terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Matiné

Entrada para uma sala de cinema que exibe filmes para adultos. Vê-se o final de uma fila. O “pica” vai apressando os últimos a entrar. Com o aproximar da câmara, apercebemo-nos de que tem as mãos dentro das calças e vai fazendo movimentos rápidos para a frente e para trás. Vai dizendo em voz alta:
“Pica” – Rápido, rápido, o filme já começou!
(Aqueles que ainda se mantêm na fila introduzem igualmente as mãos dentro das calças. Vê-se que, de um momento para o outro, se deram conta de que estão atrasados e que a sessão já começou. Tudo deve ser implícito.)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Empregadas domésticas

Quando quero arrancar uma boa gargalhada à Lu, digo-lhe que quero ganhar a vida a escrever e que este blog é meio caminho andado! Ela parte o côco e eu fico com o coração dividido: por um lado, sinto que a minha carreira como escritor periga, por outro, que a de humorista vai de vento em popa. Há duas coisas que me fazem rir muito: uma é ver a Margarida Rebelo Pinto a escrever (quer dizer...), a outra é vê-la a dançar (é, mais uma força de expressão). Vi-a, um certo dia, num programa de dança da RTP e ia partindo o cóccix a rir. Para mim, que tenho tango no pé direito e kizomba no esquerdo, o que faz de mim um cruzamento entre Carlos Gardel e Hélder, o rei do kuduro, foi uma visão difícil de aceitar. À parte ser uma manada de ossos articulados, MRP deixou ainda a nú que uma vassoura lhe atravessa todo o corpo, impedindo-a de brilhar na pista de dança. Se para efeitos de concurso televisivo o handicap trouxe resultados desastrosos, o pior deve ter sido mesmo quando pela primeira vez pisou o chão das principais discotecas da Côte d'Azur, onde costuma passar férias. Devem tê-la tomado por um homem bêbedo, e toda a gente sabe como os seguranças tratam os clientes do sexo masculino que se encontram em estado de embriaguez nas discotecas da linha de Nice, ali a seguir a Paço d'Arcos. Mantendo ainda o foco no mundo da dança, uma das pessoas que mais me inspira a dançar - e é só - é o Rui Unas. Apanhei-o no mesmo programa e ele tem muito jeito para dançar aquelas coisas que se dançam na margem sul. Tal como todos nós temos Amália na voz, o Unas tem no traseiro o traseiro da vocalista dos Buraca Som Sistema, e eu sei dar valor a isso e à tradição. Entretanto, e para não deixar o registo dos concursos da RTP, no sábado passado não perdi mais uma "Voz de Portugal", sobretudo, porque se poupa bastante energia. Eu explico: como é a filha do Joaquim Furtado a apresentar, pode-se pôr a volume no mínimo que se ouve na mesma. Gasta-se menos e não faz tão mal aos olhos. E aos ouvidos também não. Relativamente aos concorrentes, não me lembro de nenhum (eles também não se lembram das letras, por isso estamos quites). Relativamente aos jurados, dizer que o Jorge Gabriel dava um excelente par de anjos, bastava colocar um espelho de través e poupava-se um caché. Ao fim e ao cabo os irmãos Rosado assemelham-se muito ao apresentador da "Praça", sobretudo, o mano mais velho, que parece um doutor honoris causa em termos de juri de programas de televisão. A Mia Rose esteve awsome, como é habitual, o Rui Reininho fumou mais do que é costume e o Paulo Gonzo anda a deixar crescer o cabelo, apesar de ainda não se notar muito. Quanto aos convidados, só uma pequena coisa: óh Áurea, já nos calçávamos, não?! É que o pé ganha joanetes com a idade e, depois, das duas, uma: ou se serra ou se corta com uma tesoura da poda! Para finalizar, não queria despedir-me sem fazer uma referência, ainda que breve, ao programa da TVI, "A tua cara não me é estranha". Retive a racha da apresentadora, escapou-me o nome das marcas vestidas pelos jurados, retive o Toy vestido de mulher, escapou-me quem vai à frente, retive o cocó, escapou-me a mãe da Lyonce Viiktórya, retive a Romana a fazer de Adele, que por sua vez já faz de Margaret Tatcher, escapou-me o nome da irmã da Lyonce, que já vem a caminho. Já agora, deixo a dica: ajudava ao esforço colectivo de controlo do défice que os pais da criança poupassem nos is e nos ypsilons, sempre era umas economias que se fazia. A Angela Merkel até agradecia, o coiso, como é que ele se chama?, aquele que já foi primeiro ministro e depois fugiu para Bruxelas, esse mesmo, o coiso sublinharia o esforço de Portugal, enfim, voltaríamos a ser felizes, todos juntos. A propósito: não é que a chanceler quer mandar um comissário europeu para ajudar os governos dos países em dificuldades, assim, a modos que uma doméstica interna para ajudar a "arrumar a casa". Pela minha parte, sou um bocadinho esquisito com domésticas, sobretudo se ficam para jantar e dormir e, se a senhora dona Merkel não se chateasse muito, eu preferia - mesmo sem ver - contratar para nos ajudar a lavar a roupa e fazer de comer uma eurodeputada búlgara, checa ou, no máximo, já esticando um bocadinho, lituana. Por último, agora é que é, mas não ficava bem se não cuspisse isto: o Toy, vestido de Simone, parece a Angela Merkel. Ora digam lá que não vão dormir bem esta noite?!


