segunda-feira, 30 de abril de 2012

Peça para stand-up

Já que vocês estão todos desempregados, há algum que já tenha saído da caminha e esteja disposto a ir fazer-me umas comprinhas que me estão a fazer falta? Há um intermarché lá ao pé de casa. Eu até poderia passar por lá depois do trabalho, mas não me apetece ver "A tua cara não me é estranha" outra vez... Sempre que lá entro parece que estou a assistir a uma reposição da programação de domingo à noite da tvi. A minha filha entra no intermarché e diz tvi, pai, como se o mundo com dois anos e meio onde ela compete fizesse de repente sentido. Ah, agora não podem que vão começar as novelas da tarde? Está bem, está! Se quiserem poupar dez mil horas de novelas nos próximos anos, leiam o Romeu e Julieta e o Hamlet, que está lá tudo o que se pode fazer em relações humanas para os próximos milénios... Era bom para vocês e era bom para o ambiente. Ah, mas as novelas é uma coisa boa porque dá trabalho a muitos actores que sem ele morreriam de fome... Ou então trabalhavam... Ah, parece que estás a dizer que os actores não trabalham! Pois parece... Ah, seu este, seu aquele... Agora que já me insultaram com recurso aos únicos dois pronomes demonstrativos que conheceis, eu vou precisar de uma dúzia de ovos, carne picada de bovino (aí uns dois quilos), tomate fresco, orégãos, nóz-moscada, pimenta em grão, vinho branco e cenouras. Vou fazer um empadão. Estais a apontar? Deixai os sacos com o porteiro, que eu moro num condomínio fechado mesmo ao lado dos mosqueteiros. Ah, não há condomínios desses à beira de supermercados desses! Lá estão vocês com vontade demonstrar! Que embirradores que os meninos estão! Então não façam nada! Deixem estar que eu cá me arranjo, já estou habituado a fazer tudo sozinho. Já que estão desempregados, e adoram passar tempo no centro de emprego da vossa área de residência na fila para a reunião quinzenal como se estivessem numa procissão, com aquela cara séria de quem acredita em Deus e sabe que Ele lá sabe, decorem as bem-aventuranças, a letra do hino e as cores da bandeira, que nunca se sabe quando é que terão de responder a um teste sobre isso! Agora tenho de ir que isto de andar à procura do primeiro emprego é como procurar um cisco no olho do furacão. Ah, mas eu já encontrei um, dizem vocês nesse vagido que vos é muito particular. Agora tentem apanhá-lo! (Silêncio) Eu vi logo!

domingo, 29 de abril de 2012

Um guião para stand-up

O comediante tem já um ar enervado quando faz a sua entrada em cena. Gesticula muito e coloca-se no centro do palco. Diz - Boa noite ao público e, como se alguém lhe tivesse perguntado o que é que ele tem, responde - Está tudo bem, não é preciso nada. Isto já passa! Pega numa pílula minúscula e coloca-a debaixo da língua. Depois olha para trás e numa tela colocada no fundo do palco é projectada uma imagem de Manuel Luís Goucha em plenas funções de apresentador. A imagem escolhida é a do famigerado momento em que o conhecido e estonteante apresentador alça a perna de forma canina e precisa, enquanto gatinha pelo glamoroso chão de "A tua cara não me é estranha". Olha para a fotografia projectada do Manuel Luís Goucha e aguarda em função do público. Quando este se acalma e já espera pelo comediante, este retoma a palavra, não sem antes ingerir outro comprimido. Espera que o público reaja a este novo momento e quando a plateia se acalma uma vez mais, reacta o texto. Cada momento da representação deve levar o seu tempo, que o comediante deve determinar em função das reacções mais ou menos efusivas do público, da adesão deste ao que vai sendo proposto. Volta à carga ao mesmo tempo que olha a fotografia do apresentador no momento exacto em que alça  aperna: - Quem é que assume as responsabilidades em relação a isto? A imagem de Goucha é substituída pela de José Castelo Branco, "cantando" vestido de leopardo da cabeça aos pés? O actor diz: - E por isto? Abana a cabeça em sinal de desaprovação, enquanto o público, assim se espera, reage ao que é proposto. Enfim, vamos avançar. Eu sei que é costume começar as actuações de stand-up por dizer qualquer coisa do género: "Quando estava a vir para cá, lembrei-me...", e tal e coisa. Enfim, eu sempre achei isso uma entrada de texto fraquinha. Pessoalmente, quando estava a vir para aqui não me ocorreu nada que pudesse ser engraçado e pudesse ser utilizado em palco esta noite. (Silêncio) Também vim pela nacional desde Braga e vomitei o caminho todo. (Espera pela reação de público. Se não houver, avança rapidamente) E também porque à frente vinha um tipo a conduzir com um destes par de orelhas que é uma cena tal que nem quero trazer para aqui! Coitado! Palavra de honra que no início até pensei que o carro da frente ia a transmitir o Ratatouille. Tipo um novo serviço da Estradas de Portugal, uma cena mais cultural ou assim... Até acho que foi por causa disso que vomitei, fixei-me no ondular daquelas duas mós d'ouvir... Até lhe tirei uma fotografia para mostrar à minha mulher quando chegar a casa. Aparece no ecrã a fotografia do José Rodrigues dos Santos ou, se o público for dos bons, do Miguel Esteves Cardoso. Para ela ver a sorte que tem... São as chamadas orelhas supervenientes... Um tipo, com umas orelhas daquelas, dá-lhe uma urticária nos pés e coça-se nas orelhas e aquilo passa... Aquilo  de certezinha que já vem preparado para TDT... Sempre são algumas centenas de euros que se poupam! Enfim, é claro que também não é muito justo implicar-se com uma pessoa por causa de um traço físico menos feliz. Pessoalmente acho que ou um gajo, ao vir para cá, viu o Carlos Castro (Silêncio, aguenta-se até o público permitir que recomece) ou cala-se bem caladinho e diz o texto que tem para dizer e pronto. Enquanto diz a última frase, aparece uma imagem do Jorge Lacão projectada na tela, ou, como diria o Carlos Ribeiro na "casa cheia", no video hall... O comediante encolhe os ombros e remata: - Quem disse que a vida era justa? Por falar em injustiças, e o desemprego? Já viram como isto está? Isto está perigoso! Olha a Sónia Brasão, que ninguém lhe dava trabalho e ela quase que arrebentava com isto tudo?! Olha se o resto da malta - resto como quem diz - desata a dar gás nisto? Dar gás, salvo seja... E é que agora, desde que acabou a primeira edição do "A tua cara não me é estranha", a Sónia não tem trabalho outra vez... Agora, como é vai ser? Algum de vocês sabe onde é que ela mora? Eu moro em Camarate, ali à Charneca... Será seguro? O Otelo sei que não mora para aqueles lados, e se ele fizer alguma coisa é um golpe de estado, nada de mais. Não é nada a que nós já não estejamos habituados vindo dele, para mais que é Abril! Ele também gosta do Novembro. Enfim, é o que dá a bigamia... O comediante aguarda a reacção do público... Entretanto, neste impasse entre o fim da última tirada e a reacção do público, aparece projectada na tela a fotografia do Luís Borges, marido de Eduardo Beauté. O comediante aguarda uma vez mais a adesão do público e, quando sentir que é o momento, remata: - Quem é que assume a responsabilidade disto? E ao mesmo tempo que abandona a sala sem se despedir, já de costas para o público, pára e questiona: - Como é que esta gente vai ter filhos? Abana a cabeça, sai da sala ao mesmo tempo que lamenta: - E a história da população activa?. Regressa para agradecer e despedir-se do auditório.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Piquenique

Cenário e enquadramento: Na situação presente, trata-se de um “directo” durante um serviço noticioso, realizado a partir de um pinhal, onde uma família de cinco pessoas [casal e filhos pequenos] come a uma fresca. Trata-se de uma situação de piquenique típica de um domingo de verão, com a toalha estendida no chão, os membros da família à volta, felizes com a sua condição, com a felicidade que a vida lhes reservou… O único elemento que destoa é mesmo a presença de uma arca frigorífica, das grandes, ligada a um pequeno gerador eléctrico [ou não, se pretender aprofundar-se o nonsense da coisa]. Este momento visual deve constituir o elemento forte do Sketch, a punch line do texto. Aliás, a arca deverá estar sempre presente ao longo de todo o Sketch, como elemento desconstrutor, o que quer que isso seja.


Jornalista – Estamos em directo deste pinhal perto da praia, onde muitas famílias portuguesas aproveitam para fazer um piquenique e passar algum tempo em contacto com a natureza. Vamos falar com este senhor, que parece ter trazido tudo (a câmara foca a arca frigorífica) o que faz falta para fazer face às altas temperaturas que se sentem no dia de hoje. Então, o que é que traz na arca frigorífica?

