juiz dizia: oh, ande lá?! É que a gente queria fazer justiça e o senhor não deixa. E ele se calhar ia, que o Isaltino, lá no fundo, lá no fundo, vê-se que é um bom homem. Por falar nisso, e o Mário Lino Jamais? Esta malta não resiste mesmo a um strip teasezinho! Estão todos a nu e a dançar no varão. E nós, sentados na primeira fila, a atirar notas para o palco! Está tudo doido!

Ar de doente

- Estás doente, Carlos Manuel?
- Oh João Nuno, doente?!
- Sim, estás pálido...
- Não, isso é um creme que eu ando a pôr para as espinhas!
- É que estás mesmo com um ar adoentado! Parece que morreste há cinco minutos e se esqueceram de te desligar a "máquina" (aponta para o coração)!
- Oh, João Nuno, eu sou pobre!

terça-feira, 8 de maio de 2012

O grilinho

Desculpem este interregno mas parti uma perna ao saltar do quarto andar da secção de enlatados do 1.º de Maio e estive hospitalizado desde então. Aproveitei para pôr os filmes da minha vida em dia. Estive a rever o Crocodilo Dundee e, à conta disso, um alligator comeu-me a perna boa. Mas não faz mal... Agora não tenho qualquer perna funcional, mas isso são as contingências de gostar de filmes de homem. Para ir a pé a Fátima é que vai ser mais complicado, não? Por acaso vai, mas o que me preocupa é como fazer chichi de pé... A vantagem disto tudo é que para o ano, no 1.º de Maio, serei prioritário nas caixas do Pingo Doce... Ah, podias engravidar lá para Janeiro que assim chegavas a Maio cá com uma barrigona e também eras prioritário e escusavas de ficar sem uma perna! Lá isso era... Só que me faltava um útero e a fantasia de leopardo do Castelo Branco para isso. (Pausa) Eu ainda pensei nisso, não pensem que não pensei, mas não era nada fácil arranjar roupinha de leopardo como deve de ser... Um útero ainda se arranjava na secção de congelados do 1.º de Maio, agora leopardo?!... Ainda pensei em apresentar-me em tronco nu com uma jaqueta de couro da minha mãe, sem a minha mãe, mas era caubóiada a mais para um desconto de 50%. Apresentar-te aonde? Eh pá, vocês fazem cada pergunta sem sentido nenhum que me dais a sensação de estar a grelhar carapau grande no Botswana e a comer cozido das furnas na Gronelândia como se não houvesse amanhã ou, se houvesse, fosse ficar adiado para depois de amanhã. Ah, isso dizes tu porque não estás deste lado! Deste lado não se percebe nada! E eu  tenho culpa? Não fui eu que disse ao conde para cantar nem fui eu que realizei o Crocodilo Dundee, muito menos fui eu que que me lembrei de organizar as manifes do 1.º de Maio em recinto fechado! Pois não? Então, acho que estamos esclarecidos. Agora tenho de ir fazer chichi na toquinha de um grilo que construiu a casinha no caruncho do meu quarto e, se mesmo assim ele não sair, cantar aquela musiquinha do Quim Barreiros que o gajo se não sai a bem... sai a mal! Como?! É assim: Num buraquinho da parede lá de casa/Tinha um grilinho que fazia cri cri/Minha mulher gostava muito d'ouvir/A cantiga do grilo e não me deixava dormir/Peguei, peguei, peguei no teu grilinho/Peguei, peguei, peguei no teu grilinho/Peguei, peguei, peguei no teu grilinho/Peguei, peguei, peguei no teu grilinho. Agoram digam lá que isto não é terrorismo e que um gajo que cantasse isto no aeroporto, ao mesmo tempo que tentasse passar no detector de metais, não apitava como uma locomotiva doida à chegada à estação?!

sábado, 5 de maio de 2012

O homem que diz tudo o que pensa

- Então Carlos Manuel, estás bom?
- Impecável, João Nuno!
- Pareces um bocado em baixo... Está tudo bem?
- Não, é impressão tua! Está tudo impecável.
- Carlos Manuel, é o João Nuno!
- Impec!
- A sério? Olha que ninguém diria!
- Sabes bem que eu não sei dessimular. Não dessimulo por natureza. O que sou, mostro, o que sinto, digo!
- Hum...
- Sabes bem que digo sempre tudo aquilo que penso...
- Não dizes nada... Ninguém diz!...
- Claro que digo, sua bichona-cadela! Sua vouvouzela! Se a tua mulher descobre?!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Comecei a escrever no duche