domingo, 29 de janeiro de 2012

Imitações

O extracto "Bem, agora que já destilei a primeira dose de inveja do dia, dizer que acordei com ramelas no lado do olho onde elas são paridas durante a noite, ali juntinho à cana do nariz, naquele vértice que faz da órbita ocular uma amêndoa. Como adoro frutos secos, acabo de colher a fruta toda do olho e fazer uma salada na boca com o resto das avelãs e nozes, que estiveram a marinar durante toda a noite, da tablete de chocolate que comi ontem ao serão, já deitadinho na posição do morto, enquanto a outra metade da cama mostrava como é que se dorme." é claramente o registo do João Quadros em "Tubo de Ensaio". Na crónica humorada a que pertence, "Gestos lestos", mas também em "Tribo centro-europeia" e "Ler revistas nos supermercados", pretende-se fazer uma imitação do estilo do autor (João Quadros), mas também a forma como o actor (Bruno Nogueira) interpreta o texto, provando, assim, que é possível fazer imitações de autores da mesma forma que o Luís Franco Bastos imita vozes. A imitação que este faz de Bruno Nogueira, por exemplo, na presença deste, é simplesmente assombrosa e demonstra que o humor é, por um lado, uma camisola do avesso, por outro, um caminho que são milhares. O projecto "Remédio dos Escaravelhos" surge para experimentar o texto humorístico, pretende ser uma via para trazer cá para fora ideias que ocupam muito espaço do lado de dentro. Por exemplo, lembrei-me que viria a propósito (é sinistramente actual) fazer um sketch a partir das recentes notícias de mortes de idosos que vivem sozinhos, em regime de semi-abandono. O sketch chamar-se-ia "geriatria 24", uma espécie de linha sos para idosos sós. O sketch seria simples, implicaria uma operadora telefónica (e uma segunda, como figurante, sem falas) que faria chamadas para casas de idosos. Abriria assim: 
Operadora telefónica - Linha geriatria 24, boa noite, é o senhor Martins?
Idoso - Sim, sim, o próprio.
Operadora telefónica - Estou a ligar para saber se já morreu. Imagino que não! Pedia-lhe no entanto que me confirmasse que está vivo. É possível?
Idoso - (Incrédulo) Desculpe?
Operadora telefónica - É apenas um pro forma, Senhor Martins. Queira compreender que estamos a zelar apenas e só pelos seus interesses. (Ligeira pausa) Senhor Martins? Senhor Martins, ainda está em linha? Senhor Martins? (Ligeira pausa, vira-se para a colega do lado) Olha, queres ver que o velho morreu?!
Idoso - (Indignado) Não minha senhora, o velho não morreu!
Operadora telefónica - (Embaraçada) Ok, senhor Martins. Pronto para fazer a prova de vida?
Idoso- "Prova de vida?"!
Operadora telefónica - Sim, senhor Martins. É muito simples, repita a seguir a mim: "Senhor, Te damos graças por mais este dia que passa sem que um bombeiro tenha de arrombar a porta com um pé-de-cabra". Vá, repita lá...
Idoso - (Pouco convencido) "Se-nhor, Te da-mos gra-ças po-r mais es-te di-a sem que um bom-bei-ro te-nha de a-rrom-bar a por-ta com um pé-de-ca-bra"!
Operadora telefónica - Muito bem, senhor Martins. Está bem vivinho da silva, assim é que é. Só falta passar o teste de lucidez! O meu nome é Marta, diga, senhor Martins, como é eu me chamo?
Idoso - Marta...
Operadora telefónica - Muito bem, passou os dois testes com distinção. Pronto, senhor Martins, por hoje é tudo. Amanhã, ligaremos logo pela manhã para ver se não bateu a bota, sim? Boa noite e até amanhã... Ou... até sempre!
Um dedo apontado ou simplesmente criação artística, o amor (de corno) à escrita (todos dormem com ela, apesar de eu achar que é minha), a vontade de fazer vida disto e acabar com uma rotina que, aos 35 anos, não me satisfaz de maneira nenhuma, são, enfim, as razões deste projecto e o fôlego para escrever diariamente o mundo ao contrário, na minha opinião, o papel do humor. 

sábado, 28 de janeiro de 2012

Gestos... lestos!

Ora muito bom dia a todos! A julgar pelo número de comentários, "todos" é um algarismo entre o zero e a Lu... Bem, agora que já destilei a primeira dose de inveja do dia, dizer que acordei com ramelas no lado do olho onde elas são paridas durante a noite, ali juntinho à cana do nariz, naquele vértice que faz da órbita ocular uma amêndoa. Como adoro frutos secos, acabo de colher a fruta toda do olho e fazer uma salada na boca com o resto das avelãs e nozes, que estiveram a marinar durante toda a noite, da tablete de chocolate que comi ontem ao serão, já deitadinho na posição do morto, enquanto a outra metade da cama mostrava como é que se dorme. Como as ramelas são efervescentes - ou como diria a Margarida Rebelo Pinto, sexualmente activas - estou neste momento a sentir uma comichão esquisita na boca, esperem aí um bocadinho (estala a língua, bochecha a saliva). Sinto agora uma sensação de frescura maravilhosa, uma espécie de active fresh, só digo que aconselho isto a toda a gente, é tipo alka seltzer. Bom, o dia promete ser coisa para - na vez de o viver - dar vontade de copular com a Amy Winehouse... Ainda nem sequer decidi o que fazer para o almoço (e já são oito da noite), mas no AEG de 1974, que era do enxoval de casamento dos meus pais, há um arroz de feijão com quinze dias de estágio. Estava a pensar em gratinar no forno, porque tem uma camada verde, espessa e suculenta, na parte de cima, o que deve conferir àquilo um não sei que de gormet. Enfim, é a crise, que assumo (ando teso), e estou convencido que aquilo é arrozinho para quando lhe der a primeira garfada, ainda a dita não atravessou o estreito e já eu estou com as nádegas num tête-à-tête com a tampa da sanita, e a fazer contas à vida: se morrer envenenado, ao menos, não andei nesta vida a deitar comida fora. Há outra coisa que é elementar, após qualquer refeição: não fazer amor e não ouvir músicas do Paulo Gonzo. Áh, e muito menos fazer amor enquanto se ouve o Paulo Gonzo, mesmo nós sabendo que ele compôs aquilo para que a malta pratique o coito como se o mundo tivesse acabado no ano passado. É que o suco gástrico pode excitar-se, e em vez de se atirar à comida, ainda se vira para o miocárdio, que só precisa de uma desculpa para implodir. Porque esta crónica acabou por se virar para a música, mas uma ou duas coisinhas: ou é de mim ou último videoclip do Gonzo, aquele da música dos "gestos lestos" (o que ele se deve ter matado para fazer esta rima?!), é um power-point sacado da net com fotografias de pôr-de-sol, pessoas abraçadas a contemplar o mar e outras quejandas foleirices? Enfim, deixo a questão para camelos mais melómanos do que eu, que estou ao nível do "orelhas" (ainda é família), o que diz bastante do meu gosto musical.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Declaração urgente ao país

