terça-feira, 20 de março de 2012

"A cunha"

(Na rua, a câmara aproxima-se após dois amigos se cruzarem no passeio e pararem para falar um pouco. Quando se abeira deles, falavam desta maneira:)

Homem 1 – Preciso de ir à Alfândega. Comprei uma mota em França e vou legalizá-la…
Homem 2 – Estás cheio de sorte. Conheço lá um tipo… Que sorte a tua, ãh?! (Bate nas costas do outro)
Homem 1 – (Fecha os olhos, sorri levemente, abre os olhos, sorri levemente, fecha os olhos, sorri levemente) Oh, não! Obrigado, mas não é preciso nada! É só pagar o imposto e depois pedir os documentos portugueses para a moto…
Homem 2 – Sim, sim, claro… Mas é sempre melhor, nunca fiando, sabes como são as coisas neste país, implicam com tudo e mais alguma coisa. Basta que lhes dê na veneta.
Homem 1 – Não, a sério, oh Torres, obrigado. Está tudo bem, não é preciso nada. Sabes, não queria entrar em esquemas desses…
Homem 2 – (Indignado) «Esquemas desses»?! Se não queres ir ter com o Antunes e dizer que vais da parte do Torres, é uma coisa! Agora não digas que te estou a meter em “esquemas”. Eu estou é a tentar safar-te de “esquemas”. 
Homem 1 – (Encolhe os ombros, parece resignado)

(Na alfândega, junto a um balcão com dois guichets. Escolhe um dos guichets)

Homem 1 – Eu queria falar com o senhor Antunes…
Funcionário – (Aponta com a cabeça para o guichet do lado)
Homem 1 – (Desloca-se para o outro guichet com dois passos laterais) Senhor Antunes?
Antunes – Faz favor?
Homem 1 – Queria legalizar a minha mota. Estão aqui os documentos todos, os formulários preenchidos que tirei da internet e os 35€ dos emolumentos. No vosso site estava tudo muito bem explicadinho…
Antunes – Sim senhor, deixe-me só ver, hum, hum (ligeira pausa), muito bem, está tudo direitinho. Receberá uma carta nossa para vir levantar os documentos dentro de 15 dias…
Homem 1 – Muito obrigado, Senhor Antunes…
Antunes – Já agora, porque é que pediu para ser atendido por mim?
Homem 1 – É que eu sou amigo do Torres… Foi ele que me disse para falar consigo, que assim era melhor…
Antunes – E é, e é… Ainda bem que me disse isso… Grande Torres! (Afasta-se, fala com uma pessoa, mostra-lhe os papéis… parecem analisar… regressa… Fala com ar de caso…) Bom, agora sim está tudo certo, dentro de 15 dias vai receber uma carta nossa para vir levantar os documentos… Ah, e mande aquele abraço ao Torres (ar cúmplice, palmada no ombro…). Por que é que você não disse logo que era amigo do Torres?!
Homem 1 – (Incrédulo… Encolhe os ombros…)

(Mais tarde, na rua, o homem 1 encontra o Torres…)

Homem 2 (Torres) – Então, como é que correu na alfândega?
Homem 1 – Impecável, a papelada estava toda direitinha, não houve problemas…
Homem 2 (Torres) – Falaste com o Antunes?
Homem 1 – (Anui relutantemente com a cabeça)
Homem 2 (Torres) – Disseste-lhe que ias da parte do “Torres”?
Homem 1 – (Anui relutantemente com a cabeça)
Homem 2 (Torres) – Eu não te disse? Eu não te disse… que era melhor?! Estava claro que era…

segunda-feira, 19 de março de 2012

Dia do pai

Esta noite não sonhei que o meu pai falou comigo através da Janet Parker. Mas podia ter acontecido. Foi arrepiante quando de manhã acordei e pensei: - Que sorte, não sonhei que o meu pai falou comigo através da Janet Parker. Vou, contudo, processar a tvi por abrir lugar a essa possibilidade. Aconselho-vos a fazer o mesmo. Pode acontecer-vos também. Foi duplamente tenebroso porque tive de levar com a possibilidade da voz do meu pai através do rosto horripilante da Janet, para mais, a falar em inglês. Não ouvi um hi son, por pouco, e isso é suficiente. Vou para a justiça! Acredito que muito dificilmente o meu pai falasse comigo através da Janet Parker, pois tinha um inglês impronunciável. Mesmo que o Wall Street Institute abrisse um espaço no além, muito dificilmente o meu pai se safaria melhor que o polícia francês do alô, alô a falar a língua de Kate Moss. A Janet usa laca no cabelo. E isso arrepia-me.Vou processar a tvi por isso também. E que língua... Entretanto, já percebi que não sabiam que há um José Castelo Branco dentro de cada um de nós. Eu sei que isto vos deixou extremamente preocupados, o que é compreensível, porque é como a nossa mãe ter um cancro na próstata do nosso pai. E este ter coisas nos ovários da nossa mãe. E agora, o que é que fazemos? Pois, não sei. Os russos já fecharam tudo o que tinham na Sibéria? Um aperto de mão no porteiro do gulag que há em vós, que eu agora vou ali rezar um bocadinho.

domingo, 18 de março de 2012

O pai da criança

Se o Castelo Branco engravidar numa daquelas cauboiadas em que ele se costuma meter, quem é que assume a paternidade da criança? Deixo ao vosso critério, porque assuntos do outro mundo devem ser resolvidos no além, que é aí onde vocês estão e onde se pode não existir à vontade. A pergunta segue para vocês através da Rita Ferro Rodrigues ou da Iva Domingues, consoante aí se capte melhor a sic ou a tvi. Quem souber a resposta deve comunicá-la via canais do além para os mediuns Brian Robertson, Simon James ou Janet Parker. Se puderem, arranjem-me resposta para uma ainda mais difícil: se o Castelo Branco engravidar, quem é que assume a maternidade da criança? 