Sátira aos aspirantes a tudo e mais alguma coisa que pululam, nomeadamente, no panorama televisivo actual

Como é que eu comecei a escrever? Comecei a escrever no duche ainda muito novo. Tinha vergonha de escrever à frente das outras pessoas... Tinha medo que achassem que eu escrevia mal... Até que um dia a minha mãe entrou de repente na casa de banho e apanhou-me a masturbar... Lembro-me das palavras dela como se fosse hoje.... Ela virou-se para mim e disse: que susto, filho, pensei que andasses a escrever às escondidas ou assim! E saiu para me deixar à vontade. Fiquei de rastos e durante algum tempo não escrevi... Tinha medo de ser apanhado... Um dia ganhei coragem e disse-lhe no que andava mesmo metido, que o meu sonho era aquele e que queria segui-lo até ao fim do mundo. Ela disse-me que compreendia, que eu estava a crescer, que aquilo de escrever eram coisas próprias da adolescência, que havia de me passar e rematou com estas palavras que agora reproduzo, não sem alguma emoção: agora vai lá para o quarto e masturba-te um bocadinho que essa história de escrever vai acabar por passar. Mas não passou! Comecei a escrever na sala, à frente de toda a gente, no jardim, no hall de entrada quando recebíamos visitas, só para envergonhar os meus pais. Uma vez, a minha mãe convidou um casal amigo para ir lá a casa e mandou-me pôr a mesa. Nos guardanapos deles escrevi: kero sere echecritôre i us meos paixe nãu deichão. Assinado Kamões, que era assim que eu assinava os meus textos. A partir daí começou a espalhar-se que eu escrevia e começaram a convidar-me para escrever em restaurantes chiques, enquanto as pessoas jantavam. Depois comecei a fazer o circuito dos bares e nunca mais parei até hoje. A que é que atribuo o meu sucesso? À minha perseverança, a nunca desistir daquilo em que acreditava, a não fazer cedências ao facilitismo e a manter os níveis de exigência e de qualidade sempre lá em cima... O que é que eu aconselho às pessoas que querem fazer da escrita a sua vida? O meu conselho é que parem de se masturbar e sigam o seu coração, persigam o seu sonho. Se o sonho é escrever, invistam num bom processador de texto, num bom corrector ortográfico e vão em frente. Eu falo por mim, comecei a perseguir o meu sonho por todo o lado até que ele teve de ceder e tornar-se realidade... Quem não arrisca, não petisca! O que é que eu senti quando enchi os coliseus de Lisboa e Porto na mesma semana? Foi uma sensação única, nunca tinha escrito para tanta gente e foi um momento único na minha carreira que vou guardar para sempre. O que é que me apetece escrever neste momento para vocês? Eh pá, não vinha preparado para isto. Ok, ok, eu escrevo: é seichta feirã e xobe comó carassas! Está escrevido!

Nota: durante o sketch, podem aparecer imagens do escritor a escrever no restaurante, recriando o espaço onde habitualmente existe um piano, com um jogo de luzes como se se tratasse de uma actuação musical... O mesmo nos bares... Depois, em teatros, salas de espectáculo, festivais de verão, etc...

Nota 2: o Sketch pode ser feito em modo entrevista.

Nota 3: pode ser feito em stand-up.