Pai chefe de família – É o meu paizinho e a minha mãezinha… (Aproxima-se do electrodoméstico, acaricia-o, há carinho e amor sincero naquilo)

Jornalista – (Visivelmente surpreendido e enojado) Mas o senhor tem a noção de que o que está a fazer é um crime?! Não vê que eles podem morrer de hipotermia?

Mulher mãe de família – Oh Brito, eu não te disse que era para deixares os paizinhos em casa?! Eu bem te disse que isto ia dar para o torto! (Pausa, abana nervosamente a cabeça. Continua:) Tu e essa mania que eles têm de arejar!

Pai chefe de família – (Virando-se para a mulher) Cala-te mas é para aí! Se fosse por ti, os meus paizinhos nunca saiam de casa! Na semana passada, quando trouxemos os teus paizinhos na arca, vieste toda contente!

Jornalista – (Ainda incrédulo) Mas não vê que os seus paizinhos podem morrer de frio aí dentro… Aliás, a esta hora se calhar já faleceram…

Pai chefe de família – O paizinho, por acaso, já faleceu esta manhã, antes de sairmos de casa… Acordou bem e conforme me estava a dizer bom dia, assim “ficou”! Mas como já tínhamos tudo organizado para vir para aqui… Os panados e o arroz branco (quer um rissolinho? Oh Amélia, dá aí rissolinho ao senhor…)! Quer dizer, dava um grande transtorno estar a alterar tudo. A minha mãezinha é mais rija e está ali dentro como aço! Quer ver? (Ao mesmo tempo que pergunta, levanta a tampa da arca. Vê-se o pai, sentado, com o pescoço para baixo, como se estivesse a dormir. A mãe levanta-se e sorri para a câmara. O Pai, chefe de família diz:) Oh mãezinha, diga boa tarde às pessoas da televisão, que estão a fazer-me uma entrevista! (O jornalista tenta colocar uma questão à senhora, mas o Pai, chefe de família começa a fechar a tampa da arca, dizendo:) vá para dentro, mãezinha, que está um calor cá fora que não se aguenta! Olha que na televisão eles estão sempre a dizer que é preciso ter muito cuidado com as criancinhas e os velhinhos à conta do calor! Vá fazer companhia ao paizinho… (Fecha a tampa!)

Jornalista – Não acha que o funeral do seu pai é mais urgente do que fazer um piquenique?

Pai chefe de família – Depende da pessoa que morre! Não sei se me está a compreender?! Se for uma pessoa importante, sei lá, um presidente de junta, um presidente de câmara… (Pausa. Pensa em graus de importância, remata:) um sucateiro, enfim, pessoas de destaque, aí ‘tou d’acordo, aí pára tudo, que há coisas com que não se brinca! Agora, o meu paizinho foi um desgraçado toda a vida, nunca andou na política…

Jornalista – Então e agora o que é que vai fazer?

Pai chefe de família – Uma vez que pergunta, agora vou ali adiante num instante meter gasóleo à bomba, que ó domingo é 8 cêntimos mais barato!

Jornalista – Referia-me aos seus paizinhos?

Pai chefe de família – A minha mãezinha está bem, não podia estar melhor. É uma pessoa um bocadinho fria, que não chora por dá cá aquela palha… De maneira que não deve estar a estranhar nada, nada o ambiente… (As crianças batem-se, uma delas chora! O pai intervém:) Oh meninos, toca a parar imediatamente! Se não, já sabeis, meto-vos aos três na arquinha com os avós! (As crianças param. Parecem atemorizadas. Virando-se para o jornalista:) É remédio santo, ficam logo calminhos para quinze dias! Quanto ao paizinho, vou esperar pelo começo do fim da crise, que isto hoje em dia morrer é um luxo! E o paizinho viveu humildemente, mas resolveu morrer acima das suas possibilidades! Não se pode morrer em qualquer altura!

Jornalista – Bom, muito obrigado! (Virando-se para a câmara, terminando o “directo”:) Bom, Hélder, daqui é tudo por agora (com a naturalidade possível. Termina a ligação ao estúdio, virando-se depois para o Pai, chefe de família:) Bom, muito obrigado mais uma vez pela sua colaboração…

Pai chefe de família – Ora essa! Vai uma cervejinha fresquinha? (Bate na arca com força, grita para o seu interior:) Oh, mãezinha, passe aí duas bojecas fresquinhas, se faz favor… (A tampa abre-se, uma mão ergue duas garrafas de cerveja. O homem pega nas garrafas, dá uma ao jornalista, choca a sua garrafa no do outro, atónito e sem reacção).

Circo Cardinal

Está uma sexta-feira de cortar a cabeça e fazê-la rolar por debaixo dos carros que estão à minha frente até ao trabalho. Que sempre era maneira de chegar a horas e de ter a cabeça no lugar certo, para variar... Depois o chefe que ma sentasse à secretária que o Antunes emprestava-me os braços dele. Ele também não os usa para nada! Desculpem lá o mau humor, é que estou a aproveitar para levar os meus filhos à escola enquanto alinhavo este texto. Está cá um destes trânsitos, que até parece que ao fundo desta fila está o José Eduardo dos Santos todo nú com as partes suavemente cobertas por um biquini de diamantes. E estamos todos na fila para acabar de o despir... Sei que não vou conseguir chegar lá primeiro, porque estou atrás da Luciana Abreu... (Silêncio) E ela adora pessoas africanas. (Silêncio) E mesmo que consiga ultrapassá-la, mais à frente vai a filha do Joaquim Furtado com uma panela de comida e roupas para vestir a príncipe do nada que se encontra desnudo. Além disso eu estou a fumar e a dar porrada aos miúdos europeus que vão no banco de trás, pelo que não estou concentrado. Ah, e tu não sabes que é proibido fumar no carro com crianças a bordo? (Silêncio) Perguntam vocês... Pronto, já perguntaram. Agora deixem-me continuar. Estou a ouvir no serviço nacional de trânsito da Antena 1 que a Marina Mota chegou lá antes de toda a gente. Pronto, já não há nada a fazer. A não ser rezar pelo Zé Eduardo, pensar no que vou fazer para o jantar e aproveitar para pôr os sms's em dia... Pois é, vamos lá ao que interessa, o Sporting já era na liga europa. Estou a ouvir na rádio que o ambiente à volta do jogo foi fantástico, com adeptos de ambas as equipas a confraternizarem de um modo exemplar. Pronto, já está a parte do futebol. Tinha de ser, porque é actual e este género de humor alimenta-se da actualidade. Ah, mas tens de fazer piada com ela, não basta referires-te a ela. Então, já fiz humor com o tema: "o Sporting perdeu na liga europa". Não tem piada? Eu acho um piadão... Pronto, está bem, mas é que eu quando não consigo fazer humor com uma coisa, tento fazer amor com ela... (Silêncio) Ok, ok, já percebi... Prometo que a próxima vez que aborde um assunto assim actual que meto logo uma piada como deve ser no meio, como por exemplo: o Sporting é que, desta vez, não se lembrou de fingir que subornava aquele árbitro inglês, que até tinha cara de que lhe depositaram umas garrafas Ballantine's na conta... Ah, isto é que vai cá um circo cardinal (perceberam o jogo de palavras?), com feras domesticadas e palhaços que nos fazem rir às bandeiras despregadas. Pronto, agora é que já está mesmo, não se fala mais de futebol. Esperem só aí um bocadinho, que os miúdos estão a sair do carro. Estava só a dar uns conselhos ao meu mais velho, que anda a levar porrada de um gordo da turma dele, e eu estava-lhe a ensinar a partir rótulas com um soco bem colocado. Ah, e se a professora dele descobre? Nesse caso, parte-lhe as rótulas também. Boas aulas filho, aprende bem para vires a ser alguém.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Árvore dos Patafúrdios