Domingo de manhã

Pornografia, interessa? Bem me parecia que vocês comiam a sopa toda! Falemos então de outra coisa. O filmezinho de José Castelo Branco. Parece que já vos ouço a dizer: mas isso é pornografia! Escrevam aí: não sabem dizer nada que não seja por demais evidente? Ah, não sabem! Então, está bem, pois quem dá o que tem a mais não é obrigado. A não ser que haja uma recessão mundial e... sejamos portugueses. Mas isso, são outros quinhentos! Ou como diz a Angela Merkel, "outros quinhentos milhões". E o Castelo Branco?, parece que vos ouço a implodir com úlceras? Estais a chegar da missa, mas adorais forrobodó, é sempre a mesma coisa convosco e com os dez milhões que existem mesmo! Eu sou daquelas pessoas que vomita com facilidade, mesmo quando não tenho nada no estômago. Por isso, abstenho-me de continuar este tema, para vosso bem e da Samantha, que hoje está de lingerie dominical branca e com folhos, que é uma coisa do âmbito do reino de Deus. Prometo contudo, voltar a ele quando Álvaro produzir qualquer coisa neste domínio. O que não deve tardar, pois nos outros domínios ele já tem uma obra considerável: no humor, nas relações interpessoais, na pastelaria... Só lhe falta mesmo fazer qualquer coisa no âmbito da economia, da política e da, lá está, nobre arte na qual o temente conde de Nossa Senhora de Fátima é, vimos já, actor principal. Beijinho no Castelo Branco que há em vós, que hoje tenho de ir mais cedo embora.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O financial times das coxinhas de frango

Vivemos num mundo estranho vírgula, em que trabalhamos excessivamente para conseguir coisas das quais não teremos tempo para usufruir vírgula, já que estaremos ocupados a trabalhar mais ainda para as poder pagar ponto. Não, não é parágrafo! (Pausa) Se fosse para mudar de linha eu dizia "parágrafo". Ãh? Esta crónica é um ditado, pensei que alguém vos tivesse avisado... Estão a passar? Como? Não gostam muito de crónicas ditadas? (Pausa) Não querem trabalhar, portanto! Enfim, lá vou ter de fazer isto sozinho mais uma vez. Oh Samantha, foxa aí nas teclas que eles não querem trabalhar. Escreve aí: eu hoje venho sério, parece que vos ouço cochilar. "Cochilar" é um termo que não se aplica no contexto da frase, parece que vos ouço fritar ovos em azeite a 100º... Nem "fritar ovos", parece que vos ouço a obstaculizar em vácuo ponto. É possível vírgula, por uma vez que seja vírgula, que vocês tenham razão reticências... Apesar de eu ter um discurso muito metonímico vírgula, e não apenas medianamente metonímico vírgula, ou vírgula, em português de grilo falante vírgula, um discurso de arroz de grelos acompanhado de gelado de pistacio com molho inglês em rodelas de limão e regado com suco de nêspera ponto. Mais uma vez não alcançaram a metonímia ponto de interrogação? Isso é normal vírgula, na medida em que vocês não existem e vírgula, neste caso vírgula, a metonímia também não ponto parágrafo.
Sam, deixa estar agora que eu escrevo! Estou farto de ditar e tu tens de dar de mamar aos bezerros. Ando a tentar definir-me e cheguei à conclusão de que sou um conservador. Não há nada mais antagónico que um humorista conservador, eu sei. A Samantha Fox é um capricho de homem conservador. Só me lembro do Benny Hill. Quem não percebeu bem a última frase, passe por favor para a seguinte. Que é a anterior a esta. Perdidos na minha tribo em Kuala Lumpur? É perfeitamente normal. Eu próprio também já não sei onde estou. Na Malásia do discurso incoerente e sem sentido, ouço alguém a lamber cornetos. Oh, parem lá com isso, que eu já estou a ficar confuso. Já sei onde estávamos, no conservadorismo. No ensino, por exemplo, uma aula com acetatos é para mim já uma aula com efeitos especiais, sou adepto de discursos longos e pausados, em que se defendam posições tidas por todos como aceites. É desse ponto seguro que parto sempre, como humorista, e é sempre a esse ponto que regresso. Não pretendo mudar nada. Os meus filhos fazem o mesmo com as ondas do mar, quando aquelas levianas desenrolam na areia. Correm para elas e regressam à base in extremis sem se molharem. Eles sabem que não podem nada contra as ondas do mar. O meu quadro familiar é do mais ortodoxo possível: família católica com três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Gosto mais da rapariga do que dos rapazes, e eles estão ao corrente. Agendo tudo com a minha mulher, que é de pele clara e tem cabelos lisos e sedosos. O meu dia começa sempre com a leitura do jornal, no caso, o "Dica", que é o financial times dos humoristas conservadores, especializado no preço/quilo das coxinhas de frango e dos escalopes de peru. Depois de me inteirar dos preços das coisas, beijo os meus filhos, pego na mala e parto para o trabalho, seguro de que todo aquele universo depende de mim e da minha mala vazia.



