quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Chamada de emergência

Segundo soube hoje pelos media, a corporação de bombeiros de Castro Daire deixou de responder a todas as ocorrências, apenas dando resposta aquelas consideradas mais graves. Problemas de tesouraria impedem a corporação de abastecer as viaturas de socorro. Não consigo sequer imaginar o que será um dia a atender telefones naquele quartel de bombeiros.

Quartel de bombeiros - Estou?
Local do sinistro - (Voz calma) Estou? É dos bombeiros?
Quartel de bombeiros - É sim, minha senhora! Faça o favor de se acalmar! Ora diga?
Local do sinistro - (Voz calma) Olhe, o meu marido acaba de ter um avc! Têm de vir o mais rapidamente possível para aqui! Eu moro em Satão, mesmo no centro, junto à igreja.
Quartel de bombeiros -Oh minha senhora, pelo amor de Deus! A senhora mantenha a calma. Estar nessa pilha de nervos não vai ajudar o seu marido! (A mulher faz uma expressão de admiração!) Olhe, em primeiro lugar, nós só estamos a dar resposta às chamadas graves! (Pausa) Em segundo, a senhora está a interromper-me a linha e a evitar que uma chamada verdadeiramente urgente chegue aqui à corporação!
Local do sinistro - (Mantém a calma) Olhe, peço imensa desculpa, mas o meu marido teve um acidente vascular cerebral. Um A.V.C. (soletra)!
Quartel de bombeiros -Olhe: não vale a pena ir por aí... Não é com ironias que nos vamos en-ten-der (soletra)! Percebeu?
Local do sinistro - (Mantém, ainda assim, a calma) Deve haver um mal-entendido. Olhe, eu só preciso que envie uma ambulância a Satão. O meu marido teve um avc. Ele está a morrer!
Quartel de bombeiros - Que exagero, minha senhora. A senhora acalme-se! A senhora acalme-se, pelo amor de Deus! Isso não é nada! Eu já tive dois e estou aqui para as curvas! Vai ver que não tarda nada ele levanta-se com um andar novo, a dar um bocadinho de traseira, como se nada fosse e ainda vai ralhar consigo por causa do alarido que está a fazer à conta de uma ninharia.
Local do sinistro - (Mantém a calma. Parece conformada) Mas ele está inanimado!...
Quartel de bombeiros -Mais uma razão para não irmos. Deve estar a descansar. Os AVC's são uma coisa que cansa muito. Olha, faça o seguinte: deite-se ao lado dele e espere que ele acorde. (Pausa) Não há nada que o tempo não cure! (Pausa) Mas olhe, para não dizer que estou de má vontade, são neste momento três da tarde. Se vir que até amanhã de manhã ele ainda não acordou, volte a ligar. Eu deixo aqui um post it para o meu colega que faz as manhãs ficar inteirado do que se passa. Agora deite-se ao lado do esposo e vá-lhe fazendo cócegas, a ver se ele acorda. Com licença, boa tarde!
Local do sinistro - Boa tarde...



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

É terça-feira...

Hoje é terça-feira e a vida continua exactamente na mesma. Quando encetei este projecto, pensei que o meu talento seria imediatamente reconhecido pelos meus "pares" e que não tardariam os convites para trabalhar como autor de textos humorísticos. O humor é uma água viscosa de que não é fácil distinguir os compostos. Saber que é uma água já é um avanço epistemológico enorme e deve-se a descoberta a um trabalho de investigação que começou há cinco minutos atrás e que já produziu frutos. O meu cérebro equivale a um pomar que dá fruta constantemente, alguma dela exótica, como se poderá concluir do acervo dos últimos dois meses. (Pausa) Esqueçam as últimas sete ou oito orações, estava a rezar em gramática e corre-me sempre mal. Este texto começa aqui. Passemos uma borracha no que acabo de dizer. Foi sem intenção. Hoje é terça-feira e há dois lados desta questão, pois no humor problematizamos tudo: por um lado, é efectivamente terça-feira, na habitual sequência semanal; por outro lado, esta questão apenas tem um lado, e este é o outro lado desta questão. Por que razão se invocou então um segundo lado da questão? Perguntam vocês, e perguntam bem! Apesar de vocês serem tão imaginários como a dor que tenho no pâncreas neste preciso e exacto momento! Invocou-se um segundo lado para se poder referir que a questão apenas tem um lado. É evidente. Mas dizia, é terça-feira e estou com um problema: acordei com uma erecção no lábio inferior esquerdo. Alguns de vocês já estão a dizer: - Ah, mas isso não é um problema! É uma erecção! (Pausa) Pois, falais bem porque não é nada convosco. Se fosse, não estaríeis tão assim! Eu trabalho, tenho de encarar pessoas todos os dias! Como raio posso falar com os meus colegas com o lábio inferior em cima do superior, como se fosse uma manta?! É coisa para ter de fazer fisioterapia durante seis meses! Começo a pensar que ter uma erecção não é algo cuja bondade axiológica seja assim tão evidente. É aqui que vocês dizem: - Pois, agora vê-se que tens um parti-pris na questão das erecções e, por isso, começas a largar valores fundamentais que até agora eram a base da tua conduta! (Pausa prolongada) Quem raio é que está desse lado? O Pacheco Pereira joga na vossa equipa, agora?! Vocês não falavam assim! Com cenas francesas no meio! Andais a meter o termómetro na boca para ver o febre? E a tirar? E a meter? E a tirar! Numa fracção de segundo? É?! Incomoda-me ter perdido a dignidade por causa de um afluxo extraordinário de sangue ao lábio inferior. É só isso! Parece que tive um avc e não havia vaga para mim no hospital! E tenho de esperar que o tempo cure isto! (Pausa) O tempo cura tudo! (Pausa) Enfim, é um dia para esquecer, este! Acho que vou ali meter dois comprimidos no bucho para estabilizar o humor!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ó Elvas, ó Elvas...

Há duas coisas que eu não gosto quando vou passear para a Santa Quitéria, um lugar de peregrinação e lazer existente na pequena localidade onde vivo. Uma, é a maneira como a santa olha para mim, a outra, são diversos aspectos. Quem eventualmente achar que isto é muito pouco para "duas coisas", que arranje um determinado aspecto. Como hoje é domingo, vou dizer esta crónica em latim e de costas para vocês. Como vocês não existem, nem sequer ides dar conta. Tenho olhado para o mundo e está tudo de pernas para o ar. É com cada coice! O que vale é que ele é redondo e não se nota! Anda é a fazer movimentos de rotação, à razão de dois por dia, o que transtorna um bocado a vida às pessoas, que jantam ao almoço e tomam o pequeno-almoço à hora de jantar. É quase como ir à Austrália duas vezes por dia, só para o segundo jet lag anular o efeito do primeiro, e assim sucessivamente, até um dia o criador mandar o avião abaixo e acabar com estas cenas! As que eu faço e as que vocês fazem e, já agora, com as que o crocodilo dundee faz! Pois é! O processo Casa Pia volta a julgamento! Melhor: uma parte do processo Casa Pia volta a julgamento, pelos vistos, a parte que diz respeito à casa de Elvas. Parece que há dúvidas sobre dúvidas de que se duvida que fossem matéria de dúvida, no que diz respeito a certos factos, envolvendo apenas certas partes de certos arguidos. Não sou jurista, mas imagino que neste tipo de crimes seja fácil perceber as partes dos arguidos que estiveram envolvidas, pese embora, tudo seja relativo. E cada um sabe de si e Deus sabe de todos! Espero, no entanto, que não seja a parte que envolva pilinhas, caso contrário, até eu fico com dúvidas! E não há nada pior que deixar as pessoas na dúvida! Disso, não há dúvida! Se calhar têm dúvidas acerca da localização geográfica de Elvas. Sim senhor, houve crimes praticados em Elvas, mas onde raio é que isso fica? Claro que um juiz fica com dúvidas, sobretudo, se for uma juiza, pois já se sabe que o sentido de orientação das mulheres é igual ao de uma ratazana perdida no interior de um reactor nuclear. Depois, é natural que a dúvida se instale ainda mais se pensarmos que Paco Bandeira, esse expoente máximo quadrado cúbico elevado à décima potência a quem as mulheres da sua vida carinhosamente tratam por Sá Pinto, sobretudo aquelas que com ele conviveram depois dos quarenta, insinuou que Elvas era em Badajoz e, portanto, fica a dúvida se os crimes eventualmente aí praticados, ou não, ou sim, ou quem sabe, não deveriam ter de ser julgados em Espanha. Enfim, são muitos ses que nos levam a muitos ques e que não auguram nada de bom para o que resta do dia de hoje. Sobretudo, para quem, como vocês, têm de fazer o IC19 antes das oito da noite. Benedìcat vos omnipotens Deus, Pater, et Filius, et Spìritus Sanctus. Ite missa este.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Crise vem do grego...

