sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Gaspar engata Schäble

Bom dia. O meu psicanalista - que por acaso está de baixa - disse-me, na última vez que lá fui parar com uma crise de rins e espasmos, que com menos dez quilos de traumas no bucho eu andaria muito melhor. Perguntei-lhe onde é que se emagrecia a alma, se havia alguma clínica, ou assim, e ele disse-me que tinha de abandonar cristo e passar a consumir drogas finas. Parece que estou a ouvi-lo dizer: " - Evita as leves e as duras. As primeiras levam-te às segundas, as segundas só te fazem perder vinte e um gramas e acabam-se os bifes de jeito". Ele adora referências ao Woddy Allen e eu também não desgosto, acho que é por isso que não lhe cobro nada por lá ir. Depois, num momento de clarividência - e antes de me fazer um papa nicolau só para ver se estava tudo bem -, disse-me que ele próprio andava a tentar perder uma arroba. E que aí, sim, aí eu ficaria completamente curado. Por essa altura, já não o conseguia ver direito, ainda tentei sublinhar a grossura da minha voz ao dizer que, se calhar, o papa nicolau não se adequava à minha condição existencial, mas já não havia nada a fazer. Quando dei conta, já tinha uma perna em cada hemisfério e o psicanalista à procura do meu útero na minha próstata. Enfim, é no que dá uma vida de amores falhados, copiar na faculdade e cruzar os dedos durante o juramento de hipócrates. Eu até já lhe disse para ele parar de ver filmes do Woody Allen, sobretudo, evitar fazê-lo ao domingo à noite, mas ele não me dá ouvidos, apesar desse ser o trabalho dele... Diz que gosta de ver mulheres nuas com depressão. Foi aí que eu aproveitei para lhe explicar que há outros filmes de outros realizadores em que aparecem mulheres nuas. Até já o aconselhei a ver a TVI ao sábado à noite, mas ele diz que não é a mesma coisa. Que prefere as deprimidas, e na TVI não há mulheres deprimidas e as que há ele preferia não ter de ver nuas. Por falar em TVI, achei a conversa entre Gaspar e Schäuble de uma... normalidade incrível. Foi o assunto do dia, mas eu não percebo porquê! O ministro português de pé, com uma mão no bolso, a outra apoiada nas costas da cadeira que estava mesmo ao lado do ministro das finanças alemão, ligeiramente inclinado para a frente, denunciando a intimidade política entre os dois. Já engatei muito assim, só que em discotecas e parei antes dos trinta. Mas não tenho nada contra quem mantém este tipo de prática pela vida fora. Nem com os gostos de cada um: Gaspar prefere intimidades com ministros das finanças mais velhos, eu preferiria acasalar com a ministra finlandesa responsável pela mesma pasta. Gaspar e Schäuble formam um casal de ministros das finanças, nada mais natural que discutirem planos de resgate e facturas para pagar no final do mês, como qualquer casal. Aliás, se há coisa que eu aprecio nestas reuniões a nível europeu é que os ministros acasalam por áreas, sendo raro haver miscigenação ministerial. Assim, negócios estrangeiros com negócios estrangeiros, defesa com defesa, agricultura e pescas com agricultura e pescas, economia com economia, finanças com finanças. Desse modo, não correm o risco de se ajudarem uns aos outros, o que tornaria o desafio de combate à crise muito menos fascinante. No caso, Gaspar ficou aborrecido pelo facto daquele momento íntimo com Schäuble ter sido registado pelas câmaras, facto que ele repudia pois tratava-se de algo do foro pessoal. Uma situação que eu compreendo perfeitamente, pois se o país pertence a Gaspar desde o dia em que tomou posse, parece-me perfeitamente lógico que este entenda que qualquer conversa que mantenha cujo tema seja Portugal e os Portugueses deva ser considerada do âmbito estritamente privado e, nesse sentido, não deva ser divulgada. A mim já me aconteceu o mesmo, levei para casa marcas de baton no colarinho e vi-me à rasca para explicar à minha mulher que aquilo resultara de uma conversa pessoal que tivera com a Vera, que trabalha na mesma repartição que eu, no momento exacto em que esta recebeu a notícia da morte do pai e precisou de um abraço amigo. Expliquei-lhe que aquilo jamais deveria ter ficado registado na camisa, uma vez tratar-se de uma questão do foro pessoal da Vera. Ainda assim, pese embora todas as explicações que dei, a dúvida ficou para sempre a pairar sobre a nossa relação, como uma espada de Dâmocles. Agora, difícil, difícil vai ser o ministro das finanças espanhol defender-se da acusação de violência "doméstica". Que outro nome pode ter a frase: "amanhã vamos aprovar uma reforma do mercado laboral e o senhor (Olli Rehn) poderá ver que é extremamente agressiva". Se isto não for dar porrada em casa, não sei o que será...

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