terça-feira, 13 de março de 2012

Governo cheio de energia

Tenho duas ideias a monte dentro da cabeça. A ver se as capturo e as encerro numa crónica com gradinhas, um catre e um balde. Entretanto, então não é que Cavaco hoje não fez asneiras?! Vem aí bomba, de certeza. Estranho esta paz podre que chega de Belém. Se me perguntassem em estilo bíblico se era mais fácil o presidente inscrever-se numa escola de danças africanas aos sábados à noite ou passar mais do que uma semana sem escangalhar o país, eu diria que o mais certo é um dia destes Cavaco Silva convocar de urgência os jornalistas para fazer uma demonstração ao país de kizomba e kuduro. Por falar em demonstrações, viram a mestria com que se substitui um secretário de estado da energia de Álvaro? Haverá aqui dedo do fantasma Gasparzinho, que vive nas pausas (é mais "minutos de silêncio") com que o ministro Gaspar das finanças homenageia as comunicações que faz ao país, mortas à nascença?
- Agora (minuto de silêncio) que(minuto de silêncio)ria dizer (minuto de silêncio) que j(minuto de silêncio e gole de água)á res(minuto de silêncio)pondi a e(minuto de silêncio)ssa questão há dois minutos (minuto de silêncio) e trin(minuto de silêncio)ta e (minuto de silêncio) dois se(minuto de silêncio)gundos a(minuto de silêncio)trás. Enquanto o ministro reproduzia isto, o meu filho de oito anos acabou o primeiro ciclo, o segundo e o terceiro, fez o secundário, perdeu a virgindade em Lloret del Mar, fez um ano de melhorias, saiu da universidade e não arranjou emprego, sou eu que lhe continuo a pagar a comida, a roupa, uma segunda licenciatura, ele diz que eu sou o melhor pai do mundo e assim será enquanto o ministro Gaspar das Finanças não parar de falar! Esta crónica fica desempregada aqui.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Cavaco atira-se a Sócrates, ui

Dói-me o pulso. Qual?! Ousais?! Quereis saber mais do que eu... (Pausa) Sei lá que pulso me dói! (Pausa) Sois uns atiçadores! Dói-me o pulso de alguém! (Pausa) E isso basta-vos. (Pausa) Hoje apetece-me falar sobre a semana passada, porque naquele pacotinho de cinco dias tivemos muitos sabores diferentes que, estou certo, vos adoçou esse vosso insosso inexistir. (Pausa) Então não é que o actual presidente da república se chateou com o primeiro-ministro (Pausade há uns anos atrás... por causa de um "incorning" (obrigado aos "gato") institucional anacrónico, que urgia agora denunciar para evitar hoje danos catastróficos para a anterior legislatura. É mais ou menos como se um homem traído pela mulher com o seu melhor amigo no dia 12 de Março de 2011, e sabedor desde essa altura, se atirasse ao perpetuador da perfídia no dia 12 de Março de 2012. (Pausa) Agora espera aí um ano que eu já me passo! (Pausa) Enfim, é uma história sem paralelo... (Pausa) "Paralelo" só se for o timing político do presidente... Cavaco encontra-se irado com Sócrates e tentou dar-lhe dois ou três presidenciais sopapinhos. A sorte de Sócrates é que já não é primeiro-ministro e já estava bem longe do recreio da política nacional no momento exacto em que teve lugar a tentativa de agressão. Quando andava no ciclo, fiz o mesmo: o tipo mais bera da turma meteu-se comigo no intervalo grande da tarde e eu não hesitei em confrontá-lo às oito da noite, estava eu na minha casa e ele na dele. O gajo ficou cheio de medo, o seu rosto encheu-se de terror... (Pausa) Imagino eu. Estava escuro e havia uma distância entre nós de duas freguesias e uma linha férrea ao meio. Eu estava ao colo da minha mãe e parece que ouvia o chichi dele a cair-lhe pelas pernas abaixo. (Pausa. Dar tempo ao Carnegie Hall para se sentar outra vez) Nessas coisas, sou como o Cavaco e os meus adversários não perdem (mais de um ano) pela demora! (Pausa) Eu era mau e, uma vez, comandei uma quadrilha de alunos do oitavo ano num ataque bárbaro a um grupo jeitoso de pensionistas do 3.º escalão do IRS, numa paragem de autocarro. Roubamos-lhes todo o dinheiro que tinham em sua posse. (Pausa) Ficamos com 10 cêntimos, depois de impostos. (Pausa) Entretanto, o presidente Cavaco não teve à altura do presidenciável Marcelo. A diferença entre eles é que um é presidente a partir de Belém e outro a partir de Queluz. Um utiliza as redes sociais, o outro, mais conservador, meios mais tradicionais como a televisão ou o telemóvel. E enquanto Cavaco finge bater em Sócrates e Marcelo finge defendê-lo, o ex primeiro-ministro afina o método na Sorbonne e remete-se ao silêncio, o grito dos velhos sábios... Está tudo doido! (Pausa) Por falar em insanidade mental, o ministro Álvaro teve na semana passada o seu duocentésimo quinquagésimo nono amuo desde que é ministro da economia. Atenção que eu não sou daqueles que assapa em Álvaro por tudo e por nada. Quando tem que se pegar com alguém em Portugal, nos dias que correm, pega-se ou com o Castelo Branco ou com o Álvaro! Por isso, acho normal que ele amue e, em última instância, gaffe esta merda toda. Porquê?, questiona o leitor atento e sem existência material. Pois questiona muito bem! Queria eu ver quem é que não amuava se fosse convidado para ser ministro da economia de um país sem economia! É a pasta fantasma por excelência e o Gasparzinho, que é o fantasminha que vive nas pausas do discurso do ministro Gaspar, ri-se disso! Porque se há pasta bem real, essa, é a das finanças.