Boa noite a todos, muito obrigado por terem vindo. De todos os espectáculos que já fiz, o desta noite promete ser o mais espectacular. Desde logo porque não está a acontecer de noite! Depois, porque não está a acontecer! Em terceiro, e por maioria de razão, porque está condenado a não fazer rir ninguém. (Pausa) São as grades em que nos encerra a lógica clássica. (Pausa) Venho-me debatendo contra este flagelo da lógica aristotélica, contra os princípios que a sustentam, mas tem sido uma luta inglória. Porquê?, parece que vos ouço perguntar timidamente. Vá lá, não sejam assim! Na cama, são uns malucos! E a fazer perguntas sérias, parecem a Becky do Tom Sawyer! (Pausa) Não se compreende, suas galdérias! Respondendo à vossa pergunta: a minha luta tem sido inglória porque ninguém sabe o que é a lógica aristotélica! (Pausa) Nem eu! (Pausa) Nem os gregos! (Pausa) Nem o Futre! (Pausa) Nem o Futre, caramba! (Pausa) Se os gregos soubessem alguma coisa de Lógica clássica (grega) não se viam gregos para sair da crise! Se por um lado, parece lógico os gregos verem-se gregos para isto e para aquilo, por outro, a expressão só faz sentido em Portugal! (Pausa) É coisa para dar um chilique ao mais destemido dos linguistas, sobretudo, aos linguistas gregos. Isto deve ser um dos aspectos que mais nos aproxima dos gregos, mas ainda bem que nem a Troika, nem o FMI, nem as agências de rating estão ao corrente deste facto. Desconhecerem a riqueza da língua dos países que vampirizam não deixa de ser uma vantagem para os vampirizados! Além disso, só prova que a lógica, às vezes, é matreira e podia fazer de raposa nas fábulas de La Fontaine! A sorte, no meio disto tudo, é que estou com erecção no corpo todo, que nem me consigo sentar. (Pausa) Puseram aqui uma cadeira mas não valia a pena. Vou ter de dormir em pé esta noite. (Pausa) Por que razão isto é uma sorte?, parece que vos ouço indagar. Bom, isso já é do foro íntimo e não posso revelar. Apenas posso dizer que ter uma erecção, seja que erecção for, é, por princípio, uma coisa boa. Guardem este ensinamento para vocês, que é para evitarem perguntas sem lógica aristotélica numa próxima vez. (Pausa) A erecção, o quê? Valha-me o professor Bambo! Olhem, apenas posso acrescentar que já me aconteceu antes, não se preocupem. Bem, o que eu e toda a equipa que está por trás de mim, a saber, o electricista e o tipo do som... (Pausa) Que na verdade são a mesma pessoa. (Pausa) Mas dizia: o que eu e toda a minha equipa gostaríamos era de resolver questões como a existência de Deus, o postulado kantiano da imortalidade da alma ou, no âmbito de uma metafísica mais exigente, o problema da "crise". Num momento particularmente conturbado para o projecto europeu, gostaríamos de trazer para o seio da discussão humorística o futuro do velho continente. Se pudéssemos, convidávamos Heidegger para estar presente e falar da questão do tempo da "crise", Sartre, para explicar o problema da existência da "crise" e da "não-crise" e, claro, não fora a crise grega, o pai do pensamento ocidental, Aristóteles, para nos esclarecer aspectos mais éticos, mais práticos da "crise". Parece que já ouço o alemão Heidegger e o francês Sartre a exclamar em uníssono: "Crise" vem do grego "krisis" e significa uma porrada de coisas que agora não interessa. O que interessa, mesmo, é que vem do grego. Crise vem do grego! (Pausa) Se o que diriam Heidegger e Sartre me parece pacífico, mais complicado seria perceber o que diria Aristóteles. Provavelmente diria: Foda-se?!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Outros carnavais

Olá. Hoje acordei com um formigueiro que me apanhava os membros superior e inferior do lado direito (Pausa), mas depois bati com força no hemisfério esquerdo do córtex cerebral e a coisa compôs-se. O problema foi que acordei com uma erecção na perna esquerda (Pausa) e não a conseguia baixar... Parecia que tinha partido a perna e ficado com ela ao alto para evitar que certos aspectos se verificassem. Disfarcei o mais que pude e, sem acordar ninguém, fui até à casa de banho ao pé coxinho. Tentei abrir a porta com a mão mas (Pausa) a erecção antecipou-se. Fiz chichi, mas para aquele tipo de erecção (Pausa) não resulta, ficam já avisados se alguma vez vos acontecer, pois a perna manteve-se virada para cima. Para resolver o problema, sintonizei o rádio na TSF e ouvi as notícias das sete, com o lado direito do cérebro bem junto ao aparelho. A perninha começou logo a baixar mal processei as primeiras informações do dia sobre a crise da dívida soberana, o défice e o aumento galopante do desemprego. Entretanto, pelo que me fui apercebendo, o Carnaval acabou em Portugal na terça-feira, mas começou na quarta-feira de cinzas, em França. É que, não sei se viram, Dominic Strauss-Kahn voltou a ser preso, desta feita, por incentivo ao proxenetismo. (Pausa) As pessoas também vêem maldade em tudo. (Pausa) Um arranque auspicioso para a quaresma, sem dúvida nenhuma. Na realidade, tudo como dantes: mais uma vez, o crime é sexual e, mais uma vez, tudo se passa num Hotel. É mais asseado e Dominic só faz coisas depois de sair do banho. Para além do mais, é coerente e não diversifica o âmbito dos crimes que dizem que pratica. Com aquela idade, não acredito que pratique grande coisa, (Pausa) mas a medicina está muito evoluída... Ao que parece, o Carlton de Lille organizava umas festinhas para os seus clientes mais exigentes, que incluíam prostitutas. Nada mais natural! Dominic já veio alegar em sua defesa que, sim senhor, manteve sexo com aqueles senhoras, mas que desconhecia serem prostitutas. Pensava que eram camareiras e que o sexo fazia parte do room service. Além do mais, como ele é fisicamente irresistível, é natural que mulheres jovens e extremamente atraentes queiram fazer coisas com ele. (Pausa) Parece-me plausível. (Pausa) Aliás, deve ter sido isso que o terá levado a fazer confusão no hotel em Nova Iorque e o terá feito pensar que, tal como em França, as empregadas de hotel estão incumbidas não só de fazer as camas como, imediatamente antes disso, de as desfazer. Enfim, confusões perfeitamente normais que me levam a pensar que o Carnaval só devia ser permitido em países do hemisfério sul. Em primeiro lugar, porque as empregadas de hotel devem seguir uma moral menos exigente que as suas congéneres americanas; em segundo, porque isso evita problemas com a justiça; em terceiro, porque está calor e isso, não sendo óbvio para toda a gente, ajuda no momento de passear em tanga pela rua. No que me diz respeito, custa-me verificar que estes "carnavais" europeus têm falta de samba e kizomba. (Pausa) É hilariante, mas verdade: em Portugal, passámos tanto tempo a discutir a tolerância de ponto, com medo que as pessoas não pudessem assistir ao Carnaval da Figueira ou de Loulé... por terem de trabalhar... Num país a caminhar para um milhão de desempregados, é de doidos! Sendo que, dentro deste número, cabem os 35 porcento de jovens que não têm trabalho, mas que são danados para o carnaval! O que não falta é povo para a folia, não se preocupem. Já para as manifestações de rua, para as greves tem faltado gente. (Pausa) As pessoas têm coisas marcadas há muito tempo. (Pausa) Algumas têm tudo marcado desde que nasceram. (Pausa) E uma greve ou assim ia trazer muito transtorno. Ou talvez, muito simplesmente, as pessoas em Portugal não saiam para as ruas a reivindicar porque isso é para gente pobre. (Pausa) É para os gregos, por exemplo. Esses desgraçados que não têm onde cair mortos. (Pausa) Nós não precisamos, estamos muito bem assim! Num clima temperado! Com auto-estradas de luxo e estações de metro de fazer inveja ao MoMA. Mas isso são outros carnavais... (Pausa) Olha, não queres lá ver agora a perna direita a aprender com a galdéria da esquerda?!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Uma lição

Depois de Sócrates ter aprendido em Paris a declinar o conceito de "dívida", e ter vindo a Portugal num instantinho para esclarecer os portugueses sobre nuances da merda em que os tinha deixado, ficamos todos a saber que a merda não se paga, cria-se. Um pouco como os filhos. Depois de nos ter dado esta lição, voltou para França, onde segundo soube, estuda filosofia na Université Indépendent.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A agenda do presidente

