sexta-feira, 16 de março de 2012

O financial times das coxinhas de frango

Vivemos num mundo estranho vírgula, em que trabalhamos excessivamente para conseguir coisas das quais não teremos tempo para usufruir vírgula, já que estaremos ocupados a trabalhar mais ainda para as poder pagar ponto. Não, não é parágrafo! (Pausa) Se fosse para mudar de linha eu dizia "parágrafo". Ãh? Esta crónica é um ditado, pensei que alguém vos tivesse avisado... Estão a passar? Como? Não gostam muito de crónicas ditadas? (Pausa) Não querem trabalhar, portanto! Enfim, lá vou ter de fazer isto sozinho mais uma vez. Oh Samantha, foxa aí nas teclas que eles não querem trabalhar. Escreve aí: eu hoje venho sério, parece que vos ouço cochilar. "Cochilar" é um termo que não se aplica no contexto da frase, parece que vos ouço fritar ovos em azeite a 100º... Nem "fritar ovos", parece que vos ouço a obstaculizar em vácuo ponto. É possível vírgula, por uma vez que seja vírgula, que vocês tenham razão reticências... Apesar de eu ter um discurso muito metonímico vírgula, e não apenas medianamente metonímico vírgula, ou vírgula, em português de grilo falante vírgula, um discurso de arroz de grelos acompanhado de gelado de pistacio com molho inglês em rodelas de limão e regado com suco de nêspera ponto. Mais uma vez não alcançaram a metonímia ponto de interrogação? Isso é normal vírgula, na medida em que vocês não existem e vírgula, neste caso vírgula, a metonímia também não ponto parágrafo.
Sam, deixa estar agora que eu escrevo! Estou farto de ditar e tu tens de dar de mamar aos bezerros. Ando a tentar definir-me e cheguei à conclusão de que sou um conservador. Não há nada mais antagónico que um humorista conservador, eu sei. A Samantha Fox é um capricho de homem conservador. Só me lembro do Benny Hill. Quem não percebeu bem a última frase, passe por favor para a seguinte. Que é a anterior a esta. Perdidos na minha tribo em Kuala Lumpur? É perfeitamente normal. Eu próprio também já não sei onde estou. Na Malásia do discurso incoerente e sem sentido, ouço alguém a lamber cornetos. Oh, parem lá com isso, que eu já estou a ficar confuso. Já sei onde estávamos, no conservadorismo. No ensino, por exemplo, uma aula com acetatos é para mim já uma aula com efeitos especiais, sou adepto de discursos longos e pausados, em que se defendam posições tidas por todos como aceites. É desse ponto seguro que parto sempre, como humorista, e é sempre a esse ponto que regresso. Não pretendo mudar nada. Os meus filhos fazem o mesmo com as ondas do mar, quando aquelas levianas desenrolam na areia. Correm para elas e regressam à base in extremis sem se molharem. Eles sabem que não podem nada contra as ondas do mar. O meu quadro familiar é do mais ortodoxo possível: família católica com três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Gosto mais da rapariga do que dos rapazes, e eles estão ao corrente. Agendo tudo com a minha mulher, que é de pele clara e tem cabelos lisos e sedosos. O meu dia começa sempre com a leitura do jornal, no caso, o "Dica", que é o financial times dos humoristas conservadores, especializado no preço/quilo das coxinhas de frango e dos escalopes de peru. Depois de me inteirar dos preços das coisas, beijo os meus filhos, pego na mala e parto para o trabalho, seguro de que todo aquele universo depende de mim e da minha mala vazia.



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