domingo, 11 de março de 2012

Vendo ideias

Preciso de dinheiro para acabar de construir uma casa, onde pretendo criar os meus filhos e amar a minha mulher. Por isso, se o sketch anterior não obtiver sucesso humorístico, estou disposto a vendê-lo para os cursos de inglês das edições Readers Digest, pela quantia necessária de dinheiro. Nunca por menos disso. Sim, sei ladrar e dizer: this is a dog. Não, nunca por menos disso, já disse. Entretanto, vendo ideias. Tenho muitas espalhadas cá dentro. Estão é à solta. Terão de as conseguir apanhar para as poder comprar. Tenho uma balança de precisão para as pesar, pois o preço de cada ideia é determinado pelo seu peso. Não, nunca por menos disso, espero não ter de o repetir. Há alturas do dia em que elas saem para apanhar ar fresco e respirar. As minhas ideias são como as baleias. São pesadas, precisam de respirar e amam quem as trata bem. Essa é a melhor altura para as capturar, quando saem para respirar. Não posso contudo garantir que em cativeiro tenham o mesmo comportamento que em estado selvagem.

Orgulho e preconceito

Homem 1 (quer dizer...) - Are you sure you are a man?
Homem 2 (quer dizer...) - Yes, I think so...
Homem 1 - Are you sure you are not a woman?
Homem 2 - Well, I think I'am not a woman, I think I'am a man...
Homem 1 - Can you in a discret way make sure you are a man? But remember, in a subtle way...
Homem 2 - (A moment of silence) I can do that. (A second moment of silence) I just came to make sure I'am a man, a manly kind, I must say!
Homem 1 - Are you sure you are a man inside your self? That is also very important when it comes to find out if we are truely a man, on the essence you know?...
Homem 2 - Well, let me have a look inside...
Homem 1 - Invite Freud for that...
Homem 2 - Yes, I'am in no doubt about this...
Homem 1 - I see... Are you sure you are not Catwoman?
Homem 2 - Yes...
Homem 1 - You know, nowadays you can never tell... Don't you think so?
Homem 2 - I think you're gay!
Homem 1 - And why is that?
Homem 2 - Because you are portuguese but you speak in english instead!
Homem 1 - But you to spoke in english...
Homem 2 - In response to you...
Homem 1 - So, you are gay in response...
Homem 2 - (A moment of silence. Than, the sound and fury of a shot gun)
Homem 1 - (In agony) What have you done?
Homem 2 - I think it's obvious I have just pulled my gun...
Homem 1 - You are an horrible man!
Homem 2 - And why is that?
Homem 1 - Because you are predictable...
Homem 2 - And you are gay!
Homem 1 - And you are a predictable gay!



sexta-feira, 9 de março de 2012

The boundaries of humor 3

Este é o limite superior do humor até ao próximo post.

Swing do Além...

Quando num espaço nunca superior a 4m2, o amor acontece entre o conde, Grafstein, a duquesa de Alba e o jovem de setenta anos que recentemente a desposou.

Necrofilia

Quando o amor acontece entre o Conde e Grafstein...

O dia seguinte ao dia da mulher

O que eu gosto mais no dia da mulher é o dia a seguir. (Pausa) Desde logo porque as mulheres podem regressar à sua condição de todos os dias e deixar de fazer de homens. (Pausa) Agora que já abri uma ferida que muito dificilmente sarará, resta-me dar algumas explicações para o facto de conjugar o verbo sarar na  3.ª pessoa do singular do tempo futuro como se não houvesse consequências. Em primeiro lugar, peço desculpa por este facto, o que não sendo uma explicação, explica muita coisa. Não sei onde tinha a cabeça! Ando a ler muito a Bíblia. (Pausa) Não matarás... (Pausa) Não cobiçarás... (Pausa) Em segundo, queria dizer que as enunciações verbais fazem-me lembrar nomes de igrejas adventistas, e eu gosto muito da sonoridade dos nomes deste tipo de agremiação religiosa, o que por si só não explica grande coisa, sendo que isso já pouco me importa. Exemplificando: "Igreja da Santíssima Terceira Pessoa do Singular do Tempo Futuro". E questionam vocês que não existem e sabem sempre como fazer perguntas completamente descontextualizadas: 
- E por que razão é importante para ti que, numa das próximas emissões do «Até à verdade», Carlos Castro perdoe em directo Renato Seabra, que seguirá a emissão por video-conferência, ou através de um auricular místico, preparado para receber comunicações do além, e que já existe para esse efeito em Rikers Islands?
- Porque um dia destes vou a Nova Iorque e quero ver se se respira melhor por lá! E replicam vocês, como se fossem um tremor de terra com trigémeos:
- Em que estado terá ficado o computador do Renato? É que nos dava jeito e se calhar está parado nalguma arrecadação da NYPD e, como está em português, ninguém lhe dá uso. Enfim, quanto mais absurdas as vossas perguntas, mais dificuldades tenho eu em segurar as rédeas deste texto e falar do dia seguinte ao dia da mulher. Basicamente, o dia da mulher são 24 horas reservadas para que pessoas do sexo feminino se comportem como pessoas do sexo masculino.
- Durante 24 horas somos alarves como vós!, parece que ouço mulheres dizendo. Acreditem: não há nada de interessante em ser como nós. Eu só consigo pensar em vantagens em se ser mulher, desde logo, em operações stop. E replico eu a 10 na escala de Richter:
- Então e se pedisse à Rita Ferro Rodrigues para contactar o além e perguntar a Betty Grafstein se perdoa as caubóiadas do conde? Como? Não é preciso, porque ela ainda não faleceu? (Pausa) Parece-vos!
- Ah, por que é que não falas em pessoas que realmente já faleceram?
- Porque isso não era humor!
- Ah, e isto é?
- Não. Humor era se fizesse a mesma piada com a duquesa de Alba, não era? Enfim, vocês desiludem-me! Como a Betty anda meia desaparecida (deixou de se ver por que lhe devem ter caído os 10 quilos de botox compressado que tinha na cara ao visionar os vídeos do marido), já não entra nos vossos padrões elevados? Acho injusto. Além de que é uma mulher, e o conde é a pílula do dia seguinte ao dia da mulher.