Hoje é segunda-feira, véspera de terça-feira gorda. Nada melhor do que ir espreitar a agenda do senhor presidente da república para perceber onde é que ele não vai hoje e amanhã, sem avisar as pessoas. Ao que parece, o mais alto magistrado da nação (mede para cima de 1,80m) recebe o reitor da Universidade Técnica de Lisboa. Esta, Cavaco não vai falhar, a não ser que o reitor apareça com os alunos atrás. Aí a coisa promete aquecer e Cavaco deverá esconder-se na casa de banho. Segundo fonte da casa civil, o presidente tem vários procedimentos de segurança previstos para este tipo de situações. Procedimento 1 – Espreitar por trás das gelosias do palácio, para confirmar se o reitor chega sozinho. Procedimento 2 – Uma vez ultrapassado o primeiro check-point de segurança, o próprio Cavaco procederá à revista do reitor à entrada da sala de audiências. O objectivo é perceber se este leva alunos enraivecidos por causa do valor das propinas escondidos nos bolsos, ou camuflados no interior do fato. Procedimento 3 – Todas as palavras a serem usadas pelo reitor durante a audiência tiveram de ser enviadas com antecedência de 48 horas. A ordem das palavras também não foi descurada, devendo a sequência prevista ser escrupulosamente respeitada. À primeira palavra de ordem, o encontro será imediatamente interrompido, até que uma equipa de linguistas, a trabalhar em exclusividade da presidência da república, afira da interpretação adequada a dar às mesmas. Procedimento 4 – Antes da audiência começar, o reitor terá de olhar nos olhos Maria Cavaco Silva, para que esta intua os pensamentos mais íntimos do senhor reitor. O objectivo é fazer o despiste de reivindicações ou eventuais críticas à actuação do presidente que possam habitar o subconsciente do reitor. Como é que eu sei isto tudo? Das duas, três: ou uma fonte privilegiada me disse; ou violei a caixa de e-mail da presidência da República (será possível?); ou inventei tudo da cabeça para fora para fazer humor fácil. Tenho uma ideia de qual seja a hipótese verdadeira, mas não posso revelar tudo. Perdia a piada. E humor sem piada é como piada sem humor: não presta. É cafageste! É execrável! Entretanto, até porque, às vezes, as coisas têm destas coisas, constato no sítio oficial da presidência da república que para amanhã, terça-feira de Carnaval, Cavaco Silva não tem qualquer registo na agenda. Será que há tolerância de ponto em Belém?

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Estado de Graça

O que está a dar são programas de televisão em que pessoas conhecidas imitam pessoas ainda mais conhecidas. (Pausa) Ou é de mim ou a ideia é um bocadinho circular e a roçar as batatas fritas com mel e legumes servidos à parte? Como se não bastasse, no programa em causa, um júri composto por pessoas conhecidas e um tal de Zeca avaliam as prestações dos famosos que lá vão fazer as vezes de outros famosos. É caso para dizer que o panorama da tv em Portugal não está nada famoso. Ai não está não! Eu sei que "às vezes, as coisas têm destas coisas", mas isso também não explica tudo! Por exemplo, não, explica, as vírg,ulas nesta, frase, que parecem, célula,s sex,uais masc,ulinas vistas de cima pelo helicóptero de trânsito da TVI, em hora de ponta; não explica por que razão nunca ninguém se lembrou de deitar fora o IC19, já que está sempre entupido; não explica o estado em que se apresenta o "Estado de Graça" na RTP. Rio mais com o próprio Passos Coelho e esposa, com o António José Seguro, com o Vítor Gaspar, do que com o Monchique, o Madeira, a Bola ou o Marques. E depois já não há pachorra para a dona Dolores, o CR7 e a Luciana Abreu da Rueff. O "Estado de graça" está a transformar-se numa espécie de "portugalex" alargado, e uma pessoa diverte-se mais a tentar distinguir o Goucha da Cristina Ferreira do que a tragar aquele momento musical no fim do programa da RTP, em que quatro ou cinco humoristas treinam telepontos para pivots com bichos carpinteiros. (Pausa) O que eu propunha, para não dizerem que só critico e que criticar é fácil, era um novo conceito para televisão, em que pessoas desconhecidas imitam pessoas ainda mais desconhecidas do que elas. Se entre essas pessoas, umas pudessem ser extremamente magras, outras, obesas mórbidas, isso seria o ideal. Claro que neste conceito também cabe a figura do júri, que seria composto por pessoas completamente desconhecidas do grande público. Agora vou-me lavar que esta semana andei de tobogã e o cheiro ainda não saiu completamente.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

É carnaval

Estou com uma traça tal nos dedos que até fico violento. Se eu fosse de Beja é que era pior, assim, só me dá para pensar em masturbação sadomasoquista. São oito da noite, portanto, seria masturbação em prime time com um share de 0% porque a masturbação é um acto autogâmico e, como tal, não se partilha com mais ninguém. Então, como é que vai a vida?, parece que vos ouço a perguntar. Vai uma merda jeitosa! Porquê?, parece que vos ouço inquirir. Se fosse possível colocar isto que sinto por palavras, diria que estou a fazer tobogã nos intestinos de uma vaca. Dubitativos? (Pausa) Que posso dizer? A não ser que depois da montanha-russa vertiginosa pela tripa abaixo, vem aquela sensação de alívio ao sermos projectados do esfíncter do bovino para um colchão fofinho de erva suculenta. E ali ficamos à espera de lixar o dia a alguém. O que é masturbação sadomasoquista?, parece que vos ouço questionar. Sinceramente, não ouviram (no caso de algum dia eu gravar esta crónica) mais nada depois da segunda frase, não foi? Devem estar a pensar que é uma coisa que aprendi nos fuzileiros. Por acaso, estão muito longe. Aprendi esta técnica quando fazia limpezas na loja Mozart, depois das reuniões do turno da noite, que costumavam acabar já de madrugada. Enfim, coisas tristes da minha vida, que lembro com alguma dor. (Pausa) Embora prazerosa. Ou como diria Jorge Jesus, introduzindo a reflexão com uma locução adverbial de tempo, o que causa sempre um certo suspense: "às vezes (Pausa), as coisas têm destas coisas".(Pausa) Bom, amanhã é domingo e as ruas das principais vilas e cidades do país vão encher-se de foliões retesados, que vão cantar o "Ai se eu te pego" na direcção de um cartaz com a cara do primeiro-ministro. Quase que apostava. O carnaval é o único momento no ano em que os Silvas e Correias do Portugal profundo agarram meninas cobertas de fio dental sem terem de desembolsar metade da gratificação. O que é extraordinário é que o senhor Silva, o senhor Correia, o senhor Pereira, que são portugueses de bigode e que, na rua, caminham sempre um passo à frente das respectivas mulheres, vão também eles querer "pegar" o primeiro-ministro. Parece que já consigo vislumbrar no corso de amanhã à tarde o senhor Pereira, de seis meses, com metade da camisa de ir a casamentos por fora, com o vértice de tecido gasto picando o púbis, a entoar "assim você me mata", ao mesmo tempo que arma as mãos em forma de leque e se refresca com aquele ar projectado pela ponta dos dedos. (Pausa) Até fico de cócoras! (Faz o gesto do leque com as mãos, no caso de adaptação do texto para stand-up) Entretanto, estou mesmo convencido que quem organizou o carnaval deste ano foi a CGTP com arranjos musicais do Arménio Carlos (soa abrasileirado e tudo). A contestação vai sair à rua em forma de borracheira, gente desnuda e refrões MPB. (Pausa) Delícia, delícia... Só mais uma coisa: se você é daqueles que acha que o carnaval já começou esta noite com aqueles grandes foliões que compõem o juri de "A voz de Portugal", então fez bem em ficar até ao fim desta crónica. Ou é de mim ou o Rui Reininho está a marimbar-se para aquilo tudo e a fazer a cena dele, aproveitando que nesta época do ano ninguém leva a mal? Ou é de mim, ou os anjos iam partindo o barro? E estavam com um melão no sítio da auréola e as asinhas derreteram. Por falar em derreter, e a Mia Rose a amuar, viram? Nossa, nossa... O Paulo Gonzo estava com gripe e a filha do Joaquim Furtado, a equilibrar-se nas ancas, parecia um carro alegórico. No final, o concorrente com Alzheimer voltou a esquecer-se da letra. Parece que está a estudar para juiz e o que lhe vale é que dá para ler as sentenças, não tem de as decorar. É cárnávau!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Frase do dia

" O ambiente está a aquecer, estão 15º negativos, neste momento, em São Petersburgo", relatava o jornalista da Antena 1 no início do jogo Zenit-Benfica, esta noite, na Rússia.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Gente magra!