Há uma zona arborizada dentro de vocês, que eu estou a ver daqui e é uma realidade que eu desconhecia e profundamente chocante. Mais especificamente, no nariz, a trepar pelas fossas nasais e a metastizar no vosso "petit cerveau". Por isso é que vocês não pensam como deve de ser. Por causa disso e por causa daquilo que vocês muito bem sabem. Mas não quero falar disso que me comovo. Desculpem estar a meter francês ao barulho, mas estou a praticar porque vou emigrar para França..."What are you saying"? Ou para Inglaterra. Desculpem o incómodo. Na realidade ainda não decidi quem é que quero que ganhe a guerra dos cem anos. Quando decidir isso, agirei em conformidade. Quero emigrar para um país ganhador, estou farto de perder. Uma coisa é certa, sou bom com línguas, com a minha, com a vossa, com todas... Ah, brejeirice, apontam vocês. Pois, talvez, mas não fui eu quem criou todas as potencialidades que a língua pode ter. Foi o Criador! Eu apenas constato e uso quando necessário. Voltando ao que interessa, eu sei que vocês chamam a isso aí no vosso nariz uma colónia de pêlos, mas isso não passa de uma espécie de árvore dos patafúrdios e, com um bocadinho de jeito e sorte à mistura, encontramos nesses buraquinhos, que nas pessoas normais servem para respirar, o Sérgio Godinho a escrever textos e letras para músicas. Enfim, mas isso é a vossa higiene e eu nisso não me queria meter. Posso comentar mas não passa disso. Só acrescentar, para fechar este assunto desagradável, que há cá em casa um corta-relva. Se alguém quiser mudar de vida, pode passar por cá, está na arrecadação. O portão fica no trinco. Ou, como vocês dizem, no trinque. Ah, que humor tão infantil, podias tentar fazer alguma coisa com mais substância. Pois podia, mas ninguém me avisou que a vossa idade mental já era outra... Ah, a colocar em causa a inteligência do auditório! Isso é inaceitável, esta foi a última vez que fizemos estes quilómetros todos para te ouvir! Pois, talvez! Mas enquanto vocês não fizerem boicote aos combustíveis e passarem a andar de bicicleta para todo o lado, ou seja, enquanto vocês continuarem enfiados em filas de trânsito para pagar à Petrobás, à Galp e à Repsol, eu não mudo a minha atitude. Eu até ando desconfiado que o Sócrates e o Passos Coelho têm acções na Ewing Oil de Dallas, e que o quarto do Hilton que vocês agoram pagam por cada depósito de combustível já vem a ser "arranjado" desde o início dos anos oitenta entre eles e o JR. E hoje não digo mais nada, que já estou enervado. Se quiserem aparecer, apareçam, senão, olha, paciência! Eu cá me arranjo sozinho.  

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Heróis do mar, nobre povo...

E esses cabelinhos verdes, que parecem alfaces a reluzir no quintal da avó? Já se lavavam com lixívia e esfregavam as tatuagens com sabão rosa, a ver se ao menos conseguem tirar o grosso. Depois, com o tempo, o resto lá acaba por sair. Nunca se sabe quando terão de ir a um casting do hospital de Braga, e já se sabe que para se ser o próximo funcionário hospitalar de Portugal a imagem conta muito. (Pausa significativa) Desculpem, estou com as meias de vidro da minha mulher e descobri um foguete nas coxas que quase que me violava, o taradinho. É o que dá usar meias de vidro, parece que vos ouço vagir. O problema não são as meias de vidro em si (isso seria uma questão meramente filosófica), mas as meias de vidro sem fazer a depilação... Enfim, ainda me estou a habituar... Pois é, hoje é 25 de Abril à paisana. Ele anda por aí, mas não se vê. Não encontro o 25 de Abril no 25 de Abril. Vou dizer outra vez a ver se isto faz sentido: não encontro o 25 de Abril no dia 25 de Abril. (Pausa) É de ganhar bolas de pelo nas axilas, simplesmente, arrepiante. Não encontras o de 74 no de 2012? Ou não encontras o de 2012 no de 2012? Para encontrares o 25 de Abril de 2012 pões-te no 24 e vais sempre em frente, não tem nada que enganar. Para o de 74 é que é mais difícil. Ainda há umas voltas jeitosas a dar para lá chegar... Ena, ena, tão entendidos que vocês estão em termos de dias do ano! É caso para vos chamar especialistas para matérias de dias históricos que passaram à história. E com aquela história do regulamento, que deve ter sido ditado pela Assunção Cristas (é o mesmo protocolo para vestuário), é normal que o 25 de Abril se acanhe e não saia à rua. Digo eu. Pode ser que apareça amanhã. Hoje o dia também não ajuda muito, está a chover e isso dá pouca liberdade de movimentos às pessoas. E dizem vocês, sempre presentes quando vos cheira a demagogia fácil e a polémica barata: ah, e a associação 25 de Abril que não compareceu às cerimónias da Assembleia da República nem se associou de nenhuma outra forma às comemorações deste ano do 25 de Abril? Então, isso é porque a associação já se tinha comprometido comigo aqui há coisa de uns meses a passar o feriado cá em casa. E esta malta de Abril é uma malta muito comprometida, já se sabe. Já tinham coisas marcadas comigo e quiseram respeitar isso. Aliás, no preciso momento em que escrevo tenho o Vasco Lourenço sentado no meu joelho direito a ditar-me esta crónica desde o início e o resto da malta está lá fora a assar bifanas e a beber caipirinhas. Está tudo muito animado, o Mário também veio, está ali na arrecadação há duas horas a tentar montar num cágado que tenho lá num aquário. O Alegre, que não pode ver o Mário em lado nenhum que aparece logo, está a cantar a trova do vento que passa e a dizer, sem ninguém lhe perguntar nada, que a humidade do hemiciclo dá cabo dos cravos todos. Agora tenho de ir, que o Vasco quer atirar fogo de artifício da varanda. Que um dia sem disparar na vida de um revolucionário, não é dia...

terça-feira, 24 de abril de 2012

Gente coisa - Parte 2

Eu sei que a segunda parte deste texto parece o nome de um vídeo do youtube, mas já não há nada a fazer. Agora é levantar a cabeça e olhar para a frente, que tristezas não pagam dívidas. Pois é, o dia está cheio de corrente de ar com aquela história do hospital de Braga querer purificar o ambiente que se vive no... hospital. É verdade que o ambiente nos hospitais deve ser asséptico, mas nao valia a pena exagerar... Os homens devem usar, segundo o novo regulamento daquela unidade hospitalar, "sapatos clássicos pretos ou azuis-escuros, cinto azul-escuro ou preto (a condizer com os sapatos) e meias azuis-escuras lisas ou pretas lisas". Só falta dizer que têm de ser vestidos pela Throttleman e penteados na barbearia central. "A condizer com os sapatos"?, está tudo doido ou o legislador disto tem um par de costelas norte-coreanas?  Ou é de mim ou quem determina que os trabalhadores do sexo feminino só podem "usar salto até quatro centímetros" tem como sonho criar as coreografias para paradas oficiais na China? Então e se um trabalhador do sexo masculino quiser usar salto até quatro centímetros, como é que é? (Pausa) O que se segue? Carmelitas dos pés descalços na unidade de cuidados intensivos e padres franciscanos com tigelinhas na cabeça em cirurgia? Para onde é que isto caminha? Para um hospital cujo lema seja: "um hospital, uma só orientação sexual!" Daqui a nada proibem séries como a "Grey's anatomy" ou "ER" porque podem dar ideias aos profissionais de saúde... (Pausa) Ideias más... Uuuu! (Pausa) Mas há mais: as meias de vidro das senhoras "devem ser da cor da pele (nem muito claras, nem muito escuras), lisas, sem redes ou fantasias". Foda-se! (Desculpem lá, mas este palavrão era suposto vir com estigmónimos. Onde é que se meteram os sacaninhas?! Está-lhes a dar forte como às vírgulas.) A minha vida! "Sem fantasias"?! Umas meias sem fantasias não são meias... Uma enfermeira sem fantasias não é enfermeira... Doentes sem fantasias com enfermeiras ou sem enfermeiras nas fantasias não merecem o nome de doentes! Eu fico doente só para estar à beira de uma enfermeira com meias de vidro de cor berrante e fantasias! Párem de acabar com tudo aquilo que nos faz levantar de manhã e parar na urgência hospitalar mais próxima para mudar a penso ou dar um jeito na algália! Eu faço isso todos os dias antes de ir para o trabalho, senão o dia parece que não me corre! (Pausa) Daqui a pouco, quem trabalhar na secção de Raio X não pode ter pensamentos impuros... que nada escapa à imagiologia. Agora eu vou andando, que estou de plantão esta noite (mete o estetoscópio no pescoço). Até à próxima. (Volta-se para trás) Ah, é verdade, se isto fosse o hospital de Braga, vocês tinham ficado à porta. Seus taradões... Vão-se mas é pentear! É só foguetes nas meias, suas desleixadas!