Jornalista – Olá, muito bom dia, estamos em directo do palácio de Belém, onde o presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, se prepara para fazer uma declaração urgente ao país. É pena que o país esteja a dormir, pois são quatro da manhã e o presidente marcou isto há duas horas atrás. Com efeito, pouco passava das duas da manhã quando as redacções dos jornais, rádios e televisões começaram a ser invadidas por faxes, mails e mensagens no facebook a convocar os jornalistas para uma conferência de imprensa. O que terá levado Cavaco Silva a interromper a sua noite de sono é a questão que se coloca neste momento. Aguarda-se por isso com enorme expectativa a entrada do sr. Presidente aqui nesta sala do Palácio de Belém onde já se encontra um batalhão de jornalistas… Atenção, o Sr. Presidente acaba de entrar na sala e prepara-se para fazer então a sua declaração ao país… Bebe um golo de água, atenção, vai começar a proferir a declaração... Vamos escutar!
Cavaco Silva – Portugueses, dirijo-me a vós neste momento muito difícil para o país, neste momento em que o país tem pela frente desafios muito importantes, para colocar a seguinte questão:
- Será possível alguém do exterior entrar nas minhas declarações sobre o valor das pensões que aufiro e distorcer o seu conteúdo? Para mais, declarações que proferi ao vivo, à frente dos senhores jornalistas, à frente de alguns de vocês que aqui estão à minha frente? E distorcer o que eu disse sem que ninguém se aperceba? Nem o sequer o Miguel Relvas?
Jornalista – (Em voz baixa) Cavaco Silva a referir-se às suas polémicas declarações a propósito das pensões que recebe e do facto de que o que ganha por mês não chegar para as despesas que tem… Vamos continuar a ouvir…
Cavaco Silva – E será possível que isto tudo aconteça e ninguém assuma responsabilidades? O que eu devia era ter ido para presidente da Guiné Equatorial, que fica na linha do Equador para quem não sabe, e tem um crescimento do PIB na ordem dos 6%. E nem sequer são brancos! Agora imagine-se que eram?! E olhem que isso também se arranja na clínica do doutor Rebelo, que ele faz um óptimo preço se for por atacado. No caso do Michael foi mais caro, porque era só um, e ligar as máquinas de dar o branco só por causa duma pessoa gasta muita luz! Agora se for para um país inteiro, o preço compensa muito mais!
Jornalista – Vamos tentar colocar uma questão ao Sr. Presidente. Sr. Presidente, Sr. Presidente, para o blog de todos nós, diga-me: não lhe parece que as suas declarações, aquelas em que disse que o que ganhava não chegava para as despesas, foram, no mínimo, “infelizes”? É que o Sr. Presidente aufere qualquer coisa como 10 000€ mensais…
Cavaco Silva – “Infeliz” sou eu, ouviu bem?!
Jornalista – Desculpe, Sr. Presidente, não ouvi!
Cavaco Silva – “Infeliz” sou eu, ouviu agora?
Jornalista – Desculpe, Sr. Presidente?
Cavaco Silva – O senhor jornalista já viu algum Aníbal que fosse feliz? Pelo amor de Deus! É por causa destas intromissões de softwares malignos e estranhos que alteram o software da minha voz, apesar dos aspegics que tomo todos os dias para evitar os vírus, que eu prefiro comunicar através da página oficial da presidência da República, no facebook.
Jornalista – Mas o que o Sr. Presidente está a dizer é que alguém conseguiu distorcer o conteúdo das suas declarações sobre as pensões no momento em que as proferiu?
Cavaco Silva – É isso mesmo que eu estou a dizer... Senti um vibrado especial na voz, que nascia na laringe, e acabei mesmo por deixar de me ouvir a mim próprio. Pelo que não faço a mínima ideia do que disse! Mas queria também deixar aqui uma mensagem de tranquilidade para todos os portugueses e dizer-lhes que o mais alto magistrado da nação já tem uma equipa do ministério público e uma outra do departamento otorrinolaringologia do hospital da Luz a proceder à instauração de um inquérito que esclareça todo este caso.
Jornalista – Bom, neste momento, o senhor Presidente prepara-se para abandonar a sala sem direito a mais perguntas por parte dos jornalistas, dos muitos jornalistas aqui presentes, diria mesmo. Entretanto, Aníbal Cavaco Silva fala com um dos seus 20 assessores presentes na sala, no caso, o assessor para as questões da pele do pescoço a partir dos setenta. Aí está, segreda qualquer coisa ao ouvido do seu assessor, este acena afirmativamente com a cabeça. O assessor, neste momento, pega numa cestinha tipo do pão, igual aquelas que se usam nos peditórios durante a missa, e começa a percorrer a sala, dirigindo-se aos jornalistas e pedindo uma pequena contribuição. Bom, daqui é tudo, tenho de pousar o microfone para poder tirar 20 cêntimos do bolso pequeno e apertado dos jeans. Daqui é tudo! Voltaremos à emissão sempre que assim se justifique.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Domingo à tarde

Décor: Dois guionistas (podem ser dois economistas, dois intelectuais) que se juntam num domingo à tarde, na casa de um deles. Trata-se de um encontro familiar, as crianças jogam à bola no pequeno relvado, os adultos estão deitados nas chaise longue, junto à piscina. Os dois homens conversam entre si. As duas mulheres conversam entre si. Os dois guionistas mantêm uma atitude distante da cena familiar… Um deles, pai de uma menina pequena, decide envolver-se mais na cena familiar, apesar da evidente falta de jeito, e, num momento em que a filhota se aproxima atrás de uma bola, pede-lhe desajeitadamente que aquela lhe coma a orelha…
Guionista 1 – Anda comer a orelhinha ao papá, mor… Anda comer a orelhinha ao papá! A orelhinha! A orelhinha!
(A filha olha para ele, recusa, grita mesmo, assustada)
Guionista 2 – (Até aí ausente da história, apesar de se sentar mesmo ao lado do guionista 1, olha desconcertantemente para o amigo. Após um silêncio longo, diz:) Queres que te coma a orelha?
(O guionista 1 olha o outro, sem voz e receoso. O guionista 2 levanta-se e tenta morder a orelha do colega)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Tribo centro-europeia

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que, apesar de Mourinho ter sido assobiado no último jogo no Bernabéu, eu preferia que ele tivesse sido atropelado. Podia, por exemplo, ter sido atropelado pelo carrinho que transporta jogadores lesionados. Apesar de isso ser difícil de acontecer no Bernabéu, porque esta maravilha da técnica ao serviço do desporto só existe no estádio da Luz. Mas o que eu gostava mesmo era que ele se chamasse José Bernabéu, só para ele aprender a não ser mais bonito, inteligente e rico do que eu! Ou então deixávamos, o Mourinho em paz, que, ele ainda, se chateia com a gente. Incomoda um bocado, é certo, como as, vírgulas neste texto, sobretudo nesta última frase, mas, que, não faz mal a, ninguém! Entretanto, voltando aos bólides, era até uma ideia - lembrei-me hoje de manhã enquanto comia pão torrado com marmelada - os bombeiros, o INEM e outras instituições de importância duvidosa, que estão com dificuldades orçamentais, optarem por este tipo de viatura, muito mais económica e ecológica, para fazer o transporte dos doentes, das vítimas de acidentes de viação, dos velhinhos para os lares… Havia de ser giro ver o Catroga a passar com o pernil todo esticado, naqueles carrinhos tipo de golfe (que é ao que ele está habituado), todos os dias, entre as instalações da EDP e o centro de dia onde, todas as tardes, toma a meia de leite e joga à sueca com os colegas. E onde dá explicações de mandarim aos senhores donos do lar, que já começam a acolher a 1.ª geração de chineses que emigraram para Portugal para fugir do Mao Tse Tung. É que eles morrem muito velhinhos, a cair da folha. O Mao foi uma excepção. Enfim, é Mao mas é o que se arranja.
Em segundo lugar, dizer que Janeiro já vai adiantado e ainda não se passou nada de especial. Diziam que em Janeiro é que ia ser, que em Janeiro íamos todos ser empalados a céu aberto no Terreiro do Paço, às mãos da tribo centro-europeia dos mercados financeiros, mas até agora ainda não senti nada de especial. À parte duas ou três suadelas a quatro joelhos – a saber, o preço do leite, a factura da luz e as taxas moderadoras – não se passou nada. Diziam que em 2012 ia ser tudo mais caro, mas em 2011 já tudo era mais caro, em 2010 também, portanto, tudo igual como dantes!
Em terceiro lugar, sabendo nós que o Badaró já partiu para a morada celeste, e sendo o negócio da venda da EDP aos chineses uma coisa do outro mundo, será possível que o chinesinho limpopó tenha alguma coisa a ver com tudo isto? Deixo a questão em aberto para pessoas mais abalizadas do que eu reflectirem. Por exemplo, o Helton, o Rui Patrício, o Fernando Brassard...
Em quarto lugar, dizer que estou com uma enorme dor naquele sítio onde o úmero faz amor com o cúbito e o rádio, enfim, uma cena de ossos gay, é certo, mas que incomoda. Chama-se cotovelo e é do caraças com “lhe”. Por que razão falo disso, perguntarão os mais ciosos da lógica discursiva? Pois não sei, como eu não sou cioso disso… Finalmente, dizer que espero sinceramente, um dia, encontrar um toxicodependente, sobretudo ao nível dos arrumadores de carros em parques de supermercados, sobretudo, naqueles onde eu vou, que seja bem-disposto. Até hoje nem um para amostra! São todos uns macambúzios, estão sempre com cara de poucos amigos, parece que lhes falta sempre qualquer coisa, droga ou assim, não sei dizer! Palavra de honra que um dia destes, quando apanhar um a jeito a dormir num carrinho de compras, o recorto pelo picotado e coloco o braço na tômbola junto à caixa central. Pode ser que lhe saia um carro, ou assim, e que o possa trocar por vales de desconto de 10% na conta da luz, ou por assinaturas vitalícias da zon, para distribuir por toda a família. Sempre era uma maneira de os compensar pelo frigorífico, o micro-ondas, o plasma e o faqueiro do casamento... E nem precisa de agradecer, que faço isto na boa, sem querer nada em troca, a não ser um sorriso. Bom, despeço-me, até, amanhã, que, amanhã, olha, queres ver as, vírgulas, outra, vez. Olha, a, maçada!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Ler revistas nos supermercados