Excerto para Stand-up

Há coisas que tenho muita dificuldade em encaixar. Parece que vos ouço dizer: ah, a nós também há coisas que nos custam imenso a encaixar... Uma delas são matulões com dois metros de alto por dois de largo... Sim, eu sei, vocês já me tinham dito!. Encaixam melhor tipos baixos e sem grande massa muscular, com baixa escolaridade e sem perspectivas de futuro... É por isso que a estes lhes custa encaixar a Maya e o Paulo Cardoso! Quem?... (Silêncio) Desculpem, estava a atacar os cordões e apareceu aqui um bicharoco no chão, daqueles mesmo feios, escuros e cheio de tentáculos... Não, não era o José Eduardo dos Santos... Mas é parecido, a vossa confusão é por uma vez justificada... Falha-me o nome do bicho... Detesto quando me esqueço de um nome. Bem, não interessa, já o esborrachei e este já não chateia mais ninguém... Ah, não devias matar assim os bichinhos, todos têm um lugar neste ecossistema que é o planeta terra. Ok, já acabaram? Entai deixai-me continuar o meu raciocínio. Queria falar-vos do trânsito, na sequência do que estava a dizer... O serviço de informação de trânsito deste espaço que é o vosso... São oito e quarenta e cinco da manhã e regista-se um acidente na A1 no sentido norte/sul, junto às portagens de Alverca; o IC19 está congestionado nos dois sentidos. Mais a norte, no Porto, a VCI tem fila junto ao nó de Bessa Leite. Trânsito engarrafado nos acessos ao Pingo Doce da Cedofeita e Sá da Bandeira. Aliás, os acessos a todas as lojas pingo doce do país estão bloqueados pelo que se aconselha que os senhores automobilistas escolham um trajecto alternativo, sendo que há muito jeitoso quem passa ali junto ao continente da Maia. Vão por aí e aproveitem os espectaculares descontos em cartão se tomarem essa direcção. O serviço de informação de trânsito deste espaço teve o alto patrocínio de uma outra conhecida cadeia de supermercados, cujo nome não podemos dizer, sendo que um começa por C e outro por M.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Senha número 090

Nada como o dia 3 de Maio para olharmos para o 1.º de Maio com a distância necessária que nos permita fazermos uma análise fria e rigorosa dos factos. Ontem ainda estava tudo muito a quente, as lojas do Pingo Doce ainda não tinham sido todas reparadas e ainda havia feridos em coma e outros em estado mesmo grave... Hoje estou a falar-vos directamente da loja do Pingo Doce onde costumo vir e sente-se aquela paz podre própria dos cenários de guerra a seguir a uma batalha. A secção de frio foi provisoriamente transformada em morgue e ainda há vários carrinhos de compras com os pneus furados e os chassis danificados. Mais vale mandar para a sucata e trocar por acções da REN. Muita gente que por aqui vai passando fica curiosa com o facto de estarmos a fazer reportagem e vai fazendo algumas perguntas. O facto de eu estar nu é capaz de ter qualquer coisa a ver com esse facto, mas eu quero acreditar que é muito mais que uma mera frivolidade. Houve gente que já me perguntou, inclusivamente, que horas eram e eu respondi... Houve gente que me perguntou o que era esta coisa que eu tenho espetada na testa... E eu respondi também a essa pergunta e disse que era uma máquina de senhas que alguém tinha feito o favor de me enfiar na cabeça no dia 1 e que quem quisesse tirar o número para o frango assado era aqui... Mas aviso que o último senhor a chegar é o 090 e ainda só vai ser atendido agora o 045... Houve gente também que me perguntou o que era aquilo que tenho espetado nas costas... E eu respondi que era um ferro, que o Joaquim Bastinhas tinha passado e não resistiu ao lombinho de boi que Deus me deu e que é uma benção e um privilégio poder fazer reportagem desta forma, na loja toda, o ano inteiro. Relativamente aos preços, dizer que hoje voltou tudo ao normal e já se pode, por isso, comprar em segurança. Relativamente aos clientes, dizer que hoje também já só vieram os normais e que a PSP apenas teve de intervir quando um indivíduo completamente alterado (sem uma perna, três dedos de uma mão, o baço e a dar um bocadinho de traseira) irrompeu pela loja e exigiu, de arma em punho, uma palete de chouriças da toscana que tinha deixado para trás no momento da confusão do 1.º de Maio, mas que já estava paga. Entretanto, e só para fechar esta reportagem, até porque está frio e eu estou como vim ao mundo e com a boca cheia de tickets pró frango, diz-se por aí à boca pequena que o Continente vai lançar uma contra ofensiva de marketing e, para atrair pessoal, foi desenterrar a Popota que já tinha ido a sepultar no Natal, sacudiu-lhe o pó e vai pô-la a fazer a dança do ventre para os clientes mais endinheirados. Na calha está ainda um lap dance da Leopoldina e uma sessão lésbica entre as duas, caso a coisa não resulte... Agora tenho de ir para casa, que ainda não arrumei as compras todas de terça. Desculpe, não me empresta o seu avental? É que está lá fora um frio!...