Gente coisa

Não sei se já vos disse, mas tenho um orgulho enorme no meu rim esquerdo, porque produz um chichi de óptima qualidade que muitas alegrias me tem dado. Acho que toda a gente tem um rim de que gosta mais do que outro. É normal. Para mim, o esquerdo é um rim especial, desde pequenino, e afeiçoei-me logo no primeiro contacto, porque, até onde me leva a memória, lembro-me de estrear a minha esguichadela de longo alcance no rosto de uma mulher a dias indiana, a Bia, que apesar da sensualidade do nome, carregava duas arrobas de peso a mais. Eu sei que não é politicamente correcto dizer que se gosta mais de um rim do que de outro. O importante é que venham com saúde, eu sei. Mas não posso fazer nada, é mais forte do que eu. Aliás, acho que há muita hipocrisia no que respeita a este assunto: toda a gente gosta mais de um rim do que do outro, não quer é admiti-lo... Também tenho muito orgulho no meu filho mais velho, que é alto e tem os joelhos bonitos. O mais novo é feio, baixo e tem joelhos desarranjados. Se tivesse que dar um para adopção, dava o mais novo. Ah, e vocês chocados com isto e cheios de profunda indignação: e por que razão não aprecias tanto o teu rim direito? É uma pergunta e uma parvoice ao mesmo tempo... Eu no que toca aos rins sou canhoto! Habituei-me a fazer tudo com o rim esquerdo, e agora não uso o direito para nada. É como se fosse manco renal. Vou à casa de banho e uso o rim esquerdo, vou ao médico e só me queixo do rim esquerdo, vou às compras e só uso o rim esquerdo. Até me esqueço que o direito está mesmo ali, à mão. Ah, parece que vos ouço a fazer parapente do tejadilho de um carro abaixo como quem deixa cair uma questão: tanta gente a precisar de um rinzito, bem que podias dar o direito, já que és canhoto de rins... E uma pessoa só com um rim vive bem, eu sei, eu sei... Eu até podia, tenho é medo que o rim esquerdo se parta. Se se partir, tenho de lhe pôr gesso e usar o outro. Sim, mas pôr gesso no rim está fora de questão, pois não é tecnicamente possível, parece que vos ouço declamar em Manuel Alegre. Se for esse o caso, e ainda tenho de confirmar, ponho-lhe uma banda elástica e fica em repouso o tempo que for necessário. Rim é rim. Por falar em rins, não é que o pessoal do hospital de Braga não vai poder usar piercings, tatuagens, vestuário coiso e penteados extravagantes?! Isso significa que a lady Gaga está fora de questão em enfermeira? Que Marilyn Manson na pediatria nem pensar? Num casting para o hospital de Braga, passavam o André Sardet e a Susana Félix e pouco mais... Que pena... Braga respira de alívio por se ter livrado de gente demoníaca... O que se segue? Recusar doentes com lepra, porque têm mau aspecto? Até fico piurso...
PS. Se a Maria José Valério e a Wanda Stuart se aleijarem em Braga vão fazer o curativo aonde?
PS.2. Neste blogue só trabalha gente de jeito. Não há cá coisos!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Já vou filha

Primeira tentativa para apresentação audio das crónicas publicadas neste blogue. Estão escritas para ser ditas.

Está a andar de bicicleta

Hoje é aquele dia que incuba o resto da semana? (Espanto) Ena, caramba, incubar a chover é muito perigoso porque o piso está escorregadio e um gajo ainda passa a estatísticas de verão da guarda nacional republicana. Mas vocês é que sabem, uma pessoa avisa porque é cristã e acredita que temos de ser uns para os outros, mas mais do que isto não posso fazer. Uma dúvida: o que é que se faz às pessoas que morrem e são (eram) nossas amigas no facebook? Mandem as respostas aqui para o e-mail do programa ou façam um bike na nossa página do facebook. Por falar em dias, o que são os dias?! Postas deprimentes mal passadas em cima de postas deprimentes mal passadas. Só há uma forma de isto não ser assim: colorir livros de colorir. Agora digam a última frase cinco vezes. (Esperar uns segundos) Agora digam lá que não estão prontos para a junta médica psiquiátrica?! (Pausa) Não falha: acabamos a trocar os erres pelos eles e a falar como o Badaró. Há ainda uma forma alternativa de dar alguma cor à vossa triste existência: imaginar com muita força que o leitãozinho que alapa no sofá todas as noites e reage nervosamente às palavras "querido" ou "godinho" vai deixar de cantar como um desalmado "os maridos das outras", porque ter pena de nós próprios tem um limite e chama-se ser professor. Se o vosso leitãozinho for professor, nesse caso, assem-no e sirvam-no acompanhado de vinho frisante. Por falar nisso, o alto comissário para os refugiados da ONU, António Guterres convidou Angelina Jolie para visitar um campo de refugiados no Equador. Enviar a Angelina Jolie para um campo de refugiados não me parece mal, sobretudo, se nos colocarmos na perspectiva de um refugiado. Que mais poderá querer um refugiado, pergunto-me eu?! Ostras? O António Guterres sempre nos habituou aos princípios humanistas da esquerda socialista. Consta que Angelina chegou ao campo ao som de vangelis e que os efeitos especiais ficaram a cargo da JS (em maísculas, que assim eles sentem que já são crescidos). Enfim, pela minha parte estou refugiado no Marriott, aos campos elísios, não tem nada que enganar. O avião faz um bocadinho de pó ao aterrar, mas quanto ao resto é só mordomias.

domingo, 22 de abril de 2012

Do risível próximo

Cada vez que o mundo acaba escondo-me debaixo da cama e falo como o Scooby-Doo. Ultimamente, o mundo tem acabado praticamente todos os dias. (Pausa. Silêncio prolongado para sublinhar que o mundo não pode "acabar todos os dias") O que me vale é que sempre que o mundo acaba eu sou dinamarquês. E na Dinamarca o mundo está para durar, porque a capital é Copenhaga. (Pausa. O silêncio serve para que se perceba que não há qualquer tipo de lógica no juizo "porque a capital é Copenhaga") E isso é bom. (Pausa igual às anteriores) Percebe-se muito que esta crónica é sobre a crise? Então não é! É sobre coisas mais concretas, mais palpáveis. É sobre metafísica. (Pausa. Dar tempo ao público para que se recomponha) Para o meu filho, há coisas que existem e coisas que existem mesmo. A nuance é subtil mas ele é claro relativamente à sua existência. A nuance existe, a nuance entre as coisas que existem e as que existem mesmo. Num dos próximos posts lançarei às feras o "perito em nuances", alguém cuja função é detectar diferenças subtis. Começou no "descubra as 8 diferenças" da secção de passatempos dos jornais e revistas e atinge agora o auge neste espaço de carácter humorístico. Voltando ao tema com um exemplo: os heróis dos desenhos animados existem, mas as pessoas como eu ou a mãe existimos mesmo. Ele pode pronunciar-se sobre as coisas que existem, mas as que existem mesmo podem igualmente pronunciar-se sobre ele. É ele que vê as coisas que existem. São as coisas que existem mesmo que o veem a ele. Ele é o autor de toda a metafísica que existe na sua vida. (Pausa. Serve para que se perceba que o comediante perdeu a comédia e não sabe onde vai. O comediante começou a falar a sério e perdeu-se. Serve também para demonstrar que nada percebe de metafísica) Vem isto a propósito do José Castelo-Branco. (A introdução do elemento desconstrutor do texto é essencial em comédia. Como é que eu sei isso? É uma daquelas verdades reveladas... Ou ciência infusa!) Porquê? (Pausa) Eu não queria ter de responder assim, mas vocês não me deixam alternativa: porque sim! Mas isso é extremamente infantil, parece que vos ouço urdir teias de maledicência. Não é possível introduzir o José Castelo Branco sem uma lógica de continuidade no texto, sem que isso faça sentido. Isso é mais um exemplo de comédia gratuita, esvaziada de conteúdo. (Pausa) É pá, vocês não se calam. Só respondo porque vocês me aturam à meses e fazem amor comigo nos vossos sonhos. (Recorrer a Seinfeld resulta sempre) Quando é que aprendo o há do verbo haver? É pá, parem lá um bocadinho e deixem-me responder à vossa pergunta, que apesar de impertinente, tem quês de sanha bem doseada: e desde quando é que o José Castelo Branco faz sentido? Se fosse um texto, o conde não acertava uma única vírgula, apesar destas sacaninhas, como sabemos, serem do mais taiçoeiro que há. Ah, mas se falas no conde, é porque não tens tema. O conde já não é tema. Este teu texto, desde o início, é sobre nada. E não se faz comédia a partir de nada! Pega-se nos jornais, escolhe-se o que mais se ajeita para se fazer piadas sobre e começa-se a escrever! Sobre nada não há piada possível. E já chega de pegar sempre nos mesmos: José Castelo Branco, Cavaco, Gaspar e o governo, o Álvaro, a Cristina e o Manel, a Júlia e o professor José Hermano Saraiva. Têm razão, não há pachorra sempre para a mesma coisa. Afinal, quantas maneiras há de fazer batatas fritas? (O primo direito sarcasmo, sempre à mão) A culpa também é deste país que nos serve sempre a mesma coisa. Já pensei ir para França, onde a comédia está muito mais desenvolvida. Mas não domino os acentos em francês. Agora, isso não pode ser desculpa para não pegar noutros personagens risíveis como Ségolène Royal, Frederic Miterrand ou victoria Silvstedt. (A ironia, a prima em segundo grau com que se perde a virgindade numas férias em Trás-os-montes) Mas bom, aí já é preciso fazer mais atençom.
PSrés-do-chão. Esqueci-me de avisar no início que este texto não tem piada (comiseração).
PS1. E que os outros todos também não (comiseração à fond lá gamelle).
PS2. Ganda consola! 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O relatório

Cenário e enquadramento: o gabinete do director.