Nota: o texto acabou em "operações stop". A partir daí fui eu a dar uns coices nas teclas enquanto era acometido de uma espondilose em fast forward.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia da mulher

Quem nunca se riu de uma mulher a tentar chegar ao ticket de portagem num acesso à auto-estrada que vá para a rua gritar: "DIA INTERNACIONAL DA MULHER"! Todos os outros tenham vergonha e não sejam hipócritas. Eu estou à-vontade para sair para a rua e gritar bem alto. Nunca me ri de uma mulher a tentar chegar ao ticket da portagem. Nem mesmo certa vez em que uma tirou o cinto e se empoleirou na porta, ficando com 75% do corpo de fora da viatura, para depois chegar à conclusão de que mesmo assim não chegava e que teria de sair para alcançar o ticket. Se pudesse, encomendava este sketch ao Rowan Atkinson, que faz muito bem de mulher, e publicava-o hoje, na vez deste texto. Seria uma bonita homenagem a todas as mulheres, quase tão bonita como o facto de ter convidado uma mulher voluptuosa para bater este texto no computador, em lingerie, enquanto o digo em voz alta e de improviso. Alguns de vocês, mais argutos, estão neste preciso momento a pensar por que razão é que eu uso grande a unha do dedo mindinho? É uma pergunta sem lógica e desgarrada do contexto em que estávamos inseridos desde o início da crónica, o que prova, por um lado, a debilidade das vossas relações sinápticas, mas por outro, deixa a nu, sobretudo na zona dos ombros e costas, alguma flexibilidade postural que me agrada em pessoas tinhosas, e nas outras também! Pessoalmente, acho que o dedo mindinho tem algum complexo de inferioridade em relação aos restantes parceiros de mão. Colectivamente, acho que a unha grande compensa a diferença. É como se o dedo mindinho fosse uma mulher baixa e usasse tacão alto. A unhata dá-me igualmente um jeito enorme para fazer a limpeza da laringe e do esófago, sobretudo, quando como caracóis e estes ficam agarrados na descida para o estômago. Dá-me ainda para tocar xilofone nos tímpanos, quando limpo as cavidades auriculares, e para apanhar a cinza do tabaco que, inadvertidamente, cai para fora do cinzeiro. Ainda assim, é preciso ter alguns cuidados quando se usa unhata. O mais importante é ter muito cuidado ao verter águas, pois podemos perfurar um testículo ou esfaquear uma virilha durante o manuseamento. Leiam sempre o manual de instruções e os procedimentos de segurança que vêm dentro da caixinha da unhata, e guardem-na durante 15 dias, no caso de ser preciso trocar. Pa,ra t,er,minar, olha, n,ão q,ueres, ver agora estas, vír,gulas de novo em acção?! Estas, badalhoquinhas, q,ue só existem, pa,ra tirar o sentido àquil,o que eu digo! Mais parecem, um espermatozóide depois da quimioterapia,,, Olha estas três viradas a mim!,,,,,, Olha agora vieram mais três! A fazer deste texto um cancro, em, fase terminal, ou em francês, foie gras!

The boundaries of humor 2

- Mu-iii-utu-o-i-a-do-pu-ês-t-pé-mium!
(Parte final do discurso de vitória do gajo com mais estilo do último post)

