domingo, 29 de abril de 2012

Um guião para stand-up

O comediante tem já um ar enervado quando faz a sua entrada em cena. Gesticula muito e coloca-se no centro do palco. Diz - Boa noite ao público e, como se alguém lhe tivesse perguntado o que é que ele tem, responde - Está tudo bem, não é preciso nada. Isto já passa! Pega numa pílula minúscula e coloca-a debaixo da língua. Depois olha para trás e numa tela colocada no fundo do palco é projectada uma imagem de Manuel Luís Goucha em plenas funções de apresentador. A imagem escolhida é a do famigerado momento em que o conhecido e estonteante apresentador alça a perna de forma canina e precisa, enquanto gatinha pelo glamoroso chão de "A tua cara não me é estranha". Olha para a fotografia projectada do Manuel Luís Goucha e aguarda em função do público. Quando este se acalma e já espera pelo comediante, este retoma a palavra, não sem antes ingerir outro comprimido. Espera que o público reaja a este novo momento e quando a plateia se acalma uma vez mais, reacta o texto. Cada momento da representação deve levar o seu tempo, que o comediante deve determinar em função das reacções mais ou menos efusivas do público, da adesão deste ao que vai sendo proposto. Volta à carga ao mesmo tempo que olha a fotografia do apresentador no momento exacto em que alça  aperna: - Quem é que assume as responsabilidades em relação a isto? A imagem de Goucha é substituída pela de José Castelo Branco, "cantando" vestido de leopardo da cabeça aos pés? O actor diz: - E por isto? Abana a cabeça em sinal de desaprovação, enquanto o público, assim se espera, reage ao que é proposto. Enfim, vamos avançar. Eu sei que é costume começar as actuações de stand-up por dizer qualquer coisa do género: "Quando estava a vir para cá, lembrei-me...", e tal e coisa. Enfim, eu sempre achei isso uma entrada de texto fraquinha. Pessoalmente, quando estava a vir para aqui não me ocorreu nada que pudesse ser engraçado e pudesse ser utilizado em palco esta noite. (Silêncio) Também vim pela nacional desde Braga e vomitei o caminho todo. (Espera pela reação de público. Se não houver, avança rapidamente) E também porque à frente vinha um tipo a conduzir com um destes par de orelhas que é uma cena tal que nem quero trazer para aqui! Coitado! Palavra de honra que no início até pensei que o carro da frente ia a transmitir o Ratatouille. Tipo um novo serviço da Estradas de Portugal, uma cena mais cultural ou assim... Até acho que foi por causa disso que vomitei, fixei-me no ondular daquelas duas mós d'ouvir... Até lhe tirei uma fotografia para mostrar à minha mulher quando chegar a casa. Aparece no ecrã a fotografia do José Rodrigues dos Santos ou, se o público for dos bons, do Miguel Esteves Cardoso. Para ela ver a sorte que tem... São as chamadas orelhas supervenientes... Um tipo, com umas orelhas daquelas, dá-lhe uma urticária nos pés e coça-se nas orelhas e aquilo passa... Aquilo  de certezinha que já vem preparado para TDT... Sempre são algumas centenas de euros que se poupam! Enfim, é claro que também não é muito justo implicar-se com uma pessoa por causa de um traço físico menos feliz. Pessoalmente acho que ou um gajo, ao vir para cá, viu o Carlos Castro (Silêncio, aguenta-se até o público permitir que recomece) ou cala-se bem caladinho e diz o texto que tem para dizer e pronto. Enquanto diz a última frase, aparece uma imagem do Jorge Lacão projectada na tela, ou, como diria o Carlos Ribeiro na "casa cheia", no video hall... O comediante encolhe os ombros e remata: - Quem disse que a vida era justa? Por falar em injustiças, e o desemprego? Já viram como isto está? Isto está perigoso! Olha a Sónia Brasão, que ninguém lhe dava trabalho e ela quase que arrebentava com isto tudo?! Olha se o resto da malta - resto como quem diz - desata a dar gás nisto? Dar gás, salvo seja... E é que agora, desde que acabou a primeira edição do "A tua cara não me é estranha", a Sónia não tem trabalho outra vez... Agora, como é vai ser? Algum de vocês sabe onde é que ela mora? Eu moro em Camarate, ali à Charneca... Será seguro? O Otelo sei que não mora para aqueles lados, e se ele fizer alguma coisa é um golpe de estado, nada de mais. Não é nada a que nós já não estejamos habituados vindo dele, para mais que é Abril! Ele também gosta do Novembro. Enfim, é o que dá a bigamia... O comediante aguarda a reacção do público... Entretanto, neste impasse entre o fim da última tirada e a reacção do público, aparece projectada na tela a fotografia do Luís Borges, marido de Eduardo Beauté. O comediante aguarda uma vez mais a adesão do público e, quando sentir que é o momento, remata: - Quem é que assume a responsabilidade disto? E ao mesmo tempo que abandona a sala sem se despedir, já de costas para o público, pára e questiona: - Como é que esta gente vai ter filhos? Abana a cabeça, sai da sala ao mesmo tempo que lamenta: - E a história da população activa?. Regressa para agradecer e despedir-se do auditório.

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