Director – O senhor professor não entregou o relatório da actividade (pausa, olha para o monitor do computador, procura o texto com o rato): colóquio subordinado ao tema, “A espiga, estudos para uma semiótica do milho transgénico e as suas consequências para a música «a desfolhada», de Simone de Oliveira”.
Professor Peço imensa desculpa, é que tenho tido imenso trabalho. Depois desse colóquio, já organizei um workshop, um ateliê de pintura ao vivo e um vernissage literário.
Director – Pois, mas é que sem relatórios… não há actividades…
Professor – Mas há… Houve… actividades!
Director – Houve?
Professor – Mas como? O senhor director esteve lá… Esteve no colóquio, no workshop, no ateliê…
Director – Estive? Onde é que isso está escrito? Se ao menos tivesse o relatório…
Professor – (Indignado) Mas o que é mais importante? As actividades ou os relatórios? Já não percebo nada!
Director – Enquanto o senhor Professor não fizer um relatório não poderá saber o que é mais importante… Se é a actividade, se é o relatório da actividade… Experimente fazer um, vai ver que não quer outra coisa…
Professor – Mas…
Director – Aqui entre nós: só hoje já fiz três… (pausa. Assume uma postura rígida e um olhar vidrado) E pedi que me entregassem dez! (em arrebatamento)
Professor – Mas relatórios de quê?
Director – De actividades! (Vidrado!)
Professor – Mas quais actividades?
Director – As que estão nos relatórios! (Babando!)
Professor – Mas isso são actividades “fantasma”!
(Momento nonsense do Sketch: entra no gabinete um fantasma. O fantasma faz: “Huuuu”. A réplica habitual dos fantasmas, a saber, uma pessoa debaixo de um lençol branco com duas aberturas no lugar dos olhos. O professor, de costas para a porta, volta-se para trás e diz:)
– Voilá!
(Pausa, momento em que se espera que a plateia ria, aturdida. Fim das gargalhadas… Não, afinal ainda há uma senhora que ri histericamente. Ok, agora sim, já parou! Há um membro da equipa de produção do programa, que está incumbido de permanecer entre o público convidado durante a gravação dos sketches, e cuja função é abater à paulada na corneta os espectadores menos contidos. Aí vai a senhora, em braços, para a enfermaria…)
Director – (Levanta-se e dirige-se ameaçadoramente para o fantasma, que abre gabinete afora. Recompondo-se, sentando-se, retomando o fôlego) Para seu governo, ainda ontem acabei um relatório sobre a sua última aula assistida!
Professor – Mas qual aula assistida?! O Senhor director ainda não assistiu a nenhuma aula minha… Sempre que tento agendar, o senhor director está ocupado…
Director – A fazer relatórios! A fazer relatórios! (Pausa. Parece refectir) A trabalhar! A trabalhar!
Professor – Mas… posso ver esse bendito o relatório? … (Recebe o documento, empertiga-se) Mas aqui diz que eu faltei à minha aula assistida…
Director – Pois foi… É gravíssimo! Está aí tudo! Esteve lá? Não esteve! (Regista apontamentos num bloco de notas)

O vosso trombone não me é estranho...

Onde é que está o presidente? Desculpem começar assim, sem introdução, mas há coisas que não vão lá com paninhos quentes! Eu sou uma pessoa séria, honesta. Quando decidi ter filhos, por exemplo, foi pelo método tradicional. Foi a minha mulher que os teve... (Pausa) Nem toda a gente pode dizer o mesmo. Foi-se o abono dos miúdos, o subsídio de férias e de Natal, aumentou o escalão de IRS, criaram uma taxa de IMI suplementar para os portugueses que vão trabalhar para Andorra, criaram um novo imposto alimentar que vai ser pago duas vezes: pelos grossistas do sector ao Estado e pelo consumidor aos grossistas. Que estes são grossos, por alguma coisa é! Paga-se taxas para ver televisão, de ocupação do subsolo (- De quê?!), iva a 23 porcento, a dúzia d'ovos está pela hora da morte. Cuidado que a gente enerva-se e a malta em Espanha ainda se manifesta! Para já andamos calmos, mas cuidado, que a gente chateia-se e a malta na Grécia barrica-se em sítios e queima coisas! E o presidente? Há um muito bom feito pelo Manuel Marques... Não sei se conta?!... Estou a ser injusto?! Então porquê?!  Ah, porque ele ainda a semana passada se pronunciou sobre a Guiné, inaugurou umas coisas e recebeu o presidente da Áustria (- Quem?!)! Dizem vocês: ao menos o nosso presidente não vai caçar elefantes para África! Sim, mas vai caçar reformas para Belém. E vocês: ah, mas Belém é uma zona rica e ninguém vai dar conta, mais reforma, menos reforma... Pronto, está bem, eu aguento-me mais um bocado. Deixo o presidente para a semana! Até lá, pode ser que me dê um enfarte na traqueia e ele se safe! (Pausa) Qual é a grande questão do momento para vocês, então? (Pausa) Onde é que está esta a semana a actuar a irmã da Luciana Abreu, que participou no casting dos Ídolos de domingo passado e foi só mimo?! Pois, realmente, não tinha pensado nisso! E é pertinente. Vocês estão atentos. Esperem só aí um bocadinho enquanto eu ouço com atenção a letra da Salve Rainha na Renascença. Desculpem, já está, tinha uma dúvida no refrão. Têm outra questão pertinente? Ok, chutem com força a ver se dão cabo de mim ou partem um vidro cá de casa! Quantos anões-bebé havia debaixo do vestido vermelho da Cristina Ferreira, na última gala do "A tua cara não me é estranha", a fazerem-lhe coisas? É que a maneira como ela ria a gritar ao mesmo tempo que, como é que se diz em linguagem televisiva, guinchava como se apresentasse não é para qualquer um(a)... Caramba, vocês não são meigos! Não sei o que é que as pessoas com nanismo vos fizeram para vocês agora virem com isto?! Isso é aquilo a que se chama humor gratuito. Das duas, huma: ou sois humoristas frustrados e trabalhais em limpezas para ganhar a vida, mas o vosso sonho é serdes cunhadas do Yannick Djaló; ou sois policiais (brasileiros). Á coizas k ñ s perssevem! Desculpem o purtuguês, é que falasse em Djaló e comesso logu a ter relações com a límgua purtugueza. Ah, é verdade, hoje pode-se comer carne? Pode? Ainda bem, senão de hoje já não passava.

PS. Então não é que Portugal aparece como o quinto país que menos confiança tem no seu executivo governamental. Isto, segundo um estudo europeu que deixa no ar uma questão que é uma perplexidade ao mesmo tempo: como raio de carga de água ainda há quatro países mais desconfiados dos respectivos governos que nós? Somos um povo muito crente, sem dúvida nenhuma.

PS1. E sexo esta noite, pode ser?

PS2. A pergunta não era para vocês...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Troika

Cenário e enquadramento: uma família recolhida ao lar, doce lar. O pai lê o jornal, sentado no sofá. A criança, em idade escolar, brinca no tapete. A mãe, na cozinha, prepara o jantar. Toca uma música tipicamente portuguesa, por exemplo, fado. Pode ser Marisa... Ok, ou pode ser mesmo fado. Subitamente, alguém toca à campainha. O pai ergue preguiçosamente os olhos do jornal e rapidamente os devolve à leitura, ciente de que alguém irá atender. Vai a criança, que abre a porta e se depara com três homens. Engravatados e com bom aspecto, têm um ar distinto. Os homens estão lado a lado, mas um dá um passo à frente, baixa-se à altura da criança, pousando um dos joelhos no chão, e pergunta:

 
Homem - O papá e a mamã estão? O miúdo acena afirmativamente a cabeça e vai à sala anunciar ao pai que estão senhores à porta.
Criança - Pai, estão uns homens à entrada. Querem falar contigo ou com a mãe. O pai fica lívido, assustado. A mãe assoma à porta que separa a cozinha da sala e olha o marido. Ouviu tudo e parece preocupada enquanto limpa as mãos num pano.
Mãe - Como é que eles são, filho? Que aspecto têm?
Criança - Calma, têm bom aspecto. Parecem boas pessoas.
Pai - Bom aspecto, como?
Criança - Então, estão de fato e gravata e têm um ar importante.
Mãe - (Virando-se para a marido) Calma, pode ser que sejam só dos seguros, ou assim.
Pai - Ou testemunhas de Jeová...
Mãe - Não, isso não que eles vêm aos casais... heterossexuais...
Pai - Pois, tens razão. (Virando-se para o filho, que entretanto voltara às suas brincadeiras no tapete) Filho, quantos senhores eram à porta?
Criança - Três, pai.
Pai - (Zangado) Filho, eu não tinha já avisado que não queria que abrisses a porta a estranhos, sobretudo, se fossem três?... Vai lá e diz que o papá não está e que a mamã não pode atender. A criança dirige-se à porta.