quarta-feira, 7 de março de 2012

The boundaries of humor

Os limites do humor é um dos temas preferidos dos humoristas. Uma das frases-tipo neste género de discussão é o clássico da agropecuária: "não à vacas sagradas no humor"! (Pausa) O facto de eu ter escrito há, do verbo haver, sem h e com um acento grave, foi só para estimular as vossas glândulas salivares! Por um momento que fosse, perguntaram-se o que é que este inútil está aqui a fazer?! Senti um frio glaciar! Umas coisas no estômago! Chama-se criar uma expectativa no público, que depois não se consuma. (Pausa) Exacto, como na vossa vida sexual! (Pausa) Também se chama ser estúpido, evidentemente. Claro senhor Lobo Antunes, sim compreendo perfeitamente o seu raciocínio, são vozes que nos assaltam e nos roubam a ordem natural das coisas. E no seu caso, a ordem natural das coisas tem a dupla função de juizo e de livro. Claro! A referência ao quase nobel da literatura só é útil para algumas pessoas. As que tiverem nível para isso! As que não tiverem, das duas uma: ou vão num instante a uma loja de materiais de construção e compram um, ou saltam a referência à frente. Tanto num caso, como no outro, coloca-se a seguinte questão:
- Tem o humorista o direito de pôr em causa a cultura e a capacidade intelectual de um auditório?
- Tem!
- E de uma plateia?
- Também
- E de um grupo de pinguins?
- Igualmente! Claro que precisa também ele próprio de ser um débil mental! (Pausa) Ou então, simplesmente, não ter problemas com isso! Ou então, chamar-se George Carlin e o auditório ser a América à saída da guerra do Vietnam e prestes a entrar na administração Reagan. Aí, temos um perfect match! Se não perceberem a referência a George Carlin, aí levo-vos a mal e como castigo obrigo-vos a ler de enfiada, e sem tesoura e cola, Boa tarde às coisas aqui em baixo, Eu hei-de amar uma pedra, Ontem não te vi em Babilónia e arquipélago da insónia. Se mesmo assim conseguirem escapar à baixa psiquiátrica, posso sempre agendar-vos uma visitinha ao hospital... Ups, esta é para retirar! Esqueçam! Se ainda não leram esta última frase, não leiam agora, apesar de isso ser logicamente impossível. E se for caso disso, leiam a última crónica do Lobo Antunes, na Visão do passado dia um... Voltando à vaca fria (aperceberam-se do jogo de palavras de gabarito excepcional?), o facto de vos ter induzido a pensar o pior de mim com aquela cena deh tirar he meter o h em todo o lado, menos onde é preciso, é bom, pois mantém-me alerta e com vontade de vos zupar todo o dia, quem quer que vocês sejam. Os humoristas, sobretudo aqueles que dão entrevistas e ganham bem, adoram dizer que não há gado bovino indiano no humor português, i esso é algo que me deixa com vontade de trocar os e pelos i (onde está e leiam i, i vice-versa). Normalmente, completam o seu raciocínio com um "em última análise, os limites são aqueles que cada humorista estabelece para si próprio", ou, em português de porquinho-da-índia, "eu azucrino os outros até aos limites da minha própria paciência, hoinc-hoinc"! Que é como quem diz, "quando até a mim já começa a meter nojo"! (Pausa) Brincar com o internamento de alguém, por exemplo, é um desses limites que não deve ser ultrapassado? Brincar com a doença de outrem é boa ou má arte? Enfim, se pensarmos que tanta gente parodiou a morte de Michael Jackson, Carlos Castro ou Betty Grafstein... (Pausa. Dar tempo para que o Royal Albert Hall se recomponha) Só para falar nas mais recentes... (Pausa) Depende! De quem? Da consciência de cada humorista! O todo o poderoso humorista! Ou sai legislação já, ou saem pides para a rua, agora, alguém tem que acabar com esta pouca vergonha de um indivíduo poder fazer comédia sobre tudo e não importa o quê! Ups, estive a falar com pessoas da família do lado da minha mulher, que são emigrantes em França. (Pausa) Bem, estávamos na pide... (Pausa) Pronto, já não estamos! Brincar com a saúde das pessoas parece coisa séria! Pelos vistos, mais do que brincar com a morte. Exemplificando: no outro dia, fui para a rua pontuar pessoas com estilo. Esta categoria incluía a forma de vestir, o jeito de andar, o corte de cabelo, a atitude... Enfim, uma coisa bem organizada. Levei aquelas plaquinhas, que parecem raquetes de praia, com a pontuação, que levantava à passagem dos incautos transeuntes. Ganhou um tipo que tinha acabado de ter alta do hospital, depois de ter sofrido um avc uma semana antes. Ele agradeceu - acho eu - a nota máxima e disse: nhanh-uhnuh-ôi-c-i-ó-i-á-du. Eu disse: de nada, ora essa. E desejei-lhe boa sorte, porque o homem se preparava para atravessar a pé no ic19, só porque dá mais pica, segundo me disse, uma vez que não é porque agora tem este problema de saúde que vai deixar de fazer as coisas que fazia antes! Finalmente, até parece que o humor, a ironia e o sarcasmo fizeram as partilhas do terreno do espectáculo e disseram: Ironia - Eu fico com esta embelga! Sarcasmo - E eu com esta! Humor - E eu fico com esta, onde dá mais sol! Ou é de mim, ou ficaram com diferentes partes da mesma coisa?! É aqui que vocês dizem: - Lá está ele a ser irónico! Ou seria sarcástico? Ou simplesmente, estava tão só a fazer comédia?

Nota - Gostava que o George Carlin tivesse dito este texto. Dedico-lho postumamente! Que é assim que a gente lixa os gajos que já morreram!

Farewell, George

terça-feira, 6 de março de 2012

Apontamentos para stand-up: work in process!