Actor - Sequência do texto anterior (Gente gorda). Deverá funcionar como segundo momento do espectáculo. O comediante deverá pegar no texto e fazer uma abordagem pessoal. Poderá usar as suas próprias características físicas para aprofundar o sketch.

Os magros. Quem nunca se cruzou com um magro e não deu por nada que atire a primeira pedra. As pessoas magras quase não existem, têm a petulância das folhas caducas a esvoaçar num dia de vento. Experimentem tentar apanhar uma desssas folhas que caem no outono antes de tocar o solo. Não conseguem. (Pausa) Deus não deixa. (Pausa) É um jogo com Deus e com a Natureza. (Pausa) Não terão hipóteses. (Pausa) Agora tentem apanhar um magro! Não dá! Deus não deixa! Deus é magro! Deus prefere os magros. (Pausa mais prolongada) Aos gordos qualquer um os apanha! (Pausa) E Deus não faz nada! Deus come iogurtes magros e não se nota porque as barbas de Deus são brancas. Se uma mulher esguia, em lingerie, estiver a comer um iogurte e, acidentalmente, uma lava de produto lácteo lhe começar a escorrer pelo queixo abaixo, isso é um festival erótico. Se acontecer o mesmo com uma mulher gorda, é o resumo da semana da Susana do "Peso Pesado". E é asqueroso. E toda a gente se ri. É injusto, pois os magros têm um QI magro, na maior parte dos casos, do tamanho do estômago. As pessoas magras vivem nos limites da espessura de uma folha de papel, as questões existenciais dos magros chamam-se yoplait e danone... Deus?, A imortalidade da alma?, Donde vimos?, O sentido da vida? são questões que engordam! Os filósofos são gordos e têm problemas de pele. Não são ícones de beleza, apesar de terem vertido muito sobre ela. Ninguém imagina Séneca a fazer publicidade. Imagine-se, por exemplo, o Séneca a fazer a publicidade do modelo, aquela do jovem que quando se ri aumenta a produção de energia eléctrica em Portugal em duzentos porcento. Este jovem, magro e que tem um sorriso lindo, tem um QI muito baixo. Ninguém com noção da realidade, consciente da crise que para aí anda, pode sorrir daquela maneira! Se lhe passarem um teste de inteligência perceberão isso mesmo. Ou então é mal-intencionado, e quer levar as pessoas a comprar coisas que não podem pagar! Mas eu acredito mais na primeira possibilidade. E também acredito na espécie humana, à excepção dos magros e dos gordos. Ah, e também não acredito nos que são assim-assim, aqueles que chegam à nossa beira e dizem: ah, não achas que engordei? Quero lá saber, desde que possa continuar a comer sopa de peixe com coentros e vomitar as ovas a seguir está tudo bem. Os coentros não, que ficam a fazer de nenúfares na bexiga. As lombrigas fazem de rãs e o Paul Mcartney toca a música. Aquela sinfonia dos animaizinhos que ele tem e que é de arrepiar os genitais de um molusco sexualmente activo. Vai ser um festival ali à entrada dos intestinos, de deixar Vilar de Mouros a ver navios. O desporto favorito dos magros é "avistamento de gordos". Começa-se por treinar com baleias de fingir, por exemplo, restaurantes de fast food, ginásios - estão cheios de gordos com problemas de olhos - e combates de sumo. Depois-se passa-se para a competição a sério ao largo dos Açores. Os magros têm a mania que são magros e alguns adoram comer coisas que engordam em público, só para mostrarem que não fazem regime. (Pausa) E vomitá-las em privado. A Endemol não é a criadora do Biggest loser, mas bem que podia pegar em magros mórbidos, tal como se fez com obesos americanos, e trancá-los em algum sítio para engordar. Quem conseguisse engordar mais vencia o concurso e ficava feliz. É isso de que se trata, não é, ser feliz? Para terminar, e porque não há pachorra para gente magra, proponho um novo desporto para gordos, que dá também um excelente jogo para consola: enfiar dez mil magros mórbidos num campo de futebol, vedar tudo pelas quatro linhas e no meio do curral, no centro do grande círculo, colocar uma grua que iça e deixa cair gordos sobre o relvado. Quem sobreviver, participará num novo reality show para gordos e magros estropiados. Parece que já ouço a Júlia Pinheiro a dizer: " - Apesar de não ter o braço esquerdo e a perna direita, que perdeu tragicamente na queda de cima de uma grua, conseguiu manter o equilíbrio e emagrecer vinte quilos, já descontando o braço e a perna amputados". Está tudo doido!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Gente gorda

Actor - O texto que se segue é para ser interpretado ao vivo, na primeira parte de um espectáculo de stand-up comedy. Durante o espectáculo, serão distribuídas maçãs pelo público. Está comprovado que as maçãs impedem o organismo de assimilar as gorduras.

Gordos. Quem nunca se cruzou com eles? Aproximarmo-nos de um gordo no passeio é como chegarmos a uma rotunda. Uma vez que se entre num gordo procura-se a primeira saída. Os gordos dos dias de hoje olham para as pessoas magras como se olhassem para o mapa da África Subsariana: com pena daquelas pobres criaturas, que não tiveram a oportunidade de estagiar num alguidar de carne picada com cebola desde os doze anos até atingir a maturidade plena, por volta dos cento e cinquenta quilos. (Pausa) O que chateia nos gordos, hoje, é o exibicionismo: deixam a barriga à mostra de propósito, que sobra da t-shirt, incapaz de segurar a prega de gordura que pinga sobre o púbis nos dias mais quentes. É horroroso, sobretudo, quando o pingo rançoso faz looping nos pêlos do umbigo, antes de cair desamparado no chão. Há inclusivamente, entre eles, famílias inteiras felizes, apesar do sebo que ganham nas dobras da pele. No outro dia, entrei numa loja de marroquinaria situada num centro comercial. Pensei ver uma carteira para mim, já que sou magro e tenho direito à vida e ao melhor que ela me pode proporcionar. Pensei numa Samsonite. Andava nesta vida quando me deparo com pai, mãe e filho, todos acima dos duzentos quilos à vontade. À minha frente, a obstruir o corredor por onde queria passar, seiscentos quilos de massa gorda! (Pausa) Pensei que ia dando um AVC à loja! (Pausa) Pensei: o McDonald's agora tem rodinhas! (Pausa) Pensei que é por isso que somos um país de toureiros! (Pausa) Pensei que é por isso que existe o Alentejo: para haver um sítio onde aquela gente caiba! (Pausa ligeiramente prolongada para sentir o público) Pensei que é por isso que acabo de inventar um novo desporto: largadas de gordos que tenham participado em reality shows. (Pausa) Estão habituados a correr. Bom, voltando à loja: parecia que o sítio ia rebentar, que os vidros iam desfazer-se em mil pedaços e que pessoas inocentes iam ser projectadas para fora daquele espaço com a força do impacto. Eu fiquei a olhar para eles, e eles para mim. Se eu me encostasse a uma das prateleiras para eles passarem, e eles tentassem passar, eu passaria a ser uma mala de viagem para senhora. Senti-me prestes a ser trespassado por uma manada de búfalos e recuei. Quando entrei na loja e pouco depois os vi, pensei que estava a entrar na adega da minha avó: três tonéis com olhos, atestados de vinho morangueiro e nacional, que ameaçavam atirar-se para o chão e rebolar para cima de mim. Claro que se eu vos perguntar o que eles foram lá comprar, vocês dir-me-ão: arreios! (Pausa) Nada disso! (Pausa ligeiramente prolongada, de modo a sentir o público) Cintos! (Pausa ligeiramente prolongada, de modo a sentir o público). Gordos! Quem nunca se cruzou com eles? Agora, são estrelas de televisão. Ver um gordo a esvair-se em suor na televisão é sinónimo de entretenimento. Estou convencido que era mais decente largá-los num monte e soltar-lhes os podengos, do que esperar que um morra em directo, durante uma gala de domingo, de ataque cardíaco, ao descobrir que o gordo do lado emagreceu mais um quilo e que por isso continua em frente. Para mim, os concorrentes deste tipo de emissão, que fossem sendo eliminados, deviam ser doados na forma de paletas de fiambre da pá e da perna para o banco alimentar contra a fome grego. De que serve pesá-los se depois não os podemos consumir na cadeia alimentar? Era uma maneira bonita de serem úteis à sociedade. Fica a ideia para os senhores da Endemol aproveitarem.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A aposta de Pascal