Bom dia. Ontem à noite (perceberam o jogo de luzes? Não perceberam!... Pois...), antes de vir para casa saborear os prazeres de ser pai (que raramente se encontram com os prazeres de ser mãe) parei no Modelo a ver se tinha sorte com a Popota, mas entretanto informaram-me que a bicha hibernou e está neste momento a preparar o seu novo cd, que sai em Novembro próximo. Chegado ao estabelecimento de diversão noturna preferido dos portugueses (já viram as horas a que aquilo fecha?), alapei na zona das revistas. Já repararam que anda para aí uma moda de mamar tudo o que é folhetim, sobretudo, do social nas entradas dos supermercados? Parece a fila para a sopinha dos pobres! (Pausa) E é... Enfim, cheguei lá, ganhei posição junto à estante, e folheei publicações de carros, rasguei (inadvertidamente e sem ninguém ver) o plástico que cobre a penthouse e aproveitei para roçar o mato da zona púbica (também inadvertidamente, ontem estava muito inadvertido) nas chapinhas de alumínio da estante. Apesar da minha tentativa de conferir dignidade a este novo hábito dos portugueses (ler é bom, mas não a primeira bostinha que nos apareça pela frente!), não posso deixar de apontar (aproveito, também, para escarrar e  atirar pedras, como se faz na Bíblia) o dedo a uma nova forma de dependência (e dos dependentes que ela traz sempre atrás, a porcalhota): pessoas toxicodependentes de revistas. Porque sou uma pessoa atenta a fenómenos sociais emergentes (estive na linha da frente quando apareceu o andar em contra-mão na auto-estrada, o carjacking ou o roubo por esticão a caixas multibanco, este último, a que me voltarei a reportar em crónicas posteriores, por me parecer que poderá causar dúvidas a espíritos menos atentos que o meu), já pude constatar que há diferentes tipos de consumo, mas aquele que me enmerda mais é homens a ler revistas para mulheres, repare-se, não é de mulheres, é para mulheres. Alguns maricas nem tentam disfarçar e lêem à escandaleira, abrem bem as perninhas à publicação e aqui vai disto: orgias envolvendo pessoas que quase são pessoas mesmo, a gravidez do momento, o casalinho de candeias às avessas, o passeio à beira mar com o actual namorado, o cão deste e o filho de há dois casamentos e meio atrás. Óh meus amigos homens (salvo seja), vão lá ser gajas assim para outro lado! Só para acabar este assunto, que sinto que realça o que de pior há em mim, a saber, os joanetes e o nariz,  outros homens há que ainda sentem alguma vergonha e tentam disfarçar. Mas levar a revista para a secção de enlatados dá ainda mais nas vistas, meus amigos. Agora o que me apetece é pegar numa dessas revistas, enrolá-la bem enroladinha e, das duas uma: ou fumá-la e curtir a moca até amanhã de manhã, ou bater-vos com ela na focinheira, que é, por um lado, o que vocês merecem, e por outro, o que tem de ser! E o que tem de ser... tem muita força!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Punchline

Décor: sala de formação durante um curso de escrita criativa. A indicação de que se trata de um curso de escrita criativa pode surgir numa legenda no ecrã.
(A câmara começa por focar a sala de formação, o professor gesticulando bastante, vê-se algum entusiasmo e ao mesmo tempo sobranceria face aos aspirantes a escritores. O professor pode estar entre o Pedro Mexia e o João Tordo… Os alunos têm, na sua maioria, um ar suficientemente alternativo, “urbano-depressivo, vestem lãs, usam piercings e tatuagens, alguns têm os headphones à volta do pescoço. A partir desta altura, ouve-se o diálogo… O Sketch deve ser em Inglês e legendado em Português)
Professor – Well, that is the purpose of the punchline in the texte. To fulfill the needs of text and to make possible that the message passes through. (Virando-se para um aluno) Can you stand-up and come over here, please? (O aluno levanta-se, dirige-se junto do professor. Este desfere um soco seco e inesperado no aluno, que cai maltratado no chão. O professor vira-se depois para os alunos  - que permaneciam sentados, atónitos uns, sorridentes outros, demonstrando dessa maneira que haviam apreendido a mensagem -  e com o ar irónico de quem compreende que os seus métodos são lendários e completamente inimitáveis, diz:) That is a good punchline!
Subitamente, um dos alunos que estava sentado numa das mesas mais ao fundo da sala levanta-se e dirige-se ao professor, aplicando-lhe um forte soco no rosto, que o deixou inanimado no chão, dizendo:
Aluno – Well, this is a even better punchline!

domingo, 22 de janeiro de 2012

Rajoy acalma os mercados

Décor: estúdio de televisão/mercado municipal
(Durante um jornal televisivo, o pivô noticia a vitória do Partido Popular (PP) nas recentes eleições legislativas espanholas, que tiveram lugar no passado dia 20 de Novembro de 2011.)
Pivô – Mariano Rajoy acaba de ser eleito primeiro ministro de Espanha. O candidato do PP promete trabalhar para ultrapassar a grave crise económica que assola o país e os números históricos do desemprego. Para já, Rajoy diz querer, com esta sua eleição, acalmar os mercados e tranquilizar o sector financeiro. O “jornal das oito e quê” tem imagens exclusivas do momento exacto em que Mariano Rajoy procurou acalmar os mercados.
(A cena passa para a entrada do "Mercado de San Miguel, em Madrid, onde o líder do PP, mesmo em frente à porta principal, dirige algumas palavras ao... edifício:)
Mariano Rajoy – (Em castelhano) Calma, calma, es necesario tener mucha calma e tranquilidade. Ahora, yo soy lo primeiro ministro. Por eso, calma, calma, yo pido mucha calma. Tranquilo, tranquilo! (Entra no mercado e vai repetindo os pedidos de calma dirigidos a clientes e a comerciantes no interior do edifício) Calma, tranquilo! Calma, tranquilo!
(Emissão volta ao estúdio)
Pivô – Entretanto, segundo conseguimos apurar, uma das primeiras iniciativas do novo primeiro-ministro espanhol passa por fazer uma espécie de "governo aberto", através do qual irá percorrer todos os mercados de norte a sul do país, deixando esta mesma mensagem de calma aos mercados.