Se há coisa que me deixa irritado são aquelas pessoas que dizem não ser capazes de fazer certas coisas que toda a gente é capaz de fazer. Até uma criança de cinco anos. Há sempre alguém que se chega à nossa beira e diz:
- Eu não consigo sair de casa sem tomar o pequeno-almoço. É escusado, não consigo! Uma vez saí de casa sem comer nada e tive duas quebras de tensão no espaço de cinco minutos. E quando a gente diz que consegue sair na boa de casa sem passar nada pelos dentes, levamos a estocada final:
- Fazes muito mal. O pequeno-almoço é "a refeição mais importante do dia"! Quando ouço esta frase, dá-me logo vontade de vomitar flocos de cereais com leite em cima de alguém! Depois, há o oposto exacto de gente que não é capaz de comer nada de manhã!
- É escusado! Eu não consigo comer nada antes do meio-dia. Qualquer coisinha que meta à boca é logo para deitar fora! É escusado. Eh pá, vão pentear baleias bebé para alto mar sem molhar o pente! Alguém tem de explicar a esta gente que toda e qualquer pessoa é capaz de comer, ou não, ao pequeno-almoço. Basta que se proponha a isso! Se um homem disser que não consegue manter uma erecção, debaixo da mesa do pequeno-almoço, enquanto lê as páginas da necrologia e a mulher se passeia em negligé pela cozinha, como se não tivesse tido quatro filhos e dois avc's, aí já não digo nada! Acho normal. Que um gajo diga que não é capaz de fazer amor com a mulher, depois dos cinquenta, porque a cada dia que passa ela se parece mais com a mãe, acho normal! Quantos gajos eram capazes de fazer amor com a própria sogra? Um que fosse já seria lamentável e representaria a subversão de todos os princípios que devem pautar a vida de um homem normal. Que uma pessoa diga que não é capaz de parar de vomitar depois de andar de montanha-russa a seguir ao almoço, porque é mulher e está grávida, porque tem uma gastroenterite, porque leu um livro da Margarida Rebelo Pinto sem tomar os comprimidos contra o enjoo, parece-me perfeitamente plausível. Outras coisas, não! Depois, há ainda aquelas pessas que tomam o pequeno-almoço, mas não podem comer tudo.
- Ai, eu se beber leite ao pequeno-almoço fico cheia de borbulhas nos braços e nas pernas e nasce-me o elenco do Shrek 2 nas costas! F...-..! Então?! A brincar com coisas sérias!
Outra coisa que me irrita solenemente são os pais que fazem questão de dizer que têm uma relação aberta com os filhos. Diz o pai:
- Eu e a minha filha falamos sobre tudo e mais alguma coisa. Não há temas tabu entre nós! Nem sexo anal? Com um matulão africano? Inscrito num CEF de jardinagem? Cinco anos mais velho e com ar de quem tem nega a "Cidadania e Mundo Actual"? Há discursos que não colam! E quando eles vão assim:
- Os meus filhos não têm segredos para mim! Contam-me tudo! Pois contam tudo, excepto aquilo que não contam. À parte isso, contam tudo!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Segunda-feira

Hoje acordei amanhã extremamente bem disposto e de bem com a vida. Com problemas ao nível da interpretação da última frase? É natural, uma vez que, pelo que tenho lido na caixa de comentários, vocês, para além de não existirem, são algo limitados. É uma não existência limitada o que, na analogia do ser, é monstruosidade para dar qualquer coisa entre belgas de chocolate e m&ms falantes com perninhas e personalidade jurídica. Ao contrário de vocês! (Pausa) Vocês são um feto com onze semanas e meia. Caraças, quase que chegavam a tempo. Assim, estais atrasados para toda a eternidade e resta-vos não existir desse lado da vida, e reagir através da internet, que é como se fosse existir, só que sem pagar impostos. Até nem está mal visto da vossa parte! (Pausa) Pelo sim, pelo não, vou só ali mudar a água às azeitonas atrás daquela oliveira que existe ao fundo de um pensamento que estou a ter agora, e só aí, antes que fique incontinente. Não digam que eu ainda sou novo, que a última vez que olhei para o meu pai já ele não retinha águas e, ele sim, era um homem novo. Bem, dizia eu, antes de me perder dentro de uma lata de atum, que hoje acordei prá frentex (para mim, hoje é terça-feira e vocês estão atrasados!), porque o dia de hoje não prometia nada de especial. Como já estou lá, não estou cá e vocês, como sempre, não estão aí! Parece-me que assim estão reunidas todas as condições para uma boa comunicação, dos possíveis e dos co-possíveis, em que uma segunda-feira é muito menos do que isso. (Pausa) É uma terça! (Pausa) Enfim, penso que já está claro para toda a gente que hoje não me apetece ir trabalhar. Podia chegar ao trabalho e dizê-lo ao meu chefe! Mas hoje é terça, e às terças estou de folga! Por isso só vou trabalhar amanhã, quarta! Isto, se entretanto não perder o norte (no sul de Espanha, por exemplo, para não perder o fio à actualidade). Para algumas pessoas, de pensamento mais linear que o meu, a semana é uma fila indiana de dias que esperam pacientemente a sua vez. Para mim, é um universo por desbravar, uma oportunidade. Quando amanhã, quarta, chegar ao trabalho, alguém me dirá, já sei, que ontem faltei. Direi que ontem, terça, era a minha folga. Alguém ripostará, vomitando as banalidades do costume, e assegurando que ontem foi segunda! Que hoje é que é terça! E que amanhã é quarta! Eu apelarei à criatividade das pessoas! As pessoas chamar-me-ão mandrião! Eu insistirei que hoje (amanhã) é quarta, que tenho a quinta (o amanhã de amanhã) cheia de reuniões que preciso de preparar hoje, quarta. Porque ontem foi terça e eu estive de folga, e anteontem foi segunda. Se alguém me disser que foi domingo, eu direi que alguém se atrasou a entrar na semana! Eu entrei a tempo! Mas se hoje é terça, então hoje é o meu dia de folga! E assim sendo, até amanhã camaradas!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Chamada de emergência 2 - Será grave, não?