Acabo de acordar cheio de bom humor, preenchido por um hálito fresco e desodorizante, que espalho à minha volta para que outros possam fruir. Acho que é por causa disto que a dor que tenho no braço esquerdo não me incomoda assim tanto. Porque tenho bom hálito pela manhã. E porque sou bonito. O que me dava jeito era ter um cancro no braço esquerdo, assim a dor que tenho nos ossos deste membro inútil (sou direito) incomodar-me-ia ainda menos. Ah, se vocês existissem, até parece que vos ouço dizer: 
- Não brinques com coisas sérias, Hélder. Olha que andas a brincar com o fogo!
E depois à noite faço chichi na cama, não é? Ainda bem que vocês não existem e que a dor que tenho no braço esquerdo também não! Hoje apetecia-me falar de Deus, mas ele não apareceu e eu só falo das pessoas na presença delas. Se ele amanhã aparecer, falarei d'Ele com letra grande. Até pode ser que folgue as costas e ele fale por mim. E vos abençoe. E vocês passem a existir. Até lá, vou aplicar-vos o "argumento do apostador", de Pascal. Desde logo, sou agnóstico em relação a vós, ou seja, não tenho dados em suficiência para inferir a vossa existência. Estou portanto indeciso. Considero, no entanto, que há boas probabilidades dos meus leitores existirem, sendo estas mais ou menos idênticas à possibilidade de não existirem. Eu quero que vocês existam, pelo que o mais racional é querer que respirem e me leiam. Se apostar na vossa existência, ganho ânimo para escrever e, pelo menos, a ilusão de que o faço para alguém que não a Lu e o meu colaborador imaginário, o Francisco. Já agora, também vou acreditar nele, pelo sim, pelo não. Se apostasse que vocês não existem (eh pá, quase que apostava...) viveria fora dessa ilusão (isto, se vocês não existissem mesmo), por um lado, mas por outro, muito provavelmente, deixaria de escrever. Isso seria péssimo, sobretudo, para os que me são mais próximos, pois teria de destilar isto que me sai dos dedos na vida real. Morreria só, num apartamento decrépito de centro de cidade, e seria encontrado vinte anos depois, pegado ao colo pelo fémur e pelo úmero, como se fosse uma menina, por um valente da corporação de bombeiros. Agora, se apostasse na vossa inexistência, e calhasse de vocês existirem, isso seria muito estúpido da minha parte. É este o argumento de Pascal, que era matemático, como o Francisco. É o que dá pôr matemáticos a discutir questões filosóficas: querem resolver a questão da existência de Deus com a calculadora na mão. Depois pega-se e dou por mim a querer resolver a questão da vossa existência da mesma forma. Pelo sim, pelo não (é assim, não é Pascal?) vocês existem e não se fala mais nisso. Agora tenho de sair, vou almoçar a casa da minha mãe, que não me apetece cozinhar.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Ministro das finanças espanhol: fujam!

Hoje vim até à fronteira de Vila Verde da Raia observar espanhóis com hematomas. Desde ontem que andam todos marcados e se vêem à rasca para disfarçar as nódoas negras. Andam amedrontados porque Cristóbal Montoro (o pai era amante de westerns spagetti), ministro das finanças, já regressou a território espanhol e parece que chegou armado até aos dentes. "É um político muito agressivo", diz quem o conhece bem e que preferiu, por razões óbvias, manter o anonimato. A sua especialidade são reformas laborais feitas em pau de marmeleiro para melhor assapar no povo, mas também é capaz de infligir dor através de decretos-lei e portarias. Não gosta de meiguices e abomina os piegas, por isso é que detesta os portugueses e admira o Pedro Passos Coelho, que nos atura apesar de sermos lamechas e nos queixarmos por tudo e por nada. Por estes dias, há duas classes acossadas no país vizinho: os juízes e os trabalhadores. Se for ao mesmo tempo juiz e trabalhador, então nesse caso, o caldo está completamente entornado. Que o diga Baltazar Garzon, que acaba de receber o prémio por ter sido durante anos o único com coragem para combater o terrorismo e a corrupção: onze anos sem poder exercer a magistratura que é para aprender a estar quietinho! Eu até propunha que Garzon viesse trabalhar para Portugal, uma vez que vai estar desempregado até 2023. Alguns de vocês poderão pensar um pouco e chegar à conclusão de ser desnecessário o magistrado espanhol, para mais tão qualificado e competente como Baltazar Garzon, vir trabalhar para um país em que não há terroristas nem corruptos. O quê? FP25?, Dias Loureiro? Oliveira e Costa? Duarte Lima?, Isaltino Morais? Agora vocês falam, é? Bem, parece-me que tenho de esclarecer uma vez mais este aspecto da vossa condição: vocês não existem e portanto o que vocês dizem também não. Agora tenho de ir andando até ao fogão, que hoje é sábado à noite, e aos sábados à noite dos anos bissextos eu e a Lu fazemos amor. Ok, é sábado sim, sábado não! Não sei como é que vocês conseguem sempre estar a par de tudo! Parecem uma câmara da TVI com o microfone sempre ligado. Sim, e só durante o solstício de inverno! Arre!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Gaspar engata Schäble

Bom dia. O meu psicanalista - que por acaso está de baixa - disse-me, na última vez que lá fui parar com uma crise de rins e espasmos, que com menos dez quilos de traumas no bucho eu andaria muito melhor. Perguntei-lhe onde é que se emagrecia a alma, se havia alguma clínica, ou assim, e ele disse-me que tinha de abandonar cristo e passar a consumir drogas finas. Parece que estou a ouvi-lo dizer: " - Evita as leves e as duras. As primeiras levam-te às segundas, as segundas só te fazem perder vinte e um gramas e acabam-se os bifes de jeito". Ele adora referências ao Woddy Allen e eu também não desgosto, acho que é por isso que não lhe cobro nada por lá ir. Depois, num momento de clarividência - e antes de me fazer um papa nicolau só para ver se estava tudo bem -, disse-me que ele próprio andava a tentar perder uma arroba. E que aí, sim, aí eu ficaria completamente curado. Por essa altura, já não o conseguia ver direito, ainda tentei sublinhar a grossura da minha voz ao dizer que, se calhar, o papa nicolau não se adequava à minha condição existencial, mas já não havia nada a fazer. Quando dei conta, já tinha uma perna em cada hemisfério e o psicanalista à procura do meu útero na minha próstata. Enfim, é no que dá uma vida de amores falhados, copiar na faculdade e cruzar os dedos durante o juramento de hipócrates. Eu até já lhe disse para ele parar de ver filmes do Woody Allen, sobretudo, evitar fazê-lo ao domingo à noite, mas ele não me dá ouvidos, apesar desse ser o trabalho dele... Diz que gosta de ver mulheres nuas com depressão. Foi aí que eu aproveitei para lhe explicar que há outros filmes de outros realizadores em que aparecem mulheres nuas. Até já o aconselhei a ver a TVI ao sábado à noite, mas ele diz que não é a mesma coisa. Que prefere as deprimidas, e na TVI não há mulheres deprimidas e as que há ele preferia não ter de ver nuas. Por falar em TVI, achei a conversa entre Gaspar e Schäuble de uma... normalidade incrível. Foi o assunto do dia, mas eu não percebo porquê! O ministro português de pé, com uma mão no bolso, a outra apoiada nas costas da cadeira que estava mesmo ao lado do ministro das finanças alemão, ligeiramente inclinado para a frente, denunciando a intimidade política entre os dois. Já engatei muito assim, só que em discotecas e parei antes dos trinta. Mas não tenho nada contra quem mantém este tipo de prática pela vida fora. Nem com os gostos de cada um: Gaspar prefere intimidades com ministros das finanças mais velhos, eu preferiria acasalar com a ministra finlandesa responsável pela mesma pasta. Gaspar e Schäuble formam um casal de ministros das finanças, nada mais natural que discutirem planos de resgate e facturas para pagar no final do mês, como qualquer casal. Aliás, se há coisa que eu aprecio nestas reuniões a nível europeu é que os ministros acasalam por áreas, sendo raro haver miscigenação ministerial. Assim, negócios estrangeiros com negócios estrangeiros, defesa com defesa, agricultura e pescas com agricultura e pescas, economia com economia, finanças com finanças. Desse modo, não correm o risco de se ajudarem uns aos outros, o que tornaria o desafio de combate à crise muito menos fascinante. No caso, Gaspar ficou aborrecido pelo facto daquele momento íntimo com Schäuble ter sido registado pelas câmaras, facto que ele repudia pois tratava-se de algo do foro pessoal. Uma situação que eu compreendo perfeitamente, pois se o país pertence a Gaspar desde o dia em que tomou posse, parece-me perfeitamente lógico que este entenda que qualquer conversa que mantenha cujo tema seja Portugal e os Portugueses deva ser considerada do âmbito estritamente privado e, nesse sentido, não deva ser divulgada. A mim já me aconteceu o mesmo, levei para casa marcas de baton no colarinho e vi-me à rasca para explicar à minha mulher que aquilo resultara de uma conversa pessoal que tivera com a Vera, que trabalha na mesma repartição que eu, no momento exacto em que esta recebeu a notícia da morte do pai e precisou de um abraço amigo. Expliquei-lhe que aquilo jamais deveria ter ficado registado na camisa, uma vez tratar-se de uma questão do foro pessoal da Vera. Ainda assim, pese embora todas as explicações que dei, a dúvida ficou para sempre a pairar sobre a nossa relação, como uma espada de Dâmocles. Agora, difícil, difícil vai ser o ministro das finanças espanhol defender-se da acusação de violência "doméstica". Que outro nome pode ter a frase: "amanhã vamos aprovar uma reforma do mercado laboral e o senhor (Olli Rehn) poderá ver que é extremamente agressiva". Se isto não for dar porrada em casa, não sei o que será...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ai se eu te pego!