Recalcamento freudiano

(Nota: puro nonsense. Objectivo: levar à letra a lógica intrínseca ao recalcamento de situações traumáticas em Sigmund Freud. O Sketch é todo ele visual, sendo um daqueles que deverá ser utilizado entre Sketches mais longos, quebrando o alinhamento.)
Um homem hirto, pouco mais do que um velho acabado de chegar, que numa leira de terra observa atentamente o solo. Breves instantes depois, pega numa enxada encostada a uma árvore e começa a cavar um buraco. Pousa o utensílio, olha através da pequena cratera e começa a fazer sons estranhos, provenientes do abdómen. O som dá origem a um bolo na boca que ele cospe para o meio da cratera. Trata-se de uma bílis amarela e azul, que se destaca da terra castanha. Repega na enxada e cobre o cuspe com uma primeira camada fina de terra. Decalca com a enxada e volta a deitar terra. Decalca uma vez mais. Deita terra. Decalca uma vez mais. Fim do Sketch.

A voz de Portugal

Anda o escaravelho às voltas com uma ideia de Sketch: "O vozeirão de Portugal é canadiano" (o título pretende parodiar aqueles concorrentes femininos que insistem em cantar Celine Dion ou Mariah Carey, Brian Adams, enfim, é uma ideia ainda a trabalhar...). Não se percebe como, no programa de passagem de ano, o "Estado de Graça", em versão XXL (porque durou duas horas, porque contou com mais actores e, provavelmente, com mais autores), não abriu as palas! Pelo contrário, estreitou-as e adelgaçou o conceito, ao convidar o herman (com minúscula) para fazer umas entradas em alemão (chega, por favor, o mestre inventou-os a todos!), quando devia ter convidado o Herman para trabalhar a sério. Até podiam ter dado descanso a um ou dois dos que lá andaram a encher chouriços com a carne do costume: Vítor Gaspar, Pedro Passos Coelho, António José Seguro, Teresa Guilherme, Cátia, Marco (óh herman?!) e Sónia... Uma das ideias do escaravelho era ter-se feito um Sketch à volta do programa "A Voz de Portugal". Fazia duplo sentido, para mais, tratando-se de um programa da RTP. O texto anda, sobretudo, na sonda de figurinos bem delineados. O Rui Reininho - Uma espécie de Van Morrison português em versão prima dona, que passaria o tempo a falar "ao lado". Ou seja, a apresentadora perguntar-lhe-ia sobre a prestação do concorrente que acaba de actuar e o personagem responderia coisas como: - "imaginei-me acasalando com um casaco de pele de raposa no Ohio" ou "os Koalas não fumam ganza ao domingo". A apresentadora passaria ao jurado seguinte, a Mia Rose, que passaria o tempo a dançar sentada (o movimento típico dos ombros, para frente e para trás, o estalar dos dedos em simultâneo, o biquinho com os lábios). Quando instada a comentar a prestação de um dos concorrentes, diria qualquer coisa como: - "achei awesome, incruível (incrível com sotaque do Texas), estou extramente feliz, foi tão cool! Awesome!". Os anjos estariam representados por dois jovens rapazes, com umas asinhas, umas túnicas brancas, uma auréola. Completariam as frases um do outro, diriam coisas como: - "Simplesmente espectacular! Foste fantástica! Adoraríamos levar-te para o nosso camarim e fazer amor contigo à vez!". O figurino do Paulo Gonzo inclui um personagem careca, que põe e tira os óculos constantemente, sobretudo, nas alturas mais desadequadas, como quando acaba de falar. Está sempre a cantar coisas do Ray Charles e do Stevie Wonder, mesmo durante as suas intervenções enquanto jurado. Por exemplo, acaba de dizer que o concorrente "chegou sempre a todas as notas, entrou na canção na altura certa, esteve por cima da banda (epoché para cantar um verso do «Georgia on my mind» ou do «Superstition»), interagiu com o público, enfim, gostei muito"!. Entretanto, outros aspectos poderão ajudar a compôr o Sketch, como por exemplo: O Reininho a dormir quando interpelado pela apresentadora para avaliar a actuação de um concorrente; a apresentadora, que deverá ter umas ancas excessivamente largas e uns lábios pintados em demasia, deverá fazer comentários à roupa de Mia Rose, do género: - "Estás tão linda hoje, Mia. Temos mesmo uma equipa de produção que faz milagres"! A apresentadora deverá ainda gritar, gritar sempre, parodiando o lamentável tique da apresentadora Catarina Furtado. Sempre que diz o nome de um concorrente ou informa sobre os números de telefone para os telespectadores ligarem, deverá fazê-lo muito perto dos concorrentes, deixando-os com o cabelo em pé e em desequilíbrio, tal a gritaria da apresentadora.

O sexo dos anjos

Decor: à mesa de jantar de uma família de operários fabris (a classe trabalhadora está espelhada na toalha retalhada, no serviço de mesa, no lenço na cabeça da avó, no facto de o chefe de família estar a jantar em camisola interior [manga cavada] e o avô de boné do PSD na cabeça, etc), oito membros do agregado convivem, trocando palavras, travessas e olhares. À medida que se vai ouvindo o piano de “Uma família às direitas” («Those are the days», cantada por Archie e Maude), a câmara vai-se aproximando do enredo familiar, focando os comensais. Pai, mãe, avós maternos (a mulher acaba sempre por impor os “velhos” ao homem, habitualmente tão impotente na cama como à mesa) e os quatro filhos, distribuídos pelas seguintes categorias: Luísa, jovem rapariga, recém-licenciada e no desemprego, usa o cabelo especialmente curto (poderá usar piercing no lábio inferior), veste roupa de homem e é muito magra, não se vislumbrando qualquer traço de feminilidade, Irmãs gémeas, desprovidas de personalidade própria, vestidas de igual, etc, etc, rapaz pré-púbere, gordo e sem escrúpulos, de nome Joca, fazendo lembrar o “Piranha”, de «Verão Azul».

Joca – (Recebendo um travessa de comida das mãos do pai) Obrigada!
Pai – (Sorri, dá um gole no copo de vinho tinto) Não é “obrigada”! É “obrigado”.
Joca – O quê?
Pai – Como tu és rapaz, dizes “obrigado”! Por exemplo, a mãe diz “obrigada”, a avó diz “obrigada”, as gémeas dizem… (as duas, em uníssono, “Obrigada”), a Luísa diz… (Faz uma pausa, há um silêncio angustiante, a mãe esconde a cara com as mãos) Como é que tu dizes, Luísa?
Luísa – (Levanta-se bruscamente e sai a praguejar contra o pai. Os restantes comem como se nada se passasse, à excepção da mãe que mantém as mãos a tapar-lhe o rosto).
Pai – (Voltado para a mãe) A culpa é tua! Não quiseste meter a miúda no ballet! Deu nisto!


Nota Bene - Este sketch deverá ser desdobrado em vários. Objectivo: percorrer a mesma situação em diferentes camadas sociais. Nesse caso, apenas o ponto de partida é o mesmo (a concordância de género), tudo o resto poderá ser diferente. Imaginemos, por exemplo, uma família burguesa (classe média alta). Neste caso, a música de entrada poderia ser um excerto de uma peça clássica, haveria apenas dois filhos, o cenário implicará uma adaptação à classe, evidenciando um outro sentido de gosto. Poderá ainda ser feito um desdobramento do Sketch com uma família de extrema-esquerda, dividida entre a cultura refinada e a condição social e financeira favorável, por um lado, e a dissonante defesa dos valores dos mais desprotegidos, dos mais pobres, dos proletários, das minorias raciais, sexuais, etc., por outro (imagine-se, por exemplo, este sketch no seio da família de Francisco Louçã).

sábado, 21 de janeiro de 2012

A cantora careca

Nota prévia: este texto tem piada, é preciso é dar-lhe tempo.