(No ecrã aparece a seguinte legenda: "Mais tarde nesse dia")
 

A câmara foca a mesma cena familiar. Ouve-se o som da campainha. A criança vai abrir, olha pelo buraquinho da porta e vê dois homens. Grita para o pai:
Criança - Pai, estão D-O-I-S homens à porta. Posso abrir?
Pai - Claro filho, abre! Diz que o pai já vai. A criança regressa à sala e o pai dirige-se à porta. Dois homens ladeiam-se e olham amistosamente. Subitamente, afastam-se ligeiramente um do outro e de trás deles surge um terceiro homem, que educadamente diz:
Terceiro homem - Guten Abend, Herr Silva. Guten Abend!


(Fim do Sketch)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Assalto por esticão

Jornalista - Boa noite, o meu nome é Esperança Santiago e sou jornalista sensacionalista. Na verdade, gosto mais de olhar para o meu trabalho como jornalismo de sensações, de emoções, um jornalismo para as pessoas, pois parece-me que ilustra melhor aquilo que faço. Hoje vamos abordar o terrível fenómeno das dúvidas que assaltam, nomeadamente, que assaltam pessoas. Para isso temos como convidado Valdemiro Leónidas, vamos chamar-lhe assim, em primeiro lugar, para preservar o seu anonimato; em segundo, porque é o seu nome. Diga-nos Valdemiro, a sociedade em que vivemos hoje continua a estigmatizar de forma cruel as vítimas de dúvidas?

Valdemiro Leónidas - (Voz distorcida) Sem dúvida alguma, Esperança. É uma sociedade muito preconceituosa, sobretudo, em relação às pessoas que são vítimas deste tipo de ataque bárbaro e cobarde.

Jornalista - Para que as pessoas lá em casa percebam a verdadeira dimensão do que estamos a falar, pode contar-nos como tudo começou?

Valdemiro Leónidas - Começou tudo de uma forma muito ligeira. A primeira vez que fui assaltado por dúvidas foi por esticão a pé. Eu ia para casa e uma velhinha chegou-se à minha beira (Pausa), puxou-me o braço com alguma veemência, não disse nada e, consoante apareceu, desapareceu.

Jornalista - (Ar compungido) E depois?

Valdemiro Leónidas - Depois fiquei cheio de dúvidas. O que é que a velhota queria? Porque é que se aproximou de mim? Um gajo fica maluco, claro!

Jornalista - (Acena afirmativamente a cabeça em sinal de compaixão) O que é que passa pela cabeça de uma pessoa numa altura como essa?, deve ser a pergunta que está a fazer a grande maioria das pessoas lá em casa...

Valdemiro Leónidas - (Faz um compasso de espera antes de responder, para segurar a forte emoção) Passa tudo, Esperança! Passa tudo! Sim, inclusivamente, que aquela mulher poderia querer... (não acaba a frase, sucumbe à emoção)

Jornalista - (Estende-lhe um lenço de papel, pede à realização um copo de água, que um assistente traz de forma diligente) Compreendo, compreendo (Aguarda que o outro beba a água e se recomponha...). Quando estiver preparado, continuaremos esta entrevista. (Virando-se para a câmara) O relato de Valdemiro é um documento impressionante que, estou certa, poderá ajudar outras pessoas, nas mesmas circunstâncias do Valdemiro, a denunciarem as situações em que foram vítimas do mesmo tipo de abusos. (Olha o outro que lhe faz sinal de estar recomposto) Depois desta primeira situação que nos acaba de relatar, o que se passou a seguir?

Valdemiro Leónidas - Bom, depois fui assaltado por esticão de mota. Um indivíduo deslocava-se num velocípede a motor, no mesmo sentido que eu, e no momento exacto em que passou por mim esticou o braço e saudou-me como se me conhecesse.

Jornalista - Realmente...

Valdemiro Leónidas - Ainda hoje estou para saber se conhecia o homem ou não! Mas com o capacete a dúvida instala-se para sempre... Foi como se tivesse sido molestado por um bando de pinguins...

Jornalista - De pinguins?! Mas porquê pinguins?!

Valdemiro Leónidas - Eh pá, não sei explicar o porquê!... É daquelas coisas que só uma pessoa que passa por elas é que sabe! Só a quem as dúvidas já assaltaram por esticão de mota é que poderá compreender o que eu senti naqueles segundos que pareceram uma eternidade... (Abana afirmativamente a cabeça como quem diz "ah pois é!")


Jornalista - Foi então que a coisa começou a piorar?...

Valdemiro Leónidas - Foi, infelizmente foi... Um dia ao tentar entrar no carro levei um esticão no puxador da porta à conta da electricidade estática.


Jornalista - Então e depois?...

Valdemiro Leónidas - Depois fiquei na dúvida: entro?, não entro?, entro?, não entro? Nem me quero lembrar...


Jornalista - Até que um dia...

Valdemiro Leónidas - Pois, até que um dia fui assaltado por dúvidas que não lembra nem ao diabo uma coisa destas! Estava eu em casa, descansadinho, a tirar crostas do nariz, que neste tempo, à conta das alergias tem sido uma coisa por demais, quando os meus filhos se aproximam à traição e me fuzilam com jactos de pistolas de água. Aí eu disse para mim próprio: isto está a assumir contornos de uma extrema violência! Tenho de fazer qualquer coisa! E daí eu estar aqui hoje!


Jornalista - E depois?...

Valdemiro Leónidas - Depois riram-se! Esta miudagem tem brincadeiras cada vez mais agressivas! E claro, eu fiquei com a cabeça cheias de dúvidas. Que futuros adultos estamos a formar? Que amanhã estamos a construir?


Jornalista - (Virando-se para a câmara) Foi um testemunho na 1.ª pessoa, um grande exemplo de coragem que tivemos aqui hoje. Obrigada por ter estado desse lado, foi um prazer estar consigo.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O último a sair que feche a porta (Cenas II e III)

Cenário e enquadramento: o mesmo da cena anterior (ver último post). O set está vazio e ouve-se o sopro do vento, como no deserto. A cena está centrada na porta com a inscrição "Portugal", no som que o vento produz e nas notas da banda sonora de Enio Morricone no filme "O bom, o mau e o vilão".

Cena II

(Chega uma família tipicamente portuguesa. O marido caminha à frente e traz um rapaz de dois três anos ao colo. A mulher, atrás, empurra um carrinho de bebé e segura, também ela, um outro ao colo. Há um velho sentado, encostado contra a parede, arranhando Morricone na harmónica. Bate à porta. Aguarda resposta, enquanto vai olhando para o velho como se encomendasse uma explicação. A mulher olha o marido de forma impaciente, embora sem lhe dirigir a palavra. Embala para cima e para baixo o bebé que está no colo, ao mesmo tempo que empurra o carrinho para a frente e para trás. Está vento, o velho olha a cena sem parar de soprar na gaita de beiços. Está sujo e vê-se que sabe o desfecho daquilo.)

Homem - (Voltando a bater à porta, desta feita, de punho cerrado e de forma bem mais veemente) Está aí alguém? (A resposta é o silêncio.) É a terceira vez esta semana que cá vimos e nunca está cá ninguém! (Olha para o velho. Este devolve o olhar sem, contudo, manifestar qualquer outro tipo de reacção que não continuar a tocar. O homem encolhe os ombros e volta pelo mesmo caminho por onde veio. A mulher segue-o.)

Cena III

(Do lado de dentro encontram-se Vítor Gaspar e Pedro Passos Coelho, com os ouvidos encostados à porta. Regressaram ao país e fecharam-se lá dentro. Não deixam entrar ninguém. Fazem "chiu" com o dedo indicador encostado aos lábios. Riem-se como dois garotos que jogam ao esconde-esconde).


sábado, 14 de abril de 2012

O último a sair que feche a porta!

Ando com vários sketches na cabeça. Há pessoas que usam chapéu, eu uso isso. No primeiro, a coisa anda assim (o texto está escrito para ser apresentado ao vivo, mas pode ser feito em televisão sem necessidade de grandes modificações):

Cenário e enquadramento: O palco tem uma divisória paralela com uma porta a meio. Na cena, dois actores de comédia fazem, respectivamente, de ministro das finanças e primeiro-ministro. O sketch foi construído a pensar nos bonecos dos actores Manuel Marques (Vítor Gaspar) e Joaquim Monchique (Pedro Passos Coelho), no programa da RTP "Estado de Graça".