Quando estava a vir para o estúdio do blog onde gravo estas crónicas, percebi que tinha ainda o arroz de feijão que comi ao meio-dia a acabar de cozer nos intestinos. É uma espécie de cozido das furnas, nada de mais, mas prevejo, ainda assim, um resto de quinta-feira complicado para as pessoas que me rodeiam. Entretanto, hoje costuma chegar a conta da luz e eu só estou à espera para ver se aquilo vem em mandarim. Se vier, aí sim, vou começar a falar. Até agora tenho-me contido, mas se a factura da electricidade vier em tuning vão ficar a conhecer-me melhor. Entretanto, devo dizer que trouxe comigo para o estúdio a minha mulher, porque ontem à noite nos esquecemos de fazer amor. É natural que de vez em quando tenha de interromper a crónica, pois há momentos em que vou precisar das mãos. São poucos, mas sempre que necessário lá terá de ser. Não se preocupem, pois há uma cortina no estúdio e ela está do lado de lá, logo, estão garantidos o respeito pela instituição familiar e a discrição que habitualmente pautam o meu trabalho. Se notarem um silêncio prolongado, preenchido pela música do Michel Totó, é natural que eu ainda demore um bocadinho. Por falar nisto, acho muito boa ideia o Brian Adams ter dicidido relançar a carreira dele a cantar em português do Brasil. O forró é na sua raiz anglosaxónica uma música "for all" e, juntamente com a coreografia, vai conquistar os tops. Pelo menos, os das meninas já foram conquistados. A seguir ao forró, já se sabe, vem o forrobodó. É nesta parte que eu entro, mas até lá vou aguentar-me como um homenzinho. Por falar em paródia, hoje ouvi o António José Seguro dizer que tuteia Pedro Passos Coelho. Respondia a uma pergunta da jornalista que lhe perguntava se isso facilitava a comunicação entre os dois. Sem querer dar palpites - até porque neste momento estou com as mãos ocupadas e a cheirar a saliva - se ele o tratasse por esternocleidomastoideu era capaz de também não ser mal pensado, pese embora tu também facilite alguma coisinha. Com o Álvaro é que só tem trazido problemas. Mas ele é emigrante e, como se sabe, os emigrantes dominam mal quer a língua materna, quer a língua do país de acolhimento. Como se vivessem permanentemente na fronteira linguística entre os dois países. Enfim, de qualquer das formas é como se tivessem convidado a Nelly Furtado para ministro da economia, o que traz sempre inconvenientes, menos um: pode-se tratá-la por tu à vontade. Só para terminar este "entretantos", lá no meu serviço há um Álvaro e toda a gente o trata por senhor ministro, o que, como agora se sabe, é inadmissível e atentatório da sua dignidade pessoal e profissional. Enfim, isto do tu às vezes é um pau de dois bicos e quem se lixa é sempre o mexilhão. Diz, môr? Está bom assim? Desculpem, estava a falar com a minha mulher. Finalmente, deixo dois conselhos para finalizar esta crónica, que, penso, serão de grande utilidade para vocês, sobretudo, porque vocês não existem: 1) se for um actor que faz anúncios publicitários de supermercados e operadoras de televisão por cabo, tenha cuidado! Há gente que anda atrás de si; 2) Se nos próximos dias é uma daquelas pessoas que pretende fazer compras numa loja maçónica, pense duas vezes. É que já está tudo muito escolhido. Ir lá agora era como ir à feira às cinco da tarde! Daqui por mais duas ou três semanas é capaz de haver uma REN, ou assim, a preços muito em conta, mas para já ainda está tudo muito caro. Não se preocupem que aviso mal haja algum desenvolvimento. Estou sempre em cima destas coisas. Não é, môr?


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Nem o pai morre...

Aquilo que eu aprecio mais nas pessoas que já atingiram uma certa idade... Ok, admito, estou a falar do Mário Soares. Andava a protelar isto a ver se a gente almoçava, mas o que é certo é que nada acontece e, assim, não me restam grandes alternativas. Lá terei de falar no homem, apesar de ter prometido ao meu pai que jamais o faria. Agora que penso nisso, o meu pai deve ter pressentido que iria morrer primeiro que ele, o que o deve ter aborrecido muito. A esta distância, friamente, também não era algo difícil de prever: um foi enviado à força para Angola, na década de setenta; o outro, para aquele país africano, como é que se chama?, ai!, França, isso. Como estava a dizer, o que eu aprecio mais nas pessoas que já atingiram uma certa idade é que já não lhes resta muito tempo. Enfim, no caso do Mário Soares não se verifica e eu só encontro uma explicação para que isto aconteça: ele está a embirrar comigo! Estou convencido que um dia que morra vai ser daquelas "pessoas que não morrem: andam por aí", como morria numa das suas últimas crónicas na Visão, António Lobo Antunes, acrescentando que estas pessoas que não morrem no-lo fazem questão de dizer: "segredam-nos", morre ainda Lobo Antunes, "- Não faleci, sabes? E não faleceram [...] Quando é necessário, poisam-nos a palma no ombro." E Lobo Antunes sabe do que fala, morre de quinze em quinze dias na Visão e não há medium que perscrute aquilo. Uma das coisas que mais me aborrece no Mário Soares é que é o pai da democracia portuguesa, o que significa que enquanto for vivo a democracia tem de fazer o que ele quer, ou como se diz noutro português, respeitar a sua vontade. É dever dos filhos respeitar os pais, a democracia portuguesa é ainda uma jovem, ainda a precisar de um acompanhamento parental muito próximo. Deve ser por isso, que ele tem tanta tendência para a paternalizar, sobretudo, num desdobramento invulgar de entrevistas, crónicas, reportagens, documentários, Prós e Contras e debates. No momento político actual, a democracia é uma adolescente que adora contrariar o pai e fumar umas ganzas. O Passos Coelho anda a namorá-la e Soares não gosta, fica acordado até tarde a ver a que horas chega a casa e, sobretudo, em que estado chega! Outra coisa que não gosto em Mário Soares é que não tem cicatrizes no corpo (as de nascença não valem!), se calhar tem-as na alma mas eu de poesia percebo pouco. Gostava de ter como símbolo da nação uma espécie de cruzamento entre Ulisses e Aquiles, heróis que montam cavalos e acham que cavalgar tartarugas, mesmo que gigantes, é como, no parque de diversões, preferir o carrossel à montanha russa. Enfim, agora já me sinto mais aliviado. Também estive a fazer cocó durante o tempo em que escrevi a crónica, o que, apesar de discreto e não dar nas vistas, ajuda bastante em questões de aliviar. Enfim, desculpem-me o desabafo, sei que vocês têm mais em que pensar. Eu agora vou aproveitar e ficar aqui sentadinho a tentar expulsar do esófago - já peguei no piaçaba - o elenco inteiro de "Nem o pai morre nem a gente almoça". O Júlio César é que vai ser mais difícil, porque traz agarrado às canelas pares de bailarinas nuas, que vão com ele para todo o lado. E a seguir vou passar queimax nas coxas que o computador aqueceu muito e eu depilei-me sem querer. Enfim, vou aproveitar e tratar da higiene. Façam o mesmo!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Pensamento do escaravelho

Não foi um barco grande a afundar-se em Itália, foi a Itália a afundar-se dentro de um barco grande.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Às compras