Quando o Mr. Smith, de Ionesco, se vira para Mrs Smith e lhe diz, com aquela paciência salomónica - e arte na gestão de conflitos - com que, habitualmente, um homem explica à mulher avarias mecânicas: - Le commandant d'un bateau périt avec le bateau, dans les vagues. Il ne lui survit pas, ainda não tinha visto aquele filme que saiu recentemente, e protagonizado por Francesco Schettino, como é que se chama, áh, já me lembro, o Costa Concordia. Pessoalmente, não sou daquelas pessoas que vão logo levantar suspeitas infundadas, falsos testemunhos e tirar conclusões precipitadas, mas o comandante do navio de cruzeiro italiano estava, no momento do acidente, acompanhado por uma jovem de vinte e cinco anos. E em Itália toda a gente sabe que "acompanhado" é eufemismo/código dos media de Berlusconi para "bunga bunga". Depois, há outro eufemismo estrategicamente usado nesta tragicomédia de costumes italiana: é que, erradamente, as notícias veiculam a ideia de que o navio terá embatido contra uma rocha junto à ilha de Giglio, na Toscanna, quando é claro em muitas das imagens, nomeadamente, de satélite, tiradas à embarcação que esta embateu contra a própria ilha. Que posso dizer, o comandante ia "distraído", que é outro eufemismo para "acompanhado". Ou então, queria mesmo fazer um favor a um membro da tripulação, que era de Giglio, que consistia em passar o mais próximo possível da ilha para que este pudesse "acenar" aos seus familiares e amigos, plano esse que incluia dar um chocho na namorada, que o aguardava no recorte da ilha, com o Costa Concordia em andamento. E quase que dava!

Ondas blasé

Acabo de chegar do intermarchéé onde fui comprar os croissants para o pequeno-almoço. Enfim, é a crise! Se não fosse, teria ido à pastelaria com a família toda ou até à beira mar constatar por mim próprio como o tempo junto à costa norte é tão desagradável. Depois de nos termos empanturrado em manteiga francesa, os meus filhos dedicaram-se às alarvidades do costume e a pôr em marcha o seu próprio processo de crescimento, a minha mulher ocupou-se de ir ao frigorífico ver do almoço e eu dediquei-me a pensamentos económicos. Ao que parece, o português comum ficou chocado e ofendido e revoltado com o facto de o pr (depois do acordo que Cavaco Silva assinou ontem à tarde com a estupidez e a falta de bom-senso, presidente da república passou a escrever-se com minúsculas) não ganhar para os gastos. Ora, se por um lado esta revolta me parece salutar, por outro, não se compreende porque razão o português comum não ficou ainda mais chocado com o facto de há já muito ele próprio não ganhar para os gastos. Por que motivos insondáveis, o cidadão comum fica blasé quando lhe cortam o abono dos miúdos - já de si mísero -, quando lhe cortam os subsídios de férias e Natal, quando taxam bens de primeira necessidade para 23%, quando constatam os rendimentos de Eduardo Cartroga (aqui, provavelmente, o português comum não se choca pois no caso do Cartroga os 50 mil€/mês dá para fazer face às despesas, ainda que não dê para grandes luxos), mas depois se revolta com o facto de o pr ganhar tão pouco, por um lado, e viver acima das suas possibilidades, por outro?! Fica blasé, provavelmente, porque vai ao intermarchéé. A minha esperança é que os portugueses se revoltem quando efectivamente lhe forem aos bens de primeira necessidade: a comida congelada, os cornetos de morango e o queijo fatiado dos Açores. Aí, sim, vem tudo para a rua. Para finalizar, para que se perceba, para que, pelo menos, eu perceba: o que governo e os portugueses estão a fazer é aquele jogo de miúdos, em que um (o governo) dá socos a outro (o português comum) e este diz, para não ficar por baixo: 
- Áh, áh, não me doeu nada! Dá com mais força! 
E o menino grande (o governo) dá com mais força! E o menino pequeno (o português comum), cheio de nódoas negras e ensanguentado, reforça:
- Áh, áh, não me doeu nada outra vez! Dá com mais força!
E não é que o cabrãozito do menino grande lhe volta a acertar!

As janeiras

Estou a organizar um grupo de cantares das janeiras de última hora para ajudar algumas causas que me parecem - a mim e à equipa de escaravelhos por trás de mim - nobres e urgentes. Assim, o produto resultante desta iniciativa reverterá para:
1 - Aulas de dicção do senhor Presidente da República;
2- Rendas/empréstimos das casas do Algarve, Lisboa e do Palácio de Belém;
3 - Facturas, água e luz dos imóveis em epígrafe;
4 - Descodificador de TDT e curso de formação sobre o mundo digital;
5 - Aulas de ténis dos netos do senhor Presidente da República;
6 - Acção de formação subordinada ao tema: "gestão do orçamento familiar: como fazer para não gastar mais do que o que se ganha"!
7 - Aulas de reciclagem (Curso de Economia abreviado para licenciados antes da crise)
Nota Bene: eu - e a equipa por trás de mim - apenas colocamos as seguintes condições: que nas aulas de dicção e na reciclagem do curso de economia o senhor Presidente não se sente, como é costume, ao lado do ministro Vítor Gaspar, que começam logo a falar entre si e toda a gente sabe que são uma péssima influência um para o outro!

Fenómenos atmosféricos gay (encore)

Em países anglosaxónicos, diz-se "rainbow", nos francófonos, "arc-en-ciel"...
Penso que está tudo dito!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O pedinte

Acabo de sair de um supermercado e qual não é o meu espanto quando, à porta, encontrei um batalhão de jornalistas a entrevistar um pedinte, que se encontrava sentado no chão, encostado à parede do edifício, com uma das pernas estendidas e a outra dobrada. Estendia a mão e pedia moedas, o pedinte, para ajudar a fazer face às despesas mensais que tinha e não conseguia pagar. Por causa de leis injustas, queixava-se o pobre homem, não recebia vencimento, apesar de ter um emprego. Os jornalistas, que adoram a miséria humana, perguntaram-lhe ao certo os rendimentos que efectivamente aufere. Parece que são uns míseros dez mil€ mensais, que ficam muito aquem das suas despesas. Acabo de tomar conhecimento disto, in loco, e não podia deixar de prestar o meu apoio e carimbar a minha solidariedade, por esta via, a única que tenho, a este pobre homem, este Lázaro que é uma das vítimas do actual estado de coisas. Um dos jornalistas perguntou-lhe o que fazia na vida. Ele, algo envergonhado, mais cabisbaixo do que nunca, contando as moedas que tinha na palma de uma mão com os dedos indicador e polegar da outra, expirou baixinho, de forma quase imperceptível: 
- Sou presidente da República!

Fenómenos atmosféricos gay

Pensamento do escaravelho:
"O arco-iris é o fenómeno mais «gay» da cena atmosférica portuguesa da actualidade". Eu sei que alguns poderão dizer que, atenção, há arco-iris noutros países, mas vão por mim... Para já não posso adiantar muito mais do que isto, há pessoas a ouvir, gente a passar aqui à volta mas, logo que possa, volto a contactar sobre este assunto.

