domingo, 22 de janeiro de 2012

O sexo dos anjos

Decor: à mesa de jantar de uma família de operários fabris (a classe trabalhadora está espelhada na toalha retalhada, no serviço de mesa, no lenço na cabeça da avó, no facto de o chefe de família estar a jantar em camisola interior [manga cavada] e o avô de boné do PSD na cabeça, etc), oito membros do agregado convivem, trocando palavras, travessas e olhares. À medida que se vai ouvindo o piano de “Uma família às direitas” («Those are the days», cantada por Archie e Maude), a câmara vai-se aproximando do enredo familiar, focando os comensais. Pai, mãe, avós maternos (a mulher acaba sempre por impor os “velhos” ao homem, habitualmente tão impotente na cama como à mesa) e os quatro filhos, distribuídos pelas seguintes categorias: Luísa, jovem rapariga, recém-licenciada e no desemprego, usa o cabelo especialmente curto (poderá usar piercing no lábio inferior), veste roupa de homem e é muito magra, não se vislumbrando qualquer traço de feminilidade, Irmãs gémeas, desprovidas de personalidade própria, vestidas de igual, etc, etc, rapaz pré-púbere, gordo e sem escrúpulos, de nome Joca, fazendo lembrar o “Piranha”, de «Verão Azul».

Joca – (Recebendo um travessa de comida das mãos do pai) Obrigada!
Pai – (Sorri, dá um gole no copo de vinho tinto) Não é “obrigada”! É “obrigado”.
Joca – O quê?
Pai – Como tu és rapaz, dizes “obrigado”! Por exemplo, a mãe diz “obrigada”, a avó diz “obrigada”, as gémeas dizem… (as duas, em uníssono, “Obrigada”), a Luísa diz… (Faz uma pausa, há um silêncio angustiante, a mãe esconde a cara com as mãos) Como é que tu dizes, Luísa?
Luísa – (Levanta-se bruscamente e sai a praguejar contra o pai. Os restantes comem como se nada se passasse, à excepção da mãe que mantém as mãos a tapar-lhe o rosto).
Pai – (Voltado para a mãe) A culpa é tua! Não quiseste meter a miúda no ballet! Deu nisto!


Nota Bene - Este sketch deverá ser desdobrado em vários. Objectivo: percorrer a mesma situação em diferentes camadas sociais. Nesse caso, apenas o ponto de partida é o mesmo (a concordância de género), tudo o resto poderá ser diferente. Imaginemos, por exemplo, uma família burguesa (classe média alta). Neste caso, a música de entrada poderia ser um excerto de uma peça clássica, haveria apenas dois filhos, o cenário implicará uma adaptação à classe, evidenciando um outro sentido de gosto. Poderá ainda ser feito um desdobramento do Sketch com uma família de extrema-esquerda, dividida entre a cultura refinada e a condição social e financeira favorável, por um lado, e a dissonante defesa dos valores dos mais desprotegidos, dos mais pobres, dos proletários, das minorias raciais, sexuais, etc., por outro (imagine-se, por exemplo, este sketch no seio da família de Francisco Louçã).

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