Andar num supermercado é hoje em dia uma tarefa para corredores de meio fundo etíopes (sem desprimor pelos corredores de meio fundo quenianos e somalis), sobretudo, porque temos a sensação de entrar numa máquina de flippers e de sermos a bola. No fim-de-semana passado fui a uma grande superfície, da qual não vou dizer o nome, mas que é uma daquelas empresas modelo e fica no continente europeu. Há, desde logo, uma coisa que me mete muita, muita impressão: um homem “todo sorrisinhos para cima de mim”, mesmo que seja numa fotografia, e mantenha uma distância de segurança. Não gosto, é um preconceito meu, chamem-me esquisito, mas prefiro a Marta do OK Teleseguros, por exemplo. Chamem-me homofóbico, hemofílico ou hematoma, não quero saber, quero é paz no momento de escolher entre o arroz carolino ou agulha. A Marta inspira-me mais confiança, é só isso. O homem até pode ser uma pessoa excelente, escutem, o cartão que ele tem na mão até pode não ser um daqueles que abre portas de quarto de hotel, mas eu ainda assim, a escolher, prefiro a Marta, que… (Pausa) para mais é educada e liga sempre antes de aparecer! Um indivíduo com bom aspecto, a acenar com um cartão, parece-me assédio no local de compras. E eu prefiro ser assediado no local de trabalho. Se tiver de ser no supermercado, prefiro sê-lo pelas meninas da caixa. Por natureza, não sou queixinhas, mas tenham cuidado com este homem. Não me inspira nada de bom... Tenham cuidado, é só o que vos digo! Outra coisa que me incomoda sobremaneira é ser emboscado por senhoras voluptuosas que saltam de trás de pequenos quiosques, com ar inofensivo, instalados nas esquinas dos corredores. Pensando melhor, não tenho nada contra isto. Estas senhoras, com bom ar e vestidas de avental da marca de queijo que estão a promover, têm por objectivo na vida enfiar-nos palitos de camembert pelas goelas abaixo e inquirirem-nos se gostamos. Se por um lado a vida nos pode reservar voos profissionais mais excitantes, por outro há coisas muito piores do que vender víveres espetados em palitos nas esquinas dos supermercados. Assim de repente, consigo lembrar-me pelo menos de uma, mas sem pensar muito. Depois de fazer as compras, segui para a caixa e paguei. Sou um homem honesto e pago sempre tudo. Deve ter sido por isso – e pelo facto de ser extraordinariamente bonito – que a menina da caixa me deu junto com o talão das compras um talão de desconto para gasóleo. Quando me apresto para sair das instalações do supermercado, sou mandado parar em mais uma operação stop. Desta feita, meninas sensuais ligadas à EDP queriam trocar 10 porcento do que gastei nas compras por electricidade. Eu achei aquilo um malabarismo difícil de fazer, disse-lhes que não percebia nada de positivos e negativos, e que até tinha medo disso, porque já não era a primeira vez que apanhava choques com a factura da luz, e aquilo nem fios tem! Depois uma delas perguntou-me se eu era bi-horário ou tarifário normal… Eu disse logo que não, que era hetero, mais normal do que eu era impossível, e que não tinha nada a ver com o tipo do cartaz. Foi aí que ela me disse: “ – Então, senão é bi, preencha este papel”! Eu preenchi e assinei logo em como não era bi. Ela também assinou (parecia que nos estávamos a casar) e pôs lá o n.º de telefone dela. Disse que a partir daquele dia era minha agente e eu fiquei contente pois não sabia que a EDP agenciava humoristas em início de carreira. Ainda falam mal deles… Antes de chegar ao carro, ainda fui abordado por um senhor de uma agência de viagens que há logo à saída das caixas, entre a parafarmácia e a florista. Perguntou-me se já tinha para onde ir nas férias e eu Oouuu! Alto lá! Disse-lhe logo que me tinha acabado de casar com o avião da EDP, que de mim não levava nada e que perguntasse ao tipo do cartaz, que tinha ar de ser menino para ir de férias com um gajo que não conhecia de lado nenhum.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Logótipo

A Lu pediu-me que deixasse de falar dos pés das outras, por isso escusam de pedir muito que eu não vou mais por aí... Como tinha previsto que as próximas dez crónicas fossem sobre pés, tenho de repensar os temas, o que ainda vai levar algum tempo. É aqui que o manual manda fazer a piada: "Pronto, já está", e continuava a crónica, mas não vou fazê-lo, em primeiro, para me irritar a mim próprio, em segundo, para irritar o primeiro leitor deste blog que não tenha sido convocado directamente por mim via sms, mail ou ameaça física, em terceiro, porque sim. Agora que já demonstrei o quão amadurecida está a minha capacidade de argumentação, dizer-vos que andamos a trabalhar no logótipo deste projecto humorístico. A minha sugestão é o desenho do mapa da velha Europa, sendo a estremadura substituída por um braço, um braço forte, de veias salientes, estendido sobre o Atlântico. A mão, uma balsa calejada e rugosa, virada para cima, pede esmola.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Coliseu romano

De manhã, sou como o Tom Waits a cantar o Waltzing Matilda, só que em rouco! Ou seja, para tornar tudo claro já: o Pedro Abrunhosa ao lado do Tom Waits é a Anabela, já o Tom Waits, quando comparado comigo, é a Dina, ainda que mais bonito, embora não sendo fácil, porque o amor de água fresca de todos nós é muito bonito. Pela manhã, tenho aquela voz grave e acentuadamente rouca, as minhas cordas vocais parecem-se com a correia dentada de uma Fazer 600 e a minha laringe equivale a uma betoneira, que um trolha do tamanho de um smurf, que vive na minha garganta, atesta sem cessar com pazadas de areia... Alguns de vocês poderão reflectir um pouco e chegar à conclusão que tudo isto é irrelevante, uma vez que a crónica é escrita. Bom, para vocês que acabam de formular juízos temerários, tenho três palavras: gravador digital áudio. Ando a juntar dinheiro para um com a mesada que a minha mãe me dá, e conto um dia destes começar a gravar as crónicas e disponibilizá-las em versão áudio. Se tenho vergonha por ainda receber mesada da minha mãe aos 35 anos? - Não! Mais alguém tem perguntas fáceis? - Ainda bem, porque a minha mãe já chamou para tomar o pequeno-almoço. Por falar nisso, agora que já acordei mais um bocadinho, e a minha voz já se parece mais com o que ela é, gostaria de falar do ex-líder egípcio, Hosni Mubarak, que em Janeiro último foi presente a tribunal para ouvir a acusação pedir a pena de morte. Alguns de vocês perguntar-se-ão, não sem laivos de alguma alarvidade, por que razão a minha voz de bagaço pela manhã e o julgamento do ditador do Egipto, Hosni Mubarak, são assuntos que se tocam intimamente? Tocam-se assim: vozdebagaçopelamanhãjulgamentodeHosniMubarak. Agora que a relação dos dois temas está feita - se for necessário declino tudo em latim para que não reste qualquer dúvida -, gostaria de esclarecer algumas coisas: ou é de mim, ou o Hosni Mubarak já morreu e apenas falta cumprir aquele pro forma de deixar de respirar, de falar, de bater as pálpebras? Para mais, os egípcios já estão noutra, como se viu no outro dia naquele campo de futebol, entretidos a matarem-se uns aos outros por causa de um jogo do Al-Ahly contra um clube rival. No caso, o Al-Ahly até é treinado pelo técnico português Manuel José, que acumula com as funções de dinossauro Rex. Parece que já consigo ouvir a senhora Merkel - aquela que foi no outro dia imitar a Simone de Oliveira ao "A tua cara não me é estranha", vestida de verde - a dizer: eu sabia que tinha de haver portugueses metidos nisto! Ou em alemão: ich klug dasse portugiesen! O julgamento do ex líder Egípcio mais parece um funeral, tendo todas as características de uma cerimónia fúnebre: Mubarak chega ao tribunal deitado numa maca, de óculos de sol, como as pessoas habitualmente nos funerais, pese embora, em nome do rigor, tenha de dizer que não é o morto que costuma ir de ray-ban. A mulher de Mubarak chora na audiência como a viúva chora o falecido e o ambiente é pesado, sendo possível aperceber-nos de que cada um faz a sua equação pessoal do morto: até era bom homem! Também tinha coisas boas! Ninguém pode dizer que está bem... O facto da acusação pedir a pena de morte para Mubarak é a mesma coisa que num restaurante de fast food mandarmos um hambúrguer para trás porque a carne não está bem picada!

Pensamento do escaravelho

Se eu tivesse dinheiro abria uma loja de aventais.

Descalça vai à fonte...