A linha do equador

Como é que se explica à mulher, depois desta ter andado a passear os olhos pelo histórico do nosso pc, que passamos a noite anterior a ver pornografia na net, quando dissemos que ficamos a acabar um relatório importante para entregar no dia seguinte ao Antunes, o chefe?
- Pois, não sei...
Como é que se explica que o segurança da Natura esteja em todas as lojas da marca, de norte a sul do país, ao mesmo tempo, sob a mesma perspectiva, em total respeito pelo coito entre o dom da ubiquidade e os princípios lógicos da identidade e da não-contradição?
- Pois...
Como é que se explica que a senhora Celeste Cardona seja um rapaz inglês?
- Pois...
Como é que se explica que o pasteleiro Marco, da casa dos segredos, não invista numa loja concept de pastéis de nata em Cabul e dê um empurrãozinho à economia portuguesa e razão ao Álvaro? Ou em Kuala Lumpur?
- Pois, é difícil dizer!
Como é que se explica que o Damião, do último a sair, tivesse relações sexuais debis com a tíbia dos outros concorrentes, sem um edredon por cima?
- Exacto!
Como é que se explica que cinco ou seis membros da mesma família reúnam toda a sabedoria sobre electricidade existente em Portugal e, mais misterioso ainda: por que razão o melhor electrecista chinês da actualidade comprou uma empresa em Portugal só para os juntar todos no mesmo conselho de supervisão?
- Pois, não sei! O que sei é o seguinte: sempre que na História o ocidente se viu à rasca, virou-se para oriente. Nem que para isso fosse necessário ir dar a volta ao bilhar grande (a África inteira) para chegar à Índia, só parando em Cabo Verde (para fazer chichi) e em São Tomé (para desenhar a nossa parte da linha do equador). 


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Mãe

No outro dia o Francisco confessou-me que chorou ao ler "O Filho de Mil Homens", do Valter Hugo Mãe. Fiquei com pena do meu amigo, claro e acho uma cena degradante aquilo que esse "Filho" do Mãe anda a fazer a pessoas como o meu amigo. Por isso, Valter, pára com isso, ãh, pára com isso! Diz lá duma vez quem é o pai (e não lances o anátema sobre toda a gente, como é costume) e não chames "anã" às pessoas, só porque são ligeiramente mais baixas do que eu ou do que tu!

Pensamento do escaravelho: por trás de um pensamento profundo está sempre um sentimento rasteiro

A razão pela qual as pessoas temem tanto os humoristas é o medo do ridículo. Entre ser-se ridicularizado ou levar-se um tiro, apenas os cobardes optam pela primeira. É por isso que o humor é uma arma e o Bruno Nogueira é o John Wayne.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Liau, Liau, Liau

Para quem, como a Lu, duvide do rir que fazem os textos que aqui começámos a publicar, imagine que são ditos por humoristas como Bruno Nogueira ou o gajo do melancómico. Ou então, que são ditos por um humorista como deve de ser! Um Rôbertu Liau, por exemplo.
PS. Adoro a maneira como este título mia.

Ao domingo há cabrito

Quando era miúdo costumava ir a casa de umas pessoas estranhas, com a minha mãe. Essas pessoas eram estranhas porque tinham mais de uma centena de cães a dormir no soalho comido pelo bicho da madeira, a mijar e a copular em salões amplos e anteriores à criação do mundo. Lá viviam duas irmãs e um homem, que era marido duma delas. A principal atracção da casa era cães ao colo de humanos, como se fossem crianças pequenas, com as patas da frente abertas no ombro de uma das mulheres, a que tinha os dentes da frente iguais ao bugs bunny, e as de trás a esgravatar no ventre. A outra irmã raramente falava, raramente andava (ficava sobretudo parada e dava pequenos passinhos para o lado quando sentia poder estorvar). A casa situava-se numa quinta do Minho, tinha à chegada um velho datsun estacionado debaixo de uma sacada de vinha. Íamos ao domingo. O carro estava sempre enfeitado com cães: cães no capô, cães no tejadilho, focinhos pendentes das barras laterais da grade de carga, situada na parte superior do carro, lombos dobrados contra os pneus, cães em cima do datusn como peluches a pilhas em cima de uma cama. Eu fazia sempre força para não entrarmos, que ficássemos do lado de fora, ao que íamos lá fazer, mãe, nem vale a pena entrar, deixa estar, ficamos aqui. Mas a minha mãe, valente, entrava e eu, cagarola, entrava para a defender, apesar do fascínio dos cães, das teias de aranha, dos ares de bruxa das irmãs e do homem, um personagem de Poe. Tudo íman para o medo, essa escavação nas profundezas de uma criança. Sente-se, dona Helena! Sente-se, dona Helena! Sente-se! Sente-se! Não te sentes, mãe! Não te sentes, mãe! Não te sentes, dizia-lhe caladinho, encostado a ela como uma cria, caladinho, encostado dizia-lhe tudo, caladinho! Ela percebia, dizia: não é preciso, não vamos demorar nada! Passamos apenas para dizer olá! Olá, olá, caladinho, agora vamos, dizia encostado, caladinho. Sente-se, dona Helena! Sente-se, dona Helena. Sente-se! E ela sentava-se, e eu olhava em redor os quadros inclinados em paredes de estuque a cair, os cães roçando-me nas pernas, cheirando-me os gatos que deixei em casa - sempre tivemos gatos - sempre dois, sempre gatos, os cães desconfiando de mim. Pronto, agora temos mesmo de ir, dizia a minha mãe! Sente-se dona Helena! Sente-se, dona Helena! Sente-se! Fiquem para almoçar. Hoje há cabrito, dona Helena, sente-se, há cabrito no forno pronto a sair.

Pensamento do escaravelho

Os escaravelhos andam às voltas com este pensamento:
- Coragem é passear de carro em Braga com um cachecol do Vitória sobre a chapeleira da mala!
Mas tê-los no sítio é passear em Guimarães com um cachecol do Sp. Braga ao pescoço.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