quarta-feira, 2 de maio de 2012

1.º de Maio a 50%

Olá, isso ontem é que foi pilhar, hem? Hoje é para descansar que andar a partir supermercados cansa e exige muito dispêndio de coisas essenciais ao organismo, como bifidus, kaiserslautern emunitasse... e... fogo, nunca acerto nos nomes destas porras que fazem bem! (Pausa) Pois é, é isso mesmo, vejo que já acertaram, hoje é dia 2 de Maio e o momento ideal para fazer o balanço do último Natal... Pois... Não é nada, estava a brincar. É o momento ideal mas é para fazer o balanço da última "operação Páscoa" da GNR, a "operação bugs Bunny"... Pois... Não é nada, estava outrossim a brincar... Lá está ele a fazer humor inteligente outra vez, dizem vocês. Vocês são uma simpatia, parem com isso senão eu derreto... Agora é que é a sério, eu não queria falar, estava a ver se evitava, mas vai ter mesmo de ser: ontem foi o 1 de Maio, como é sabido, dia internacional do trabalhador, por favor, não confundir com dia internacional do trabalho, que esse só se festeja na Alemanha, que é onde há trabalho. Aqui só há trabalhadores... (Pausa) Mas como eu estava a dizer, ontem decorreu mais um 1.º de Maio e este ano o dia ficou marcado por diversas manifestações um pouco por todo o país. As mais significativas - e que levaram mais gente para a rua - foram aquelas que tiveram lugar à porta das lojas Pingo Doce. Foi junto a alguns destes estabelecimentos que os ânimos estiveram mais exaltados, digamos assim, com palavras de ordem mais fortes, do ponto de vista da mensagem, como por exemplo: "Aquela palete de açucar é nossa! Quem lhe tocar leva uma coça" ou aquela que mais me tocou pela carga emotiva que o momento encerrou: "ou passas para cá essa caixa de vinho a bem, ou levas nas trombas com este lombo inteiro do acém", esta última dirigida ao funcionário da secção de vinhos, que passou a caixa, o barrete branco, o relógio e o telemóvel, que o povo ontem não estava para brincadeiras. Foram reivindicações atrás de reivindicações, umas atrás das outras, com os protestos a subirem de tom quando os funcionários daquela conhecida rede de supermercados quiseram fechar e ir para casa descansar. Consta que no Porto até houve agressões entre manifestantes, que não exibiam os habituais cartazes, mas carrinhos de compras testos de bens de primeira necessidade, tudo a 50%! E se há coisa que o povo gosta é de descontos! Para bem, bem, era o Pingo Doce ter telefonado para a Rita Ferro Rodrigues a ver se era possível, através daqueles dois doutores do além com quem ela se dá, contactar o Álvaro Cunhal, a ver se ele, por sua vez, aceitava vir ao aquém fazer uma perninha e vestir aquele aventalinho verde na secção de enchidos do primeiro de Maio, enquanto cantava aquela cançãozinha irritante da publicidade, à frente de uma horda de trabalhadores do Pingo Doce, felizes por praticarem descontos na loja toda, o ano inteiro... Ah, e a tradição de se cantar o hino neste dia? Não achas que é um sacrilégio não o fazer? Por acaso, não acho. Ainda se cantar o hino desse aí um desconto que se visse à malta... Aí, era de pensar... Mas também se o problema for só a questão do hino, canta-se o de "Janeiro a Janeiro, preços baixos o ano inteiro" com a mão no peito e amigos na mesma. (Pausa) O povo ontem estava mesmo possuído, como se não comesse há duas semanas e aviões militares da França e da Alemanha tivessem deixado cair lojas Pingo Doce para matar a fome à população. Entretanto, por falar em enchidos, lembrei-me: viram a festa da CGTP? E a Rave da UGT? Se aquilo não é encher chouriços, é o quê? E a UGT, que parece uma filial do governo, a protestar, viram? Foi medonho! Eu, pelo menos, estou com medo... Está tudo doido!
PS. Escolham locais seguros para fazer as vossas compras e, pelo sim, pelo não, deixem as crianças em casa... É que nunca se sabe onde e quando uma nova campanha de desconto voltará a atacar!