Para aqueles que acham que o "dia de amanhã será melhor", gostaria de dizer apenas isto: o dia de hoje é o dia de amanhã de ontem! Agora que já acertamos o calendário das nossas expectativas, penso que posso ir directamente ao que me traz cá hoje: pés nus. Para mim, a panca começou quando o Tarantino descalçou a Uma Thurman no pulp fiction. A cena em que Mia Wallace e Vincent Vega (Travolta) dançavam um twist na pista de um dinner ou o diálogo absolutamente assombroso à volta da foot massage entre Jules (Samuel L Jackson) e Vincent despertaram um interesse que de lá para cá ganhou uma importância desmesurada na minha vida, a ponto de estar descalço no momento exacto em que faço esta crónica, dentro de uma sapataria, onde já me apaixonei por um 36 de senhora e um 42 de homem. Se você é um dos meus, então esta crónica é para si. O pulp fiction ainda hoje o guardo (bate no peito) na mão direita. Entretanto, a semana passada, comentando isto com o meu psicanalista, este disse-me que esta minha mania com pés era de uma taradice a toda a prova e que eu devia mudar. Ou tomava comprimidos, concluiu enquanto acabava de calçar as meias, ou mudava-me para a casa dele. Como nenhuma das possibilidades estava em cima da mesa (fui à cozinha confirmar), optei por subir para os joelhos, e andei alguns dias a pesquisar sobre esta articulação (que faz o fim do fémur, osso que para mim tem nome de rei da selva) e o princípio (para quem vem de cima) da tíbia. Mas não é a mesma coisa. Ainda no passado fim de semana fui a dois concertos: na sexta-feira à noite fui ver a Áurea, no sábado, a Márcia. Lá se foi a terapia dos joelhos e tive uma recaída... Não sei o que é isto, mas o meu psicanalista ainda na última sessão me disse que acha que é o meu subconsciente a dizer-me que uma mulher que está com os pés desnudos é meio caminho andado! Depois, pediu-me para que o deixasse fazer um bocadinho de reflexologia podal em mim, e eu deixei que se não o homem ainda violava alguém, e o mundo já tem desgraças que chegue neste momento. Bom, agora tenho de ir, pois a senhora da sapataria já pegou no telefone e deve estar neste momento a chamar a polícia. Logo agora que entrou um 38 de senhora, um pé grego de última geração com as unhas pintadinhas de vermelho só para me provocar, que torna o segundo dedo uma coisa do outro mundo, e que é coisa para me obrigar a trocar pela décima vez este mês as teclas "P" e "E" do computador.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A natureza sábia toda

Se você achar que o Carlo Monteiro é um dos agentes imobiliários mais sensais da história recente da compra e venda de imóveis, isso não significa que você ande com "coisas" na cabeça. (Pausa) Significar, significar, até significa, mas não há-de ser nada de grave. (Pausa) Bom, é grave, é grave sim senhor. Eu sei que o que apetece agora aqui é largar uma mentirinha piedosa, ou um punzinho, mas resistirei à tentação de tapar o sol com a peneira, como diz o bom do povo, como diria, estou certo, o Carlo Monteiro. Se não estiverem a visualizar a imagem do Carlo Monteiro, que aparece nos outdoors publictários da Remax de Braga, vão ao google e façam uma pesquisa com o  nome deste jovem coleccionador de escrituras de casas e molhos de chaves. Claro que se fizerem isto, o vosso caso ainda é mais sério do o que se pensava inicialmente, mas quanto a isso... Agora, se a sua esposa se entusiasma - vamos dizer "entusiasma" que é para não dizer logo o que é - quando vê os jogadores do Benfica de fato e gravata, a sair de um avião e a passear pelos átrios dos aeroportos, empurrando as malas como se fossem caudas luxuosas, então aí significa que o seu casamento está em crise. Agora, se é o caro amigo que se entusiasma com os jogadores do Benfica, bom, então aí está tudo perdido e o casamento acabou mesmo. Se você quiser comprar uma casa ao Carlo Monteiro, nesse caso, atire-se da primeira torre gémea que encontrar ou interne-se numa moradia sumptuosa no Restelo. Vem dar ao mesmo, na segunda hipótese morre-se é mais devagar e pode tomar banho numa piscina e comer pastéis de nata. É estar morto na mesma, mas com menos sangue e sem necessidade de chamar o helicóptero da Força Aérea para o descolar da escarpa e proceder à limpeza das rochas. Os bivalves tratam do resto, que a natureza é sábia e o Lavoisier não é nome de lavatório chique, mas de cientista francês. Se algum dia um actor ler esta crónica, e o fizer de maneira estranha, isso ficar-se-á a dever ao facto de me estar a estimular desde o início da mesma. É a isto que nós, no mundo da blogoesfera, chamamos "a magia do directo". Agora se isto é bom para alguém, para além de mim? Penso que a questão é meia de leite pingada (a metafórica da cafetaria sempre exerceu sobre a minha pessoa um fascínio enorme, apenas suplantado pela nudez feminina nos primeiros filmes de Abel Ferrara) e merece uma resposta pronta. Seja ela qual for.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

The hunting season

A "caça ao cómico" é uma caça aos cromos. É uma visita de estudo a Lisboa para adolescentes. No fim, possivelmente, alguém há-de sobreviver e já não voltará à terrinha. É estranho, contudo, pensar-se que pode ser por ali. Piada, piada tem o Unas, mas este não está a prestar provas. Se ele ao menos desse um pézinho de dança.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Levo o meu Fariseu para todo o lado!

Cenário e contexto: este é mais um Sketch cuja ideia é desdobrar em diferentes momentos/situações a exibir intercaladamente ao longo de um episódio (ou ao longo de diferentes episódios). Será um daqueles para “unir” um episódio, para definir as suas costuras e ajudar a criar a ideia de um todo auto-suficiente. A ideia é evidentemente jogar com a figura “bíblica” do fariseu, doutor de leis, cuja principal característica é cumprir escrupulosamente a lei judaica (“a Tora”). Em cada situação (desdobramento) um dos personagens andará com um fariseu debaixo do braço (literalmente), ao qual recorrerá sempre que tenha de resolver alguma questão legal, moral, religiosa. O fariseu será transportado da mesma maneira que um francês transporta a baguette, com a mesma naturalidade, não devendo nunca parecer um elemento estranho (ou pesado ao personagem que o transporta). Bom, se isto for difícil de pôr em prática, o fariseu deverá andar preso por uma trela. As situações deverão ser actuais, havendo um desajustamento entre os mantos originais dos fariseus, há mais de vinte séculos atrás, o cabelo comprido e as longas barbas (o livro sempre na mão…) e os restantes personagens. O objectivo: satirizar o excesso de legalismo no dia-a-dia das pessoas. Parodiar ainda aqueles que acenam com a lei como se levantassem um bastão...

Estou, neste momento, a desenvolver diferentes situações. Estou a trabalhar na sequência seguinte, ainda por acabar.
Situação 1 – Numa rua da cidade, dois homens caminham em sentidos opostos. Quando se cruzam, batem ombro com ombro. Um deles leva o fariseu debaixo do braço (ou pela trela). Começam a discutir.
Homem que leva o fariseu para todo o lado – Veja lá por onde anda. O passeio é de todos! (Pousa o fariseu no chão. Sacode-o como se o preparasse para algo. Tira-lhe ciscos da boca!).
Homem comum – (Humilde, atitude de quem não quer confusões) Peço desculpa se o magoei. Não me apercebi, quando dei conta já havíamos chocado!
Homem que leva o fariseu para todo o lado – (Olhando o fariseu que adopta um ar profundamente reprovador) Vê-se logo que é do tipo de gente sem qualquer escrúpulo!
Homem comum – (Evitando discussões) Bom… Julgo que, depois de ter apresentado as minhas desculpas, não haverá muito mais a fazer.
Homem que leva o fariseu para todo o lado – (Virando-se para o fariseu) “Não haverá muito mais a fazer”! … Fique o senhor sabendo que isto ainda agora começou! Há pelo menos 40 procedimentos legais contra o facto pelo senhor acabado de praticar!
Fariseu – (Interrompendo o seu dono, esclarecendo) Cinquenta, cinquenta procedimentos previstos na lei! (Pausa) Código da estrada, enquadrado pelo Decreto-Lei nº 44/2005, de 23 de Fevereiro.
Homem que leva o fariseu para todo o lado – (Virando-se para o homem comum) Cinquenta, cinquenta procedimentos! Ouviu bem? Cinquenta! (Surpreendido ele próprio com um tão elevado número de procedimentos, vira-se discretamente para o seu fariseu:) Cinquenta? (O fariseu abana afirmativamente a cabeça, levantando o livro que tem na mão e mostrando-o ao seu dono)
Homem comum – (Impacientando-se) “Facto pelo senhor acabado de praticar”? Caro senhor, eu vinha a andar pelo passeio e inadvertidamente choquei consigo! Não é propriamente a mesma coisa que o atacar à catanada!
Fariseu – (Virando-se para o homem comum) Ah, “ameaça à integridade física simples”, segundo o Código do Processo Penal… A integridade física do meu dono é um bem jurídico, caro senhor!