De pé do dia

Há poucas coisas que se assemelhem tanto ao prazer em estado puro como a ida às compras de uma mulher. Como adoro ver mulheres a ter prazer - mesmo que eu não tenha nada a ver com isso, que é sempre - no passado fim-de-semana fui ao centro comercial. (Pausa) Sou antigo, digo "centro comercial", por exemplo, digo: " - Fui ao centro comercial avenida". Bom, adiante. Nisto das compras, já se sabe, há lojas de homem e lojas de mulher. Aproveitei uma ida ao "avenida" e fiz uma incursão numa loja (Pausa) da EDP para pagar a luz. A EDP é uma loja para homens (Pausa) e reformados com papéis distribuídos pelos quatro intervalos de dedos que temos em cada mão, apostados em interpretar as dez páginas da conta naquela bichinha de quatro ou cinco cabeças até à Celeste Cardona, do lado de lá do guichê, a atender as pessoas. Achei que ver uma pessoa reformada do ministério da justiça a atender pessoas que também são reformadas é algo que merece ser enaltecido, e dificilmente percebo as críticas à volta desta nomeação, até porque Celeste Cardona aceita, com humildade e sem pôr em causa, o que lhe dão... (Pausa) E já aceitou, sem estrebuchar, a assembleia da república, o minstério da Justiça, a Caixa Geral de Depósitos... Aliás, eu quando soube que a Celeste ia "vergar a mola" para a EDP, área que domina, pelo menos, desde que a casa de seus pais, em Anadia, foi das primeiras a receber a luz eléctrica, no início dos anos 50', e ela passava a vida a dar ao interruptor, gastando baldes (como ela diz) de electricidade e gerando riqueza para o país, continuando, quando soube que ela ia trabalhar para a eléctrica sino-portuguesa - acho que é assim que se diz, "trabalhar" - não descansei enquanto não descobri a loja para a qual ia ser destacada e ao serviço da qual ia pôr todo o know-how adquirido desde os anos 50'. A adminstração da justiça está para já garantida e é certo que ninguém irá pagar mais kilowatts do que aqueles que realmente consumir. Tem que haver uma moralização do mercado da electricidade, isto tem de ser como... no mundo da droga, só se paga o que se consome! A distribuição de energia eléctrica em Portugal tem de ir beber os bons exemplos a outros grandes "monstros" da distribuição, como a Buraca, o Aleixo, o Intendente. Finalmente, acho que esta nomeação de Cardona para a EDP é de enaltecer, pois considero muito louvável - e motivo de rasgados elogios - a  conversão profissional de pessoas que um mercado de trabalho mais flexível e mais liberal rejeitaria, apenas por causa do factor idade. E abre esperança para pessoas que, com mais de sessenta anos, procuram trabalho. Estas pessoas encontram no exemplo de Celeste uma luz que as guiará até uma saída profissional válida. (Pausa) Palavra de honra que gostaria de pertencer ao "centro de Emprego" da área de residência da senhora Cardona, palavra de honra que gostava!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

- De pé do dia!

Sou professor. Admito que há poucas profissões piores do que ser professor - só há uma, "dar explicações" e, sim... faço as duas - mas levo a vida com honestidade. Quer dizer, não é bem, bem com honestidade, mas é paredes meias com honestidade... É com desonestidade! Após dez anos de ensino - antes tinha um carácter forte e inabalável - e já dou as notas aos alunos em troca de menos alguns sopapos no corredor e menos dois ou três insultos durante a aula. Claro que esta profissão também tem coisas boas... (Pausa) na Finlândia, na Noruega, na Suécia... Bom, em minha defesa, devo dizer que até sou bem tratado, sobretudo, se se comparar com o totó de Religião e Moral, que leva porrada das meninas do 5.º ano. Na verdade, tenho de confessar que tenho um acordo com eles para não me baterem ou insultarem à frente da colega de ciências, que foi colocada lá na escola este ano, e que é "boazon" todos os dias. No fim do mês não sai tão caro como a televisão por cabo ou satélite... (Pausa) Ela está pelo beicinho! Sempre que passa comigo no corredor, os putos mais beras da escola - os ciganos, os afro qualquer coisa e os dois únicos louros de leste que não têm queda para as equações de segundo grau - tratam-me com deferência: " - Olha o bacano do setôr de Filosofia, ou lá que merda é aquilo!" O manecas, que é do Aleixo, no outro dia até me disse: "- Então, profe, tásse?", como se eu fosse um deles e tudo! A colega de ciências ficou para a vida dela e admira-me, vê-se, pela capacidade que tenho de me impôr! Nesse trajecto que fizemos entre o B2 e a sala dos professores não foi violada nenhuma vez! E só foi apalpada por um grupo de dez romenos, que não estavam a par do acordo que havia entre mim, o Manecas e os rapazes, e depois até me pediram desculpa e tudo! No outro dia, até foi engraçado! Um grupo de encapuzados entrou-me pela sala adentro porque viram os meus alunos a entrar na aula e achavam que havia multibancos lá dentro. Depois lá lhes expliquei e eles foram à vida deles. Na verdade, uma sala de aula minha parece uma sala de culto e oração do Ku Kux Klan, tudo encapuzado e aolhar para baixo, só que em catálogo La Redoute, com capuzes de várias cores. Uma riqueza policromática que só é possível em ambientes de respeito pelo outro, pela diferença, valores que eu gosto de inculcar nos meus alunos... sempre que eles me dão autorização para falar!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Alô, alô


Projecto humorístico

Acabo de revelar à Lu (doravante assim designada) que criei o blog que servirá de base ao projecto humorístico com o mesmo nome, "remédio dos escaravelhos". Até aqui, nada mais do que banalidades da vida de um casal, casal... é certo, a atravessar o pior período sexual da sua história de dez anos. Daí o post anterior, aliás, o primeiro deste projecto, que postei a seco, sem apresentações de circunstância ou declaração de intenções, e daí que também não seja dispiciendo revelar os primeiros comentários da minha cara metade de limão, cheios de acritude, ao projecto, ao sonho que o substancia, e sobre o qual tanto perorei à cabeceira da cama, até descobrir que a parte dela dos lençóis já dormia.
Eu - Amor, já criei o blog!
Amor - Outro?! Já não te chegava o que tinhas?! Já não passas tempo que chegue à frente do computador?! Não tens mais nada para fazer?! Se não tens, eu arranjo-te!
Eu -Amor, é o blog daquele projecto que te falei. Daquele projecto com o Francisco...
Amor - Tu e esse gajo, também, sempre a cheirar o cu um ao outro!
Eu - Mas amor, este é aquele projecto, aquele que, se correr bem, pode mudar as nossas vidas.
Amor - Aquele das anedotas?
Eu - Anedotas (foda-se!)? Anedotas (foda-se!)? Não, amor, é um projecto humorístico sério!
Amor - "Humorístico sério"?! Só podes estar a brincar! 
Eu -"Humorístico sério" no sentido em que se trata de um humor difícil, complexo, revestido de segundos sentidos, percebes?!
Amor - Não, não percebo! Se começais com essa mania toda, com a mania de que isso não é para todos, não estou a ver como é que isso vai correr bem e mudar as nossas vidas!
Eu - Não era nesse sentido... Olha, esquece lá isto tudo que eu disse! Não queres ver o primeiro post que eu fiz. Olha, ainda ninguém viu! Nem o Francisco! Queres ver, pode ser que percebas melhor o que eu te estava a tentar explicar!
A Lu aproximou-se do computador e olhou para a imagem com desprezo. Senti a desaprovação no seu olhar, mas perguntei mesmo assim:
Eu - Então?
Amor - Então, o quê?! Acho de um mau gosto a toda a prova. Je trouve ça ridicule, même!
E eu, ciente de que quando fala em francês é na esperança de que eu não perceba, lá me defendi:
Eu - Mas percebes o que quero dizer com esta imagem?
Amor - Não percebo o que uma boneca seminua ao colo de um urso de peluche, no quarto dos nossos filhos, poderá querer dizer?!... Ou que piada poderá ter?!... Será que vai ser necessário um tradutor para cada "piada" que vocês postarem no vosso blog "complexo, revestido de segundos sentidos"?
Ela, que adora fazer aspas com os dedos para me ridicularizar com as minhas próprias palavras, estava regalada. 
Eu - Amor, o que significa é que há mais actividade sexual no quarto dos nossos filhos, do que no nosso!
Amor -Desculpa lá mais isso não é humor rebuscado, é uma anedota do Joãozinho...
Eu - Je t'aime, mon amour. Deculpa, tens razão! Não te chateio mais com estas coisas!
Amor -T'aime aussi, ursinho.

Sexual healing