Quartel de bombeiros - Muito boa tarde! Faça favor de dizer!
Local do sinistro - Boa tarde! É dos Bombeiros Voluntários de Castro Daire?
Quartel de bombeiros - É sim! Está bonzinho?
Local do sinistro - Vai-se andando! E a senhora?
Quartel de bombeiros - Nunca pior! O que me chateia é esta ciática, mas o médico diz que não há nada a fazer. É andar com a vida para a frente e pronto! Então, ora diga lá?
Local do sinistro - Olhe, eu estava a ligar porque há um fogo enorme no pinhal aqui à volta de casa!
Quartel de bombeiros - Fo-go... (aponta num post it)
Local do sinistro - Desculpe?...
Quartel de bombeiros - Desculpe eu... Estava aqui a apontar o tipo de ocorrência. Olhe, numa primeira análise não me parece que seja uma situação realmente grave. Se o fogo já tivesse atingido alguma habitação, ainda estou como o outro. Assim, não me parece que passe no sistema de triagem.
Local do sinistro - Não é grave? É isso que me está a dizer?
Quartel de bombeiros - Não sou eu! É o sistema de triagem, que está informatizado. O computador é que me está a dizer que não é grave! Compreende? Faça-me o favor de indicar exactamente a localização da sua residência?
Local do sinistro - Monte do Sebastião, 14, Satão.
Quartel de bombeiros - Hum... Isso fica um bocadinho desviado...
Local do sinistro - Pois... Então, se calhar, não vinham?... (irónico)
Quartel de bombeiros - É, se calhar, não! Mas obrigado por se ter lembrado de nós! Um abraço.

(Desligam! O homem contacta a corporação de bombeiros de Tarouca)

Local do sinistro - Boa Tarde. É dos Bombeiros Voluntários de Tarouca?
Quartel de bombeiros - Muito boa tarde! É sim! Faça o favor de indicar o tipo de ocorrência!
Local do sinistro - Ainda bem que vamos directos ao assunto! Há um fogo enorme que lavra há já várias horas aqui na minha área de residência. Já pegou na casa do vizinho e a seguir vem à minha, se vocês não vierem imediatamente para cá!
Quartel dos bombeiros - Bom! Pelo que me é dado perceber, se ainda não atingiu a sua casa, não me parece que possa ser considerada uma situação verdadeiramente grave... para si!
Local do sinistro - Mas, mas...
Quartel de bombeiros - A habitação do senhor localiza-se precisamente aonde??
Local do sinistro - Monte do Sebastião, n.º 14, Satão.
Quartel de bombeiros - Ah, então é por vossa causa que tive de passar o dia com as janelas fechadas! Sem ar condicionado! Com este calor!
Local do sinistro - Pois, desculpe lá!... Então, vêm?
Quartel de bombeiros - Sinto muito, mas essa zona é da área de jurisdição de Castro Daire!
Local do sinistro - Sim, mas eles disseram que não vinham! Que era muito desviado!
Quartel de bombeiros - Precisamente! E para nós ainda é mais! Como deve calcular!
Local do sinistro - Então, e agora?
Quartel de bombeiros - Não tem mangueiras aí em casa?
Local do sinistro - Desculpe?
Quartel de bombeiros - Mangueiras? Do jardim? Está a ver?
Local do sinistro - Tenho... E?
Quartel de bombeiros - Então?! Em vez de estar a perder tempo a falar ao telefone, se fosse mas é apagar o fogo, mais o preguiçoso do seu vizinho, se calhar era melhor, não?!
(Desliga,  indignado, o telefone. Contacta a corporação de Bombeiros de Vila Nova de Paiva)

Quartel de bombeiros - Quartel de Bombeiros de Vila Nova de Paiva, boa tarde! Faça o favor de dizer!
Local do sinistro - Muito boa tarde! Eu tenho um fogo que já me entrou pelo jardim adentro! Neste momento, está na casota do cão e a dois passos de chegar à casa! (Tosse)
Quartel de bombeiros - Então se calhar o melhor era pôr-se a andar daí para fora o mais rapidamente possível! Não?!
Local do sinistro - E a casa?! Vocês não vêm apagar o fogo? (Desespero na voz)
Quartel de bombeiros - É longe, sabe?! E nós só temos combustível para metade do caminho. O restante, tem de ser feito a pé e os homens têm de empurrar o auto-tanque. Demorávamos dois dias a chegar aí!
Local do sinistro - Mas, mas... (Tosse)
Quartel de bombeiros - É complicado, sabe! E depois a gente suja tudo! E as pessoas não gostam! E fazem queixa de nós!
Local do sinistro - Eu quero lá saber que vocês sujem tudo! Venham rápido! rápido!
Quartel de bombeiros - Hum... Hum... Não sei?!... Acha mesmo?
Local do sinistro - Sim, acho! Venham! Venham depressa!
Quartel de bombeiros - Se formos, não vamos depressa! Que ainda temos um acidente! Quanto mais pressas mais vagares!
Local do sinistro - Sim, sim, claro... Mas vêm?
Quartel de bombeiros - Se calhar, o melhor, é não! Sabe porquê? Vou dizer-lhe uma coisa: primeiro, as pessoas dizem todas que não se chateiam que a gente suje tudo! Estão desesperadas e querem é o fogo apagado! Mas depois, quando vêem a bagunça em que a gente lhes deixa a casa, com espuma branca por todo o lado, caem-nos em cima com processos, e com isto, e com aquilo! Portanto, se calhar, o melhor mesmo é não irmos. Adeus, boa tarde!

(Na imagem, aparece a legenda: "1 hora depois")

Local do sinistro - (Tosse muito, enquanto fala) Estou?! É dos bombeiros voluntários de Braga?
Quartel de bombeiros - É sim! Faça o favor de dizer!
Local do sinistro - Olhe: a minha casa está a arder.
Quartel de bombeiros - E a sua casa fica aonde?
Local do sinistro - No Satão!
Quartel de bombeiros - Sim senhor! Vai já seguir um auto-tanque com 10 homens.
Local do sinistro - Muito obrigado! Muito obrigado! Em quanto tempo é que se põem cá?
Quartel de bombeiros - É rápido! Vamos pela A3 até ao Porto. Depois, metemo-nos pela nacional para poupar nas portagens. Estamos aí daqui a três horas! 
Local do sinistro - (Tosse convulsa)