domingo, 12 de fevereiro de 2012

A aposta de Pascal

Acabo de acordar cheio de bom humor, preenchido por um hálito fresco e desodorizante, que espalho à minha volta para que outros possam fruir. Acho que é por causa disto que a dor que tenho no braço esquerdo não me incomoda assim tanto. Porque tenho bom hálito pela manhã. E porque sou bonito. O que me dava jeito era ter um cancro no braço esquerdo, assim a dor que tenho nos ossos deste membro inútil (sou direito) incomodar-me-ia ainda menos. Ah, se vocês existissem, até parece que vos ouço dizer: 
- Não brinques com coisas sérias, Hélder. Olha que andas a brincar com o fogo!
E depois à noite faço chichi na cama, não é? Ainda bem que vocês não existem e que a dor que tenho no braço esquerdo também não! Hoje apetecia-me falar de Deus, mas ele não apareceu e eu só falo das pessoas na presença delas. Se ele amanhã aparecer, falarei d'Ele com letra grande. Até pode ser que folgue as costas e ele fale por mim. E vos abençoe. E vocês passem a existir. Até lá, vou aplicar-vos o "argumento do apostador", de Pascal. Desde logo, sou agnóstico em relação a vós, ou seja, não tenho dados em suficiência para inferir a vossa existência. Estou portanto indeciso. Considero, no entanto, que há boas probabilidades dos meus leitores existirem, sendo estas mais ou menos idênticas à possibilidade de não existirem. Eu quero que vocês existam, pelo que o mais racional é querer que respirem e me leiam. Se apostar na vossa existência, ganho ânimo para escrever e, pelo menos, a ilusão de que o faço para alguém que não a Lu e o meu colaborador imaginário, o Francisco. Já agora, também vou acreditar nele, pelo sim, pelo não. Se apostasse que vocês não existem (eh pá, quase que apostava...) viveria fora dessa ilusão (isto, se vocês não existissem mesmo), por um lado, mas por outro, muito provavelmente, deixaria de escrever. Isso seria péssimo, sobretudo, para os que me são mais próximos, pois teria de destilar isto que me sai dos dedos na vida real. Morreria só, num apartamento decrépito de centro de cidade, e seria encontrado vinte anos depois, pegado ao colo pelo fémur e pelo úmero, como se fosse uma menina, por um valente da corporação de bombeiros. Agora, se apostasse na vossa inexistência, e calhasse de vocês existirem, isso seria muito estúpido da minha parte. É este o argumento de Pascal, que era matemático, como o Francisco. É o que dá pôr matemáticos a discutir questões filosóficas: querem resolver a questão da existência de Deus com a calculadora na mão. Depois pega-se e dou por mim a querer resolver a questão da vossa existência da mesma forma. Pelo sim, pelo não (é assim, não é Pascal?) vocês existem e não se fala mais nisso. Agora tenho de sair, vou almoçar a casa da minha mãe, que não me apetece cozinhar.

2 comentários:

  1. Olha que eu existo, sou aquele que te acusou numa reunião de teres medo do teu chefe...nem todos temos as mesmas capacidades, eu sou muito melhor na cama que tu... mas continua a acreditar, pois eu estou contigo.

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  2. Oi menino Hélder!
    Olha que eu, tal como o Francisco, também existo. Só que o Francisco existe mais que eu - isso é certo - mas infelizmente, esta minha humilde e leitora existência não valida nem atesta a qualidade dos teus textos... mas eu SIM!
    Este texto em especial é deveras agradável, tal como sempre acontece, aliás, quando tu sugeres qualquer tipo de cancro e maleitas em geral no teu corpo. Não sei... acho giro...
    PS. Adoro a tua letra.
    João Nuno ;)

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