Cena I
(Vítor Gaspar e Pedro Passos Coelho atravessam a Porta, que tem a seguinte inscrição numa sinalética: "Portugal")


Pedro Passos Coelho (PPC) - Oh Vitó, ainda ficou aí alguém?
Vítor Gaspar (VG) - Pen-s-o hum qu-e n-ão, P-e-dri-nh-o!
PPC - Oh Vitó, "Pedrinho" não, que eu sou alto, garboso e pratico canto lírico. Já viste bem esta colocação de voz? (Ensaia a palavra "Portugueses") Queres mais? Muito bem: "Portugueses, estou em condições de assegurar-vos..." Enfim, poderia continuar horas nesta toada. (Faz vocalizes)
VG - S-im, t-en-s r-a-zão hum. (Faz um gesto em direcção à porta) F-e-ch-o?
PPC - Tens a certeza que já saiu toda a gente? É que se ficou alguém para trás depois fica preso lá dentro e não há volta a dar!
VG - (Olha para a inscrição na porta que diz "Porugal") M-a-s i-s-to é m-e-s-mo p-a-r-a f-e-ch-ar? T-e-ns hum a c-er-te-za?
PPC - (Coloca um ar grave. Faz dois ou três vocalizes. Apercebe-se que o outro o olha com espanto e que aguarda uma resposta) Bem, eu tentei vendê-lo mas ninguém quis comprar! (Pausa) Tentei dá-lo, mas mesmo assim ninguém o quis... Limpei daqui os autóctones que cheiram um bocadinho mal debaixo dos braços e não fazem depilação completa... (Pausa) Toda a gente sabe que os pêlos guardam os cheiros e se era para vender, ou mesmo para dar, eu tinha que mudar a imagem do país...
VG - F-e-ch-o hum? É q-ue d-e-po-is...
PPC - Confirma senão ficou ninguém lá dentro!
VG - (Tentando falar alto) E-S-TÁ HUM A-Í A-L-G-UÉM? HUM. (Virando-se para o outro) P-a-re-ce qu-e n-ão... (Encolhe os ombros)
PPC - Bem, então fecha. (Quando Gaspar faz o gesto de fechar é interrompido) Mas antes, devo dizer algumas palavras aos portugueses. (Faz vocalizes, dirige-se para o limiar da porta e, de costas para o plateia/câmara, começa a discursar) Endereço-me a vós, neste momento de enorme dificuldade, para vos dizer que tudo fiz para que o desfecho fosse outro que não este.
VG - M-as Pe-d-ro, j-á hum n-ão r-es-ta nin-guém!
PPC - Tens razão. (Faz dois ou três vocalizes. Recomeça, dirigindo-se agora ao país. O som vai baixando à medida que fala, deixando de se ouvir. Mal o discurso acaba, o ministro das finanças fecha a porta devagar, como se falasse...) Portugal, neste momento de enorme pesar para todos [...] Obrigado!
VG - B-em, p-a-ra on-d-e v-a-mos ag-o-hum-ra?
PPC - (Olha em volta) Espanha também já fechou, ao que parece...
VG - Eu gosto muito da Baía de Luanda...
(Fim de cena)


 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Batalha naval!

Dói-me a barriga de um passageiro do Titanic no momento exacto em que percebeu que aquela coisinha fofa de 250m de peso e 100 toneladas de comprimento ia entrar em modo submarino. (Pausa) Hum, parece-me cheirar ao estrugido que estais a fazer para o almoço, ou serão só vocês a pensar que a última frase não faz muito sentido? Tal como vós... (Pausa) Bom, já chega de confusões, que a crónica ainda vai no início e eu só quero que ela afunde lá mais para o fim. (Pausa) Neste momento, estou a escrever num salão imponente e sumptuoso, enquanto bebo chá indiano em porcelana oriental e treino glu glus.  Uma das notícias do dia é que um barco, o MS Balmoral, está refazer a viagem original do Titanic a partir do Porto britânico de Southampton. O objectivo parece ser completar a rota original, até porque havia passageiros com coisas marcadas em Nova Iorque e, com a história do naufrágio, estão um bocadinho atrasados. Para que tudo fosse perfeito, a organização convidou familiares (o termo técnico é mais "descendentes") dos passageiros da viagem original que, ao que consta por aí, levam recados dos seus antepassados que serão entregues aos descendentes dos antepassados destinatários originais. Isto para não perder a viagem! (Pausa) Confusos e arrepiados? Eh pá, estou cá para isso! E é normal que se sintam assim, sobretudo se pensarmos que hoje é sexta-feira 13 e "coisas" podem acontecer, como toda a gente com dois dedos de testa sabe! Entretanto, o momento que se segue é da inteira responsabilidade da Alexandra Lencastre. O Balmoral é uma réplica o mais fiel possível ao transatlântico mandado construir pela "White Star Line", uma companhia inglesa que pertencia a uma holding norte-americana chamada “International Mercantil Marine”. O Titanic começou a ser construído a 31 de Março de 1909 e foi lançado à água em 31 de Maio de 1911 pelas 12 horas. Cada uma das 3 âncoras pesava 15 toneladas. O casco pesava 46 mil toneladas de peso bruto. As duas hélices laterais de 3 pás, mediam 7 metros de diâmetro e pesavam 38 toneladas cada uma. A hélice do meio, de 4 pás, media 5 metros e pesava 22 toneladas. Ok, já sou eu outra vez. (Pausa) Com tanto peso, estavam, à espera de quê? De facilidades na hora de afundar?! Só se fosse! Ou é de mim, ou esta história tem tudo para dar errado?! Ou é de mim, ou os organizadores do evento estão mesmo a pedi-las? Se queriam organizar eventos, organizassem casamentos e baptizados, portos d'honra e vernissages, como as pessoas normais! Enfim, amanhã é dia de naufrágio do Titanic, que conta já com cem primaveras. O Titanic é muito caseirinho e não gosta de sair. Afundou ali, glu, e é ali que ele gosta de estar, glu. Por isso, o Balmoral conta estar lá amanhã, no sítio onde o bisavô mora e, com um bocadinho de azar, ainda vai dar uma beijoca ao antepassado. Haja força de vontade para isso, que com força de vontade tudo se consegue, glu. Pela parte que me toca, vou ter de sair agora. Ando a fazer fisioterapia à laringe ali numa clínica no Restelo e, parecendo que não, morar no quinto do órgão sexual masculino mais velho não ajuda a chegar a horas. Ãh? Porque é que não amputei a laringe, afinal? Porque saía caro e não era uma prioridade! Por falar nisso, amanhã não contem comigo muito cedo, que vou apreçar guelras para a doca de Matosinhos. Nunca se sabe quando é que isto vai tudo ao fundo! Glu!


PS. Por falar em coisas que vão ao fundo, não é que o ex ministro da defesa grego acaba de ser detido por suspeita de ter recebido uns milhões em troca de umas adjudicações de submarinos à empresa alemã Ferrostaal. Onde é que eu já ouvi isto? Ou é de mim, ou esta questão volta a trazer para o centro do debate os efeitos nefastos da radioactividade política para as populações grega e... onde é que eu já ouvi falar disto? Como é que era o nome, ai? A radioactividade lixa um gajo todo!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Vá, animem-se!

Tenho uma borbulha na laringe que me dá uma comichão de doidos e não a consigo coçar. Sinto-a a passarinhar dentro de mim e não me posso aliviar. Alguém tem alguma ideia de como é que se resolve isto? Deixo-vos a pensar sobre isso, que vocês estão desempregados e têm mais tempo, e depois digam qualquer coisa. É verdade, já voltaram a sair de casa? A última vez que vos pus a vista em cima estavam vocês de robe, deitados no sofá, a meter comprimidos pela goela abaixo e a ver, à vez, os programas da tarde da sic e da tvi. Tudo, porque ficaram a dever a tv cabo e o técnico foi aí ao prédio do subúrbio onde vocês moram de alicate e cortou o cabo. Como se não bastasse, o cão do vizinho fez cócó no vosso tapete da entrada e o cão dele também. Como as janelas da casa onde vocês moram não têm vidro duplo, nem estão devidamente calafetadas, porque são vossas e o empreiteiro sabia que eram vocês que iam morar para aí, e queria lixar-vos apesar de não vos conhecer de lado nenhum, porque o lado do mundo onde vocês moram tem humidades nas paredes e o céu é feito de estuque e está a cair, por tudo isso, vocês acabam de meter mais um comprimidinho de valium a fazer estalinhos na língua, seca e cheia de manchas brancas e feridas dos lados. Neste momento, estais a frente da televisão a chorar por causa daquela senhora que, face a face com a Fátima Lopes, conta como enfrentou um cancro, e venceu, como foi burlada por uns senhores bem apresentados que se faziam passar por fiscais do saneamento e lhe cobraram indevidamente taxas no valor de milhares de euros, economias de uma vida, como a empresa onde ela trabalhava fechou de um dia para o outro, com meses de salário em atraso, como o filho do meio se meteu na droga e lhe limpou todos os electrodomésticos da cozinha e como, a partir daí, passou a fazer o caldo na lareira, que não chupa bem o fumo e, por causa disso, está com manchas no pulmões. Tudo isto na mesma vida! Já agora que que estamos a falar, já acabaram aquele curso de línguas do centro de emprego? Já sabem dizer "crise" e "despedimentos em massa" e "preço dos combustíveis" em várias línguas? Só estão à espera do diploma? Então está quase, parabéns. Como? Só vêem uma solução... Amputar a laringe? Pois não sei, não tinha pensado nisso! É que assim cortava-se o mal pela raiz? Pois, talvez, talvez... Vou falar com o meu bate-chapas, que tirou um curso de socorrista na cruz vermelha, a ver se ele faz isso em conta. É que me cheira a despesa, e nesta altura, com a crise que para aí vai! Como? Ai eu afinal também sou pessimista? Que exagero! Vá, não sejam implicativos. Agora tenho de ir. São cinco da tarde e daqui a pouco chega a Lu e eu ainda estou de pijama e roupão. Despeço-me cheio de gota nos ossos e um tumor num rim dos vossos. Pode ser? Vá animem-se e protejam-se da chuva! Raça de tempo que nunca mais vem sol? Vá lá, animem-se. Agarrem-se às coisas boas que a vida tem e afastem os maus pensamentos. Pensem em coisas positivas, naquilo que cada dia vos pode trazer de novo. Pensem, por exemplo, que faltam cinco meses exactos para o décimo primeiro aniversário do onze de setembro. Está cada vez mais crescido! Já lá vão onze anos, onze primaveras. Vá, agora é que é! Tenho mesmo de ir vestir-me e pesquisar ofertas de emprego na net.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Crónica de auto-ajuda

Com que então sempre há umas reservas de água no céu e Deus ainda não deu por terminada a vida no planeta terra? (Pausa) Vocês são extraordinários, pois sois daquele tipo de pessoas (salvo seja!) que achava que nunca mais ia chover outra vez e que a crise é para sempre... Tss, tss! (Pausa) Para vocês que sois uns pessimistas e que tendes a certeza que ireis ser despedidos para a semana, só porque a vossa vida está uma m.... e auferis quinhentos euros (por extenso que assim parece que ganham mais) e a empresa onde vocês trabalham não  tem encomendas e porque o Benfica perdeu o campeonato e porque o Djaló não fez uma vasectomia, só para vocês que sois assim, tenho um exercício para vos propor: pensem nos próximos segundos em alguma coisa positiva! (Pausa) Agora enviem para o e-mail do programa os vossos pensamentos! (Pausa) Não se sentem melhor, só assim? Só assim, com uma coisa tão simples e a custo zero como um pensamento positivo? Um pensamento para a frente? (Pausa) Porque para a frente é que é o caminho?! (Pausa) Olhem só uma coisa, a caixa de endereço electrónico do programa já está cheia de mensagens  dos ouvintes, dos lentes e dos telespectadores, o que é extraordinário, porque o programa não existe, o e-mail também não e vocês tão pouco! Querem maior prova do meu optimismo, que está disposto a morrer por vós, o que neste período de pentecostes pode vir a destempo, mas não deixa de ser bonito?! Enfim, temos uma primeira mensagem que chega da Helena Santos, de Braga, que diz que "a cidade se enfeitou de roxo" e que isso a "enche". É uma mensagem, sem dúvida, de esperança e optimismo. Passo agora a ler um desejo da Filipa Castro, moradora em Mem Martins: "o que eu mais queria não era que o Djaló fizesse uma vasectomia, era que a Luciana laqueasse as trompas. Assim, evitava-se mais versões degradantes do "pai da criança" nas manhãs da Comercial". Esta ouvinte, lente e telespectora termina com uma pergunta: "quem cala esta gente?!". São duas mensagens de esperança e que revelam um optimismo desmedido. Se quereis um conselho de amigo, dizia-vos que não deveis passar assim do oito para o oitenta! Nem só pessimistas nem só optimistas (nem tanto ao mar, nem tanto à terra): de uma só vez laquear a Luciana e o programa da manhã da Comercial é pedir de mais. (Pausa) Penso eu. (Pausa) Uma coisa de cada vez! (Pausa) Cada coisa a seu tempo! (Pausa) Há um tempo para tudo! Por falar nisso, temos tempo para mais uma mensagem, no caso, que chega de Alcácer Quibir. Este nosso ouvinte, lente, telespectador prefere manter o anonimato, assinando com o peculiaríssimo nick name quemesperasemprealcançaumamerdaqualquer: "eu não apareci na última crónica e não era para regressar mesmo, mas uma vez que está toda a gente à minha espera há não sei quanto tempo, e o gajo que escreve estas m..... se lembrou de mim, vou voltar só para ver se a malta anima"! É um final em beleza para esta crónica de auto-ajuda. Um bem-haja a todos e lembrem-se: pensar positivo é o melhor paliativo!
PS. F...-..! Esta m.... resulta mesmo! Já me estou a sentir melhor!

PS2. Pensando melhor, eu já laqueei as trompas e correu bem. Se eu consegui e não tenho trompas, a Luciana consegui-lo-á sem grandes dificuldades. Sobretudo, se recorrer a um médico. Não aconselho a fazer em casa. Conheço o caso de uma pessoa que laqueou coisas que não eram para laquear e, depois, foi o cabo dos trabalhos para sacar um programa da net que deslaqueasse tudo outra vez como deve de ser.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Uma Santa Páscoa

Estou com uma unha encravada na narina direita e hemorragias internas na planta do pé da Kelly, uma rapariga inglesa que conheci no verão de noventa e quatro, em Torremolinos. Fico pior que um urso (isso mesmo, piurso) quando estas coisas me acontecem e cheio de vontade de roçar as costas da minha avó contra a ombreira da porta da sala. Como se fosse uma gata e dormisse em parapeitos. (Pausa) Pedia-vos agora que parassem de erotizar com pessoas de idade, sobretudo, pessoas da minha família. (Pausa) E que já faleceram. (Pausa) Podemos continuar? (Pausa) Ok, eu espero um bocadinho pelo senhor de Alcácer Quibir. (Pausa) Ai não vem? Assim sendo, gostaria de referir que nesta Páscoa o Coelhinho trouxe uma novidade: os subsídios de férias e de Natal só em princípio quem sabe deverão talvez e mesmo assim tendo em conta voltar a ser pagos aos portugueses (é bom concretizar, pois os portugueses poderiam pensar que era aos angolanos, uma vez que o governo passa mais tempo em Luanda do que em Lisboa). Da coelheira saiu ainda uma precisão fantasmagórica: o-pro-gra-ma-de-aus-te-ri-da-de-só-ter-mi-na-em-doi-s-mi-l-e-q-uin-ze-lo-go-os-su-b-sí-di-os-só-se-rão-re-pos-tos-ne-ss-a-l-tu-ra. (Pausa [até para aí dois mil e quinze]) E-p-or-fa-se-s! Ou seja, primeiro que toda a gente volte a receber o subsídio, já o ministro Gaspar acabou a última frase! Enfim, não posso dizer que a Páscoa esteja a correr propriamente bem! Para compor o ramalhete, ontem fui ao Leroy Merlin. (Pausa) Já isto, por si só, compunha, eu sei. Mas, infelizmente, há mais! (Pausa) Fui vestido de verde! Nos primeiros vinte metros tive de aconselhar as melhores bases para duche, a melhor relação preço-consumo energético para seca-toalhas e entre a melamina e o contraplacado marítimo, o que é que eu escolheria para a cozinha de um par de nubentes do mesmo sexo. (Pausa) F...-..! Resolvi sair e dirigi-me ao Ikea mais próximo. Entrei e ainda não consegui sair. Sinto-me o urso (lá está) que inicia um daqueles labirintos para chegar à colmeia das abelhas, na outra margem da página. Neste momento estou na secção de salas de jantar e mel nem cheirá-lo! Ou na secção de passatempos da revista "Cruzada". Já não sei bem. Sei que estou numa sala que não é minha, sentado, a ver numa televisão pessoas a enfiar sacos de papel na cabeça de gatos. Está tudo filmado: gatos andando com dificuldades, titubeantes, procurando livrar-se dos sacos. Deve ser o telejornal e aquilo é Guantanamo e as gargalhadas que ouço devem ser de soldados americanos que praticam as sevícias. Ou então é o gosto disto e as gargalhadas são as da Andreia Rodrigues e do César Mourão.

PS. Um título ronda-me o espírito, mantimentos para Paris. Quando isto acontece